Demiurgos: a pedidos

Cassandro de La Mancha

Os que se tem na conta do bem não percebem suas fraquezas e suas limitações

Sendo o bem tomam suas ações sempre como boas pelo simples fato que foram eles que as realizaram

Isso vale mais que qualquer argumento

É uma Lei, uma evidência, um dado a priori

Como se consideram o bem veem no diferente o mal

E o mal não é simplesmente o que diverge

O mal é a diferença que deve ser eliminada

Com exceção deles, o bem, tudo é o mal

Impressiona quanto mal os bem intencionados do bem encontram

Até na respiração e no andar

Suas ações jamais são uma correção, uma manutenção da norma

São salvações e redenções

A equação do caos se forma quando os bem intencionados do bem somam a sua vontade com o poder

Resultado

A capacidade de realizá-la

Quem terá paz?

Adentrarão os lares e ditarão até a forma correta de usar o sofá

E nunca se saberá de antemão a ordem do dia

Tudo dependerá de humores alheios

Passaremos a ser tangidos para lá e para cá

Sem saber por qual motivo

Se isso nos beneficia ou não

Eventualmente emperraremos de indecisão

Será que devemos ir ou não?

Então seremos surpreendidos por um açoite do bem que nos impelirá a seguir pelo caminho indicado

Então lembraremos

Nem sempre fomos ruminantes

Tornamo-nos ou voltamos a ser não faz tanto tempo assim

E concluiremos

Fomos nós que abrimos a porta para tal metamorfose

Por medo, por sede de justiça, por cobiça

E muita insensatez

Sentimo-nos sós por estarmos por nossa própria conta

Sentimo-nos abandonados

Os letárgicos deuses se esqueceram de nós

Entediaram-se

Fomos uma boa distração por alguns milênios

Mas já encontraram uma nova e demoram-se nela

Restou-nos a saudade do hábito

E o costume de servir que achávamos que possuíamos

Descobrimos que somos possuídos por ele

Sem mais desígnios vindo das alturas

Sem mais mensageiros descendo a montanha com leis

Juntamos nossos valores e erigimos novos deuses

Para aplacarem a nossa angustia de ficarmos à nossa própria sorte

Os bem intencionados atenderam a um pedido nosso

Nasceram de nossos anseios

Entregamos o que não tem preço na vã esperança de obter um pouco de paz

Entretanto, ela não virá

Não somos dignos dela, não a merecemos

Seria uma injustiça sem tamanho

Uma indecência

 

Cassandro de La Mancha

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