EM COLÔNIA (CAP.3)

Inspirado nas aventuras de uma amiga

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Opa, olá, tudo bem. Como eu ia dizendo arranjei um lugar só para mim e mais barato. Liberdade, liberdade! Liberdade ainda que tardia. Tá, o lugar não é só para mim, apenas um dos quartos da casa. Mas aqui não tem aquele clima de caserna. Ui, só de lembrar me dá arrepios. E quanto à realidade? Ah, sim. Já ia me esquecendo.  A realidade mandou um sinal de paz. Ocorreu enquanto eu dormia no meu novo lugar. Ela veio até mim. Arisca e desconfiada como só ela. Felpuda, lindona e alvinegra. Uma gata a qual batizei de Realität, Realidade em alemão. Quando abri os olhos para saber que diabo de assombração veio me pegar no meio da noite dei de cara com ela. Realität nem fez caso ao me ver acordar, deitou e logo começou a ronronar. Agora estamos bem. Muito bem. Embora ela jamais vá admitir isso.

– Não mesmo! – Realität.

Viu. Uma encrenqueira. Mas já estamos bem. Só um sustinho aqui outro acolá. Nada de grave. Só para manter a tradição. Hahahaha!

Teve uma vez em uma conversa com um espanhol que conheci aqui. Não dá para chamar de susto, foi mais surpresa. Conversávamos sobre alimentação. Não sei por quais caminhos o assunto passou a ser peixe. Ele disse ser vegetariano e enumerou o que comia e no seu cardápio tinha peixe. Eu observei a contradição. Se peixe come vegetariano não é. Ele riu e disse que tal engano era comum e fez uma longa e pedante explanação do assunto. Disse a besteira com tanta convicção que cheguei por um segundo a duvidar de mim mesma. Será que peixe é carne mesmo? Então, voltei a mim.

– Tens razão. É uma fruta. Assim como existe parreiral, onde dá uva, há o peixeral onde dá peixes. Têm os peixes que nascem em cachos, esses são os menores, como sardinhas. As tainhas nascem como em milharais, você arranca a espiga, descasca e eis que surge uma tainha.

Ele não gostou da brincadeira. Ficou sério. Parecia que estava defendendo os direitos humanos. O cara ficou pilhado mesmo, vá entender.

Ah, mas teve um susto, aí sim susto, bota susto nisso, que durou alguns meses: o inverno. Gente o que foi aquilo. A única coisa que eu pensava quando estava na rua era entrar em algum lugar. Dói tudo de tanto frio, você tira a luva um instantinho e parece que sua mão vai virar uma pedra de gelo, trincar e cair. Teve uma vez que estava tão frio, mas tão frio que já não me sentia congelando. No começo achei bom. Mas, aí, percebi que não sentia mais o pé. Pior, a dormência estava subindo pela perna.

– Bakunin do céu acuda-me. Será que vou ter que amputar?

Corri para a casa, para meu quarto quentinho. Lá, encontrei Realität.

– Você não aprontou de novo, né, sua safada?!

Ela não se assustou e nem respondeu. Veio até mim e tirou um cochilo no meu colo. Em seguida voltei a sentir meu pé. Ufa!

Aquele susto me deixou esgotada. Achei estranho, me sentia fraca, só vontade de ficar à toa. Aí lembrei que no inverno o sol aqui não aparece. Nunca. Céu cinza com céu cinza e mais céu cinza. Era falta de vitamina D, falta de sol. Passei a tomar a vitamina e recuperei as forças. Pronto, agora estava pronta para enfrentar o inverno de peito aberto. Mentira! Hahaha! O inverno daqui faz você ser bem humilde e ter consciência das suas limitações. Não queira ele como inimigo.

Apesar disso, to felizona, fui em um monte de shows, visitei vários lugares legais e outros meio estranhos. Viajei, viajei. Não tanto quanto eu queria, mas viajei. Decidi ficar mais um tempinho. Ah, antes que eu me esqueça faltou te falar sobre os dois tipos clássicos de alemães, classificação minha. Também a saga para renovar o visto. Sem contar o meu “encontro” com os nazis. Sim, ainda existem. Aqui eles dão em árvores e volta e meia fazem um desfilezinho em homenagem a sei lá o que.

Letícia von Teufel

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