Síndrome de Estocolmo (cap.4)

banksy síndrome de estocolmo

Fiquei na Fazenda alguns dias. Fiquei com saudade de lá. Mas, aí, o Doutor mandou me chamar e eu voltei pro fazendão. Brincar no rio, assustar os peixes do laguinho e ouvir os passarinhos. De noite, antes de dormir, o Doutor me deu um presente, uma boneca. Foi a minha primeira, antes, só tinha visto de longe. Chamei ela de Tarantela, gostei do som do nome.

Então, por um tempão foi assim, eu ia na Fazenda e ficava lá alguns dias. Depois voltava para a casa e ficava mais uns dias e pronto. A Fazenda ficou sendo como minha segunda casa, eu podia andar por tudo, ninguém fazia reparo.

Eu acho que o Doutor mandou a vó ser boazinha comigo. Nem quando faço birra ela perde a paciência comigo. Antes era toda hora. Ela só me via e já tinha alguma coisa contra mim. Depois que conheci o Doutor ela deixou de ser braba comigo, só fala manso. Até sorri para mim, e ela nunca sorria. Agora, que já não vou tanto à Fazenda ela às vezes fala num esquisito comigo.

Em uma das voltas da Fazenda a casa já não era no mangue. Era junto, mas no bairro normal. É uma casa de material com luz e água direitinho. Tomo banho todo dia, bem demorado, é bom. Tem um quarto só para mim. A cozinha novinha, novinha e tem uma geladeira enorme, lindona e cheia. Bem cheia. Ah, tem TV nos três quartos.

No começo o povo do bairro passou a me tratar normal como se eu não fosse do mangue. Não olhavam desconfiado para mim quando entrava nos mercadinhos. Fui até no do moço que me bateu, fiquei com medo de entrar, mas não tive coragem de dizer pra vó. Entrei e não aconteceu nada, o moço não lembrou de mim. Ele sorriu e tudo.

O povo do mangue continuou a me tratar como sempre. Ia lá brincar com os meus amigos. Não podia levar eles pra nova casa não. A vó não queria.

– Nada disso, menina. Nada de trazer esses trastezinhos para casa. Onde já se viu. Também é bom você não ir mais lá. Não são boa companhia.

Não trazia meus amigos para a casa, mas sempre ia brincar com eles. E levava as bonecas e os brinquedos que o Doutor me dava e levava comida também. Mais depois de um tempo tudo mudou.

Os pais, mais as mães, pois no mangue quase ninguém tem pai, não deixavam mais meus amigos brincar comigo. Quando eu aparecia para brincar com meus amigos eles eram chamados para dentro de casa ou para fazer alguma coisa. Os adultos começaram a me olhar esquisito, como se eu tivesse algo errado, como se eu sempre estivesse fazendo algo errado. A bronca deles comigo nunca passava.

Conseguia brincar só muito de vez em quando, quando os adultos não percebiam. Mas uma hora eles percebiam e a brincadeira acabava e eu ficava sozinha. Só com a Dorinha eu conseguia brincar como antes. Não é bem como antes. A mãe dela disse que a gente podia brincar. Para isso eu tinha que trazer comida para Dorinha não ficar doente de fome. Então eu sempre levava, e um monte. Ela falava para levar dinheiro, mas eu não tinha.

A mãe de Dorinha sempre tava por perto nas nossas brincadeiras. Uma vez ouvi a conversa dela com a vizinha. Não entendi direito. Ouvi tudo direitinho, mas não entendi. A gente tava do lado de fora e elas dentro da casa, estava debaixo da janela e elas não viram. A vizinha ralhou com a mãe da Dorinha por deixar ela brincar comigo.

– Só aquela velha e o inútil do filho vão tirar proveito. Também tenho minhas necessidades. Olha, comadre, o buraco onde a gente vive.

– E se Dorinha se perde. Tem juízo não.

– Se perde nada. Estou de olho.

A mãe de Dorinha também tem bronca de mim. O povo do mangue não gosta mais de mim e não sei o motivo. Eu não fiz nada. Acho que não. Já pensei um montão nisso e não lembro de nada que fiz para irritar todo mundo. Agora só vou na Dorinha de vez em quando. Só quando a saudade é muito grande, não gosto do jeito que a mãe da Dorinha olha para mim. Ela desconfia de mim. Todo mundo desconfia.

Não se o que fiz de errado. A gente quando faz besteira os adultos dizem na hora, dão bronca, batem e põe de castigo. Mas ninguém diz nada. Não sei o que fiz de errado.

 

Cabritinha

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