Em Colônia (cap.4)

Inspirado nas aventuras de uma amiga

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Então, após um tempo aqui reparei em dois tipos básicos de alemães. Sim, há vários outros, as pessoas são estranhas pra burro para serem reduzidas a dois tipos. Mas falo em dois tipos por possuírem características em comum e elas se referem ao nazismo e aos atos cometidos durante a Segunda Guerra Mundial. Mais especificamente o sentimento em relação a isso. Por isso falo em duas características. Os dois tipos são os mea culpa e os carpideiros. Os primeiros são os que sentem vergonha pelo ocorrido e que a Alemanha da época foi a responsável. Entre os mea há variação de grau quanto a essa vergonha. Em geral ela é acentuada, meio que rola um clima para saber se você é de alguma minoria para daí poderem te proteger sutilmente. Acho que é uma forma leve de espiar a culpa nacional, uma vez que não foram os atuais alemães que fizeram tudo aquilo. É meio esquisito, muitas vezes é cômico. Também há os neuróticos. Você veio do Brasil, mas tem sobrenome alemão. Meu Deus! Por acaso sua família fugiu durante a guerra? Não, não fugiu. Você é judia ou cigana? Não se preocupe estamos aqui para te proteger. Não, não sou. Você parece aquela garota do filme Persepolis. Meu Deus, você é uma refugiada. Que triste, que horror. Aqui você vai superar esse drama, conte conosco. Quê?! Nada disso, eu sou do Brasil. Ah, é. Mas se tiver passando qualquer dificuldade nos procure. E se de alguma forma nós a oprimimos, mil perdões.

– Tá, tá. Me amem menos, saco! – É o que dá vontade de gritar. Só não faço porque sou uma moça bem comportada. Mentira! Hahaha! Talvez. Depende para quem você pergunta. Enfim, há controvérsias.

Você tem que se cuidar para não cair na paranoia. Uma vez disseram se tiver se sentindo em perigo saiba que tem amigos. Isso foi dito de uma forma sussurrada como se quem falasse corresse algum perigo por me prestar solidariedade. Do nada a criatura me fez sentir como se estivesse em um regime totalitário e eu ainda não tivesse me tocado. Daí você fica tipo, Bakunin do céu, estou correndo risco de que? O bom é que depois de um tempo você se acostuma com os mea neuróticos e já não os leva tão a sério.

Então, têm os carpideiros, são os saudosos do nazismo, os que simpatizam com Hitler. Em suma, escrotos totais. Mas como ocorre com os mea culpa existe a variação de grau. Tem os que dizem que o nazismo não foi tudo isso ou que Hitler exagerou com aquela ideia de campos de concentração, mas fez coisas boas. E há as viúvas, são os que pranteiam a derrota de Hitler e prometem vingá-lo. Esses são os carpideiros radicais, os nazis mesmo.  Com frequência fazem desfile e passeatas em homenagem ao seu ídolo e prometem que ele vai voltar. Os judeus deles são os imigrantes, principalmente se de origem mulçumana. Claro que isso não fica assim. Nós vamos lá zoar com festinha de ódio deles. Nunca pensei que fosse adorar ser uma estraga festa.

Apesar dessas aberrações aqui é muito bom. Estou adorando. Tanto que fui ver se conseguia estender meu visto. Fui lá no consulado com um amigo, estava toda feliz até que…

– Você pode até ter sobrenome alemão. Mas saiba que você não é alemã – disse a rabugenta do visto.

Depois se negou a falar comigo alegando que meu alemão era muito ruim. Vê se pode! Então dei uma cadeirada nela e parti pra cima. Tá, não fiz isso. Ficou só na vontade. Queria continuar na Alemanha, mas não atrás das grades. Mas, apesar de tudo, consegui estender o visto.

Quando soube fui comemorar. Perguntei por aí por um bar com cerveja boa. Me indicaram um, mandei mensagem para o meu amigo que me ajudou com o visto para me encontrar no bar. Entro no lugar e só então me dou conta.

– Tão de sacanagem comigo. É sério que entrei em um boteco cheio de nazi! Eu só perguntei onde vendiam cerveja boa e me indicaram essa merda! Sim, eu não disse que procurava um lugar que vendia cerveja boa e que não tivesse nazistas. Mas, &*$%@!? Isso tá implícito.

O pior estava por vir, um deles veio falar comigo. Querendo me impressionar começou a falar bem do nazismo. Arre! O idiota está pensando que sou um deles. Pensei que ia ter um troço. Invés de isso acontecer baixou em mim uma bruxa debochada vinda direta de Floripa. Contei outra versão de Hitler e do nazismo. Disse que Hitler e Stalin eram amantes. Invadiram a Polônia para se encontrarem, pois precisavam de um pretexto. Lá viveram tórridos meses de amor. Formaram até uma dupla sertaneja, Bigode e Bigodinho. Não! Isso não é possível! Disse o nazi. Eu respondi que é sim. Está tudo relatado na obra do grande historiador nazista, amigo de Hitler e membro da SS Hans Waisefüder. Em seu livro o historiador traz cartas trocadas por eles. Eles trocavam cartas íntimas. Nelas Stalin se refere a Hitler como minha Suásticazinha e Hitler chama Stalin de meu Martelão. Em uma das cartas Stalin escreve “Acaba com essas potências ocidentais, mostra quem é que manda, Tigrão!”, ao que Hitler responde “Oh, meu espaço vital, sem ti não sou nada”. Eles só brigaram por causa da dupla sertaneja. Não chegaram a um acordo de quem seria a primeira voz. “Eu, afinal sou o Bigode e você é o Bigodinho. Veja o tamanho da Rússia!”, afirma um. “Ora, ora. Isso não é nada. O destino do Reich é subjugar o leste!”. O nazi ficou incrédulo. Perguntou qual era o nome do historiador? Waisefüder, Hans Waisefüder. Vou ver se meus amigos conhecem e se dirigiu para a mesa e eu me arranquei do lugar para não sobrar para mim. Encontrei meu amigo entrando. Peguei na mão dele e disse vamos embora que aqui é roubada.

Pronto. Essa é a minha trapalhona saga aqui na Alemanha. Não tenho mais nada a contar. Talvez tenha. Sei lá. Tipo, talvez haja algum motivo a mais para eu ter estendido meu tempo aqui. Talvez alguém tenha relação com isso. Talvez o meu amigo não seja só meu amigo, talvez. Talvez tenha talvez demais nesse parágrafo. S2. Tschüss.

Letícia von Teufel

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