Síndrome de Estocolmo (cap.5)

banksy síndrome de estocolmo

Não sei o que fiz de errado. O mangue não gosta mais de mim. É estranho. Me olham como se eu tivesse feito algo errado, mas não falam, não dão bronca. Parece que têm medo também. Nunca falam, só dão bronca com os olhos. Quando falam é quando já passei.

– É, nessa idade, quem diria – o irmão de alguém.

– Uma perdidinha. Pouca vergonha – a mãe de alguém.

– Já nessa idade, não tem salvação – o pastor de alguns.

– E ainda vem para cá. Pouca vergonha – a prostituta de muitos.

Então, eu viro para conversar, para entender. Mas, aí, param de falar. Se volto para repetirem o que disseram eles saem.

Tem uma coisa errada que eu fiz. Muito feia mesmo. Não lembro de mamãe. Eu lembro do cabelo, era fofo. Ela tinha cheiro bom, a pela era bem quentinha, macia. Vivia no colo dele. Ah, ela cantava, cantava bonito. Não sei o que era. Só sei da sensação boa de ouvir. Me fazia dormir gostoso com a música. Mamãe tava sempre se mexendo cuidando das coisas. Mas do rosto dela não lembro. Não sei como ela era. Acho estranho saber o rosto de todo mundo do mangue e do bairro. Mas de mamãe, que é quem importa, não. Mas quando penso nela me sinto bem, me sinto quente e com saudade. Ah, ela sorria, sorria um montão. Os lábios eram grandes e bem bonitos. É bom lembrar do sorriso dela. Ela é um anjo. Não lembro do rosto, mas não é por falta de vontade. Entende? Pelo meu querer eu lembrava. Pelo meu querer mamãe estava aqui.

Sobre o pai eu não sei nada não. Pelos cochichos que ouvi parece que tá envolvido na morte de mamãe. Não entendi como. Acho que ele não é uma boa pessoa se mamãe não está mais aqui por causa dele.

Eu falei de tudo isso para o Doutor. Quando ouviu do povo do mangue ficou preocupado, meio irritado. Então, quando falei de mamãe, de sentir ela, mas não lembrar dela, do rosto dela e do pai o Doutor ficou triste, bem triste. Saiu rápido e foi para o banheiro. Acho que foi no banheiro para chorar. Não queria que eu visse.

Mas ninguém briga comigo por não lembrar de mamãe. Ninguém me pergunta de mamãe, acho que ninguém lembra dela. Nunca perguntam, nunca falam nada.

O Doutor tentou me animar quando me viu triste. Acho que ele fica triste quando falo de mamãe. Falou que sou bonita, disse que vou ser igual essas modelos famosas que viajam pelo mundo. Que vou ter um montão de fãs, que todo mundo vai querer tirar fotos comigo. Depois disso, sempre que vou no mangue e passo pelos caminhos das palafitas imagino que estou numa passarela. Eu sou uma daquelas modelos de asa de anjo que todo mundo vê na televisão. Elas são muito bonitas, meio magras demais, acho que não comem muito como o povo do mangue.

Eu disse da minha imaginação para o Doutor. Ele riu, fiquei com vergonha.

– Não se acanhe, não se envergonhe. Você é bem mais que essas magrelas estrangeiras. Vou providenciar umas asas, assim, você desfila para mim.

Sim, eu desfilo para ele, usando as asas, quando estou na fazenda. Ele gosta muito. Fica bem bobo, bem feliz. Ele comprou várias, tem de tudo que é cor. Ele gosta de me ver com elas. Eu gosto de usar. Ah, ele me desenha e me pinta com elas. Leva um tempão e tenho que ficar parada, isso cansa. Às vezes eu saio correndo pela casa e ele fica feito doido atrás de mim, pedindo para voltar para a posição. É divertido, corro por tudo. Só no segundo andar, pois, só estou com as asas e não quero que ninguém me veja sem nada. Por isso não desço a escada, mas ameaço por brincadeira. O Doutor fica aflito. Parece que vai ter um troço. Depois, por pena, volto para o lugar e ele termina o desenho.

 

Cabritinha

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