Demiurgos: os desmandamentos

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O meio foi achado, bastava, agora, fazê-lo valer. Rezador da República seguiu com sua investigação, porém a velha legislação inviabiliza a plena realização do expurgo dos pecados e dos pecadores. Apesar de tantos entraves e empecilhos Rezador conseguiu conquistar corações e mentes em todo império. Muito disso graças ao Demiurgo que se tornou o arauto dos seus feitos, Anêmico Lacerda, que alardeou pelos quatros cantos da Pérsia a Boa Nova.

– Demiurgos unidos jamais serão vencidos!

Gritavam os aríetes, nossos seguidores. Estes, liderados por nós, também se organizaram. Principalmente no mundo imaterial da troca de ideias. Tal qual uma nuvem de gafanhotos atacam os vendilhões do templo. Os falsos tribunos da plebe passam a não mais ter sossego. Rezador apontou e os chamou pelos nomes que lhes cabem: vendilhões, marajás, oligarcas e corruptos. Anêmico Lacerda, pautador dos aríetes, fez ressoar tais as acusações.

O cerco não ficou restrito ao mundo virtual, pois, quem sabe faz a hora e não espera acontecer. Foram e aconteceram. O dilúvio de deslikes e acusações nas redes sociais não bastava. Os verdugos, os vendilhões passaram a ter dificuldades em circular. Na rua são acossados, no restaurante são acossados, na padaria são acossados, no mercado são acossados. E o que dizer do aeroporto, ali é que ocorre o espetáculo. O incauto marajá desembarca e vê um ou mais aríetes em seu encalço o alcunhando de ladrão, patife e muito mais. Lindo, lindo ver tamanha mobilização. Lágrimas de pura emoção brotam de meus olhos. Melhor ainda quando o verdugo é pego esperando pelo voo, não pode sair correndo, sem chance de se pirulitar do aeroporto. A espera pelo avião é a sua prisão, uma pequena amostra do que o aguarda.

Porém, apesar dos esforços dos Demiurgos e dos aríetes ficou claro que não era o suficiente. Não importa o tamanho do empenho e da fé para regenerar a prostituída Pérsia, com a lei vil e terrena vigente tudo continuará como está. Urgente é reformulá-la e adequá-la à nova realidade.

Rezador e os demais Demiurgos rogavam à incorruptível Luz por auxílio. Porém nada ocorria. Rezador da República pressentiu que algo a mais deveria ser feito. Todavia, tudo o que era humanamente possível ser feito já o fora. Todas as prerrogativas de um procurador já foram utilizadas. Evidente era que uma nova lei se fazia necessária. Ainda mais evidente que a corja acoitada no poder jamais permitira a existência de outra lei.

Em busca de um caminho para contornar o dilema, Rezador entrou no prédio onde reside e pegou o elevador rumo ao último andar. Lá trancou-se em seu apartamento durante  quarenta dias e quarenta noites sem sair para comer ou beber. Ou seja, foi ao topo do cume mais alto e fez um retiro espiritual. Afastando-se das distrações e limitações do mundano mundo pôde refletir com maior clareza e alcançar a Luz. Quando o milagre acontece o computador de Rezador começa a cintilar. Na tela do computador ardente surge um texto. Rezador emociona-se com a força de sua fé ao ler o que ali vai. São o que mais tarde será conhecido como os dez mandamentos. Imprimiu os dez mandamentos e desceu com a tábua da salvação com o fito de anunciar a novidade.

Para que vós, com suas opacas visões e estreitezas espirituais, possais entender explicarei em linguagem rasteira. Os dez mandamentos são dez medidas que irão soltar as amarras dos justiceiros da Luz para que possam salvar a Pérsia, curá-la de suas chagas. Tirá-la da lama e fazer com que volte a ser vestal novamente. Vixi, usei o termo vestal? Usei. Lidar com gente limitada é fogo. Como posso mastigar isso? Sim, já sei. O que quis dizer é fazer com que Pérsia deixe essa vida bandida, essa vida louca de maus passos e volte a ser a boa moça de família dedicada às coisas santas. Enfim, basta de promiscuidade e pouca vergonha.

Aedo da Pérsia

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