Síndrome de Estocolmo (cap.3)

banksy síndrome de estocolmo

No dia seguinte que a vó disse que eu ia para a fazenda ela me levou até a rodoviária. Mas não peguei ônibus nenhum não. Apareceu um homem e ele me levou para a fazenda em um carro grandão bonito. O homem é o Evaristo que trabalha na fazenda.

Quando cheguei lá vi o fazendão lindo. Mas tava desconfiada, não sei o porquê. Acho que era por não conhecer ninguém. O Doutor veio sorrindo na minha direção.

– Venha, menina, vou mostrar a fazenda! – e todo feliz me pegou no colo.

Ninguém antes tinha ficado feliz com a minha chegada. Quando saía do mangue para andar pelo bairro todo mundo me olhava estranho. Todo mundo comentava alguma coisa ruim.

– Olha que sujinha.

– Logo, logo ta grávida de um marginal.

– Tadinha, dá pena.

– Isso é coisa do Bolsa Família, governo fica dando dinheiro para pobre ficar fazendo filho dá nisso.

Nos mercadinhos do bairro a gente é colocado para fora, acham que a gente vai roubar. Na verdade, a gente entrava para isso mesmo. Tinha fome, em casa não tinha o que comer. Uma vez fui pega e o moço do mercado me deu um tapa no rosto e disse se eu aparecer lá de novo ia chamar a polícia. Eu quis ser forte. Mas ele bateu no rosto e forte, nunca tinha levado no rosto. Doeu muito, no caminho de volta para o mangue chorei, sentei em um canto e chorei. Tapa na cara dói, parece que sua cabeça vai inchar até explodir. Dói e dá medo. Quando eu voltava para a casa a vó não gostava de me ver de novo.

Talvez por estar bem limpa o Doutor gostou de mim. Mas ele já gostou de mim quando me viu no mangue. A vó ficou meia hora me dando banho ante de me levar para a rodoviária.

Comigo no colo ele subiu em um cavalo bem bonito. Bem diferente dos baixinhos e cansados dos carroceiros. Esse é bem grandão, o pelo brilha e tudo. Parece até que faz academia e vai no salão. No Bucéfalo, é o nome do cavalo, passeamos por um bom pedaço da fazenda. O Doutor me mostrou a plantação, os outros cavalos bonitos. Ele tem um orquidário, é como uma casa só que de vidro e com um monte de planta bonita dentro. A gente foi no laguinho que tem uns peixes bem bonitos, ninguém pode pegar eles para comer, só os do rio. Eu dei comida para os peixes bonitos, eles são laranjas e esfomeados.

A gente comeu bem a comida era boa, bem boa. Foi aí que eu conheci a dona Maria. Eu fiquei bem cansada. Então o Doutor me levou para cima e eu dormi na rede enquanto ele me fazia carinho. Acordei no meio da tarde. Me assustei por estar na rede no colo do Doutor, sentindo sua mão…

– É só carinho, Cabritinha, não se assuste. Você é muito desconfiada, hein. Tem o quê? Oito?

– Sete.

– Parece oito, você é muito esperta. Vamos conhecer o rio.

A água tava boa, tive vontade de entrar. O Doutor disse para eu entrar.

– Mas tire a roupa para não molhar.

– É que eu não sei nadar.

– Oxe, eu sei. Não se preocupe. Eu dou conta de uma criaturinha como você. Se jogue, não tenha medo, eu te seguro.

E mergulhei. A gente brincou bastante. O Doutor é bonzinho e engraçado. De noite ele me deu banho. Enquanto me ensaboava disse que gostava muito de mim, que me amava. Eu disse que gostava muito dele também. Ele sorriu feito um bobo e disse que eu podia fazer uma coisa para ele, ser boazinha com ele. Eu concordei. O Doutor me levou para quarto. Não sabia o que era. O Doutor é pesado, pensei que fosse sufocar.

– Você me machucou – choraminguei.

– Eu sei, vai passar.

Ele pôs uma bolsa de água quente na minha barriga, um pouco para baixo. Isso foi bem bom.

– Quer ouvir uma história?

Foi aí que fiquei sabendo sobre Peter Pan e a Terra do Nunca.

 

Cabritinha

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s