Síndrome de Estocolmo (cap.2)

banksy síndrome de estocolmo

Será que tudo vai voltar a ser tão ruim quanto era antes? Qual a necessidade de eu crescer? Antes era tudo muito esquisito. A vó não gostava de mim. Tinha raiva. Sempre irritada comigo e não gostava de ser chamada de vó.

– Não me chama de vó, estrupício! Eu sou a irmã da sua vô! Olha o meu azar! Depois de velha ainda me sobra você para cuidar. Mas aqui não tem lugar para gente desocupada não. Olha essa miséria. Veja, veja! O que vou fazer com você. Mas já que sobrou pra mim não vou ficar no prejuízo.

A comida era pouca, bem pouca. E ruim, muito ruim. Eu reclamava de fome e a vó me batia. Dizia para não reclamar que aquilo era mais que eu merecia.

– Quer mais? Tem que ir a luta.

– Mãe, é só uma criança.

– Não me venha você também, Túlio. Outro peso morto. Não ajuda em nada aqui na casa.

– Tenho minhas necessidades.

– Ora, então, não se meta. Tá com pena, então, cuide você se acha que pode fazer melhor.

Acho que o tio Túlio achava que não podia. Sempre que tinham essas conversas ele se retirava.

Tem um montão de crianças no mangue para brincar. É a única coisa boa. A gente corri para e para cá nas palafitas e os adultos ralhavam com a gente com medo de que um de nós caísse no mangue. Isso acontecia de vez em quando. Eu cai duas vezes e fui me limpar bem rapidinho, tinha medo da cinta da vó. Mas não é fácil tirar a lama da roupa e a vó me pegou as duas vezes. Doeu muito, ela sabe machucar. É a única coisa que faz bem.

Uma vez o Juninho, durante nossas brincadeira, despencou da palafita e caiu no mangue. Nos juntamos para rir dele e ele xingava a gente. Então eu vi que tinha mais alguém caído no mangue. Era um adulto, não se mexia e tava de cara na água suja. Eu apontei o homem. Achei estranho, todos nós achamos esquisito. O Juninho se assustou e saiu correndo. Um tempão depois tinha um monte de gente esquisita usando roupas parecidas. Era a polícia e mais um monte de gente estranha. Colocaram o homem no saco e depois num carro feio.

– Disputa de território, nessa miséria?

– Pra você ver.

– Vá entender. Pelo menos um traste a menos no mundo.

É o que ouvi dos adultos. O homem tava morto. Era o Celestino morador do mangue. Depois dele teve outros. E volte e meia dava para ouvir tiros durante a noite.

No mangue não aparece muita gente diferente. Só a polícia e às vezes o pessoal da TV, junto com a polícia. Mas sempre aparecem moradores novos. Mas eles parecem iguais aos que já estavam no mangue. É como se fosse uma família só.

Foi no mangue que vi o Doutor pela primeira vez. Era época de eleição. Nesse tempo aparece gente diferente, um montão. Foi no mangue que conheci o Doutor. Tinha um monte de gente com ele. Eu só tava vendo aquele povo de fora. Então, o Doutor me viu. Eu percebi. Pensei em correr, mas não corri. Ele fez um gesto para não ser acompanhado por sua turma. Veio até mim e perguntou meu nome. Ele falava manso. Ele sorriu para mim e nenhum adulto sorria para mim.

O Doutor perguntou pela minha casa e eu levei ele até em casa. No caminho ele cumprimentou um monte de gente. Chegamos em casa e não tinha ninguém

– Eu espero. Quer ouvir uma história?

Então o doutor me contou sobre o Peter Pan e a Terra do Nunca. Disse como era a fazenda e tudo mais. Falou de um monte de coisas que eu não conhecia nem pelo nome. Falou que se eu quisesse podia ir lá.

– Eu sou um tipo de Peter Pan, sabia?

A vó apareceu e não ralhou comigo por ter um estranho na casa. As pessoas, os adultos, já conheciam o Doutor. A vó também conhecia. Ela foi bem boazinha com ele. Achei estranho. Parecia até que tava meio que com medo dele. O Doutor disse que precisa ter um particular com minha vó e eu fui mandada para fora por ele. A vó não fez reparo nisso. Minutos depois fui chamada. O Doutor não tava mais.

– Venha cá, menina – disse a vó me chamando para seu colo.

Eu não fui, fiquei com medo de apanhar. Achei que ela não me bateu antes por causa da visita. Mas ela me chamou e eu não podia desobedecer. Era pior, sempre. Fui, tremendo de medo, e ela me pôs em seu colo.

– Você sabe que vovó sempre te amou. Só era um pouco grossa para você não desencaminhar na vida. O Doutor prometeu te levar para a fazenda não é. Pois, então, amanhã você vai. Vai ser como férias. Não se preocupe o Doutor vai cuidar bem de você e não conte nada disso para ninguém. Esse povo é invejoso e mau.

 

Cabritinha

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