Síndrome de Estocolmo (cap.1)

banksy síndrome de estocolmo

Estou como medo. Logo faço doze e acho que muita coisa vai mudar. O Doutor parece não gostar mais de mim. Agora, ele só manda me buscar muito de vez em quando. Parece que tem a ver com a minha idade, estou ficando velha. Eu não quero crescer! Não quero! Uma vez ouvi uma história onde as crianças nunca cresciam. Nela uma garoto chamado Peter Pan levava as crianças para a Terra do Nunca e lá elas brincavam muito e viviam várias aventuras. A minha Terra do Nunca é a fazenda do Doutor. É enorme. Tem mato, têm bichos, passarinhos. Um montão de passarinhos e eles cantam bonito. Lá o mar é bonito, não é como aqui no mangue: sujo e com mau cheiro. Tem cheiro de sal, tem gosto de sal. O ar é bom, muito bom. O rio é doce e gelado. Bom mergulhar nele. E tem bastante fruta nas árvores, subo nelas e pego as frutas. Não quero deixar de ser criança! Não quero! Queria viver para sempre na fazenda. Rolar no pasto, ouvir as vacas mugirem e os gritos engraçados dos gansos do laguinho. Lá tem a dona Maria. Ela tem cheiro de mãe. Gosta um montão de mim e parece que tem muita pena de mim. Não sei o porquê. Pobrezinha, tadinha. Ela diz isso de mim quando acha que não estou ouvindo. O seu Dião é o marido da dona Maria. Ele não gosta de mim. sempre se sente contrariado na minha presença. Não consegue ficar no mesmo lugar que eu. Não sei o motivo. Já perguntei para dona Maria. Ela diz que não é nada disso, que é para eu esquecer isso. Para ir brincar. Sempre que eu toco no assunto ele muda o assunto. É bem esperta ela.

– Dona Maria, por que o seu Dião não gosta de mim?

– Essa bobagem de novo, menina. Esquece isso. Vou fazer um bolo. Quer de que?

Então finjo que esqueço, dona Maria se magoa quando toco no assunto e ela é tão boa comigo e o bolo dela é bem gostoso. É a fada do bolo.

Uma vez, de manhazinha, espiei eles conversando. Era na cozinha. Fui para lá por causa do cheiro bom de pão sendo feito e café gostoso. Antes de entrar na cozinha ouvi que proseavam. Então, fiquei quietinha e me aproximei da porta bem devagarinho.

– O doutor tá bancando os estudos dos nossos dois meninos, Maria. Agora você quer propor trairagem, ingratidão. Foi ele quem conseguiu aquela tal bolsa para o nosso caçula na faculdade da família dele e arranjou lugar pra ele ficar lá na capital. E quem foi que arranjou emprego e aquele curso profissional pro nosso mais velho? Quem foi, hein?

– Foi o Doutor. Eu sei disso, Dião. Mas você acha isso certo? É uma criança.

– E quem tem certeza do que nessa vida? O que eu sei é que temos que fazer o que temos que fazer e não ficar dando pitaco no que os patrões fazem. Quer inverter a ordem do mundo, arre! Trata de desapegar dessa rapariguinha para não fazer nenhuma bobagem. Depois, quem ia dar importância. Olha quem é o Doutor, olha quem é essa rapariguinha. Ela é só uma anônima. Nem a família dá por ela, se a terra engole quem vai dar pela falta?

– Não fala assim que é pecado. Eu vou sentir falta.

– Diacho, já se apegou! – e saiu irritado.

Tadinha dessa tal Rapariguinha, nem a família gosta dela. Quem será que é? Nunca vi outra menina na fazenda. Não na casa grande. Acho que fiquei com ciúme. Fiquei me perguntando quem é essa menina que o Doutor conhece e eu não. Será que ele traz ela para a fazenda quando eu não tô? Não gostei dessa história de outra menina passeando pela fazenda quando eu não estava. Não gostei não. Perguntei pro Doutor quem era essa tal de Rapariguinha. Ele ficou branco, esbugalhou os olhos. Teve um troço, pensei. Mas, aí ficou carrancudo.

– Que história é essa de Rapariguinha? Quem falou isso? Foi alguém da fazenda? Ande, fale!

Eu me assustei, ele nunca falou brabo comigo e corri para o banheiro. Ele foi atrás. Tentou abrir a porta, mas eu tranquei. Não devia ter trancado, ele vai ficar furioso, pensei. Mas não. Falou calmo comigo.

– Tudo bem, Cabritinha. Não precisa se assustar assim. Venha, volte para cama, vamos terminar de ver o filme.

 

Cabritinha

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