Em Colônia

Inspirado nas aventuras de uma amiga

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Bem, tudo começou em uma terra bem distante daqui, em uma ilha ancorada no Atlântico Sul, terra de bruxas, de tainhas e do Avaí. Lá, soube da possibilidade de vir para a Alemanha por meio de um intercambio entre as Universidades. Genial, incrível, perfeito. Fico um ano na Europa visitando tudo que é lugar, bebendo e comendo tudo o que aparecer, aí, nas horas vagas arranjo algum trampo para continuar as atividades anteriormente descritas. Todo mundo me deu apoio, todo mundo me incentivou. Vai ser o máximo, eles disseram. Você vai ficar um ano só passeando, eles disseram. Quando voltar vai saber mais alemão do que o Nietzsche, eles disseram. Com toda certeza, eu disse.

Mas, porém, no entanto, todavia tudo desandou. É claro que tudo desandou.

Mal deixei o avião e do nada surge a megera, a ogra, a insensível; a Realidade. Ela me recepcionou com um vigoroso soco na cara, fui ao chão e ela começou a me chutar enquanto cantava os versos de Cartola:

“Ouça-me bem, amor

Preste atenção, o mundo é um moinho

Vai trucidar teus sonhos, tão mesquinhos

Vai reduzir as ilusões a pó”

Não percebi isso de imediato. Comecei a me dar conta quando fui toda faceira pegar meu quarto baratinho. Aí, me informaram na universidade que eu não teria direito aos quartos baratinhos, pois não respondi os e-mails.

– Vixi, que e-mail?

– O que a universidade lhe enviou.

Peguei o celular para verificar a existência dos tais supostos e-mails. #%*& não é que estavam lá. Não era apenas um, eram vários. #$*&@!* os e-mails estavam lá e eu não li a *&%$# dos e-mails. Como não? Por que não respondi? Quando fiquei sabendo o valor de um quarto não baratinho descobri o quanto meu bolso é sensível. Tomei consciência do mal que fiz ao coitadinho. Ele estava ali, estatelado no chão, sangrando, agonizando, pedindo minha ajuda e eu não podia fazer nada pelo pobrezinho. E tudo isso por negligência minha. O que eu não daria para voltar no tempo me esbofetear e gritar:

– Vá ler os e-mails sua tansa!

Pronto, estava na rua, na rua, na rua. Teria que procurar por um banco de praça, marquise de prédio, algum lugar embaixo de um viaduto e tal. Já tinha começado a imaginar onde arranjar papelão e jornal velho. Sorte minha que apareceu uma doida, pois mal me conhecia, e me deixou ficar em sua por duas semanas e me ajudou a encontrar um local.

Então surgiu um lugar onde eu não estaria por caridade. Depois, não podia abusar da hospitalidade. Agora sim, tudo volta ao plano original: passear, comer e beber. Nada disso, nada disso, nada disso! Era o som dos tapas da Realidade na minha cara. Não era nada baratinho ficar naquele lugar. Com o dinheiro a mais gasto para ter um teto sobre minha cabeça daria para comprar dezenas e dezenas de passes do RU.

Assim, as horas vagas para trabalhar e com isso ganhar dinheiro para tocar o plano ficaram largas. Larguíssimas, enormes. Tudo foi invertido, o mundo não tinha mais sentido. Passear, comer e beber é que passaram para as horas vagas.

Isso sem contar o lugar roubada onde fui morar. Mas isso fica para o próximo capítulo da minha saga. Contudo, até aqui tudo pode ser resumido em, literalmente, vim, vi e me fu… Enfim.

Letícia von Teufel

 

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