Síndrome de Estocolmo (cap.6)

banksy síndrome de estocolmo

O seu Dião dá medo às vezes, não é bonzinho como o Doutor, mas gosto dele, apesar daquela cara de mau, de severo. Não gosto do Evaristo, nunca me fez nada, mas não gosto dele. Achei bem feito a surra de relho que levou do seu Dião, ele e o Amaral. Eu tava no estábulo vendo os cavalos bonitos, de pelos brilhosos quando ouvi Evaristo e Amaral entrando, falavam alto. Passei para dentro da coxia de Bucéfalo. Não gosto muito de dá de cara com eles não. Eles estavam falando alto sobre uma tal de Zona.

– É, ontem a gente se fartou, compadre.

– E como. Mas alegria de pobre não dura. Não deu nem para se recuperar da ressaca. Hoje cedo já estamos aqui na fazenda, compadre.

– Alegria duradoura, imorrível mesmo é a de rico. Veja o Doutor aí.

– Hum, nem me fale, compadre.

– Além de afortunado o Doutor sabe das coisas. Nada melhor que uma menina nova para se esparramar.

– Oh, se sabe! Cabritinha é a melhor carne.

Então não sei como apareceu seu Dião dando relhada para tudo que é lado. Evaristo leva uma no rosto e vai pro chão e Amaral fica acuado, encostado na porta de uma baia, sem ter para onde ir. Ouvi um montão de estalos do relho.

– Vão ficar de vadiagem! Aqui não tem lugar para quem não gosta de trabalho! Se não gostam peguem seu rumo que não vai faltar quem queira.

– Que isso seu Dião. Que brutalidade é essa? Ninguém é vadio, a gente só tava proseando – e ajuda Evaristo a se levantar.

– Se aviem e saiam daqui! Vão fazer as coisas que eu não quero ver a cara de vocês tão cedo!

Eles vão embora quase correndo. O seu Dião não me percebeu e quando achou que estava sozinho… Ah, tem os cavalos, mas eles não contam os segredos para ninguém. Então, achando que só ele e os cavalos estavam no estábulo falou de alguém.

– O mundo todo já tá sabendo, diacho! Depois de velho ficou doido.

O seu Dião tem cara severa, mas tem bom coração. Às vezes acho que ele não gosta de mim, mas às vezes acho que gosta. Deve gostar, pois ele me salvou quando me perdi. É, eu me perdi uma vez. Lá na Fazenda, na mata. Tem muita mata. O Doutor e dona Maria sempre falam para eu não entrar nelas sozinha. Eu sempre obedeço, só aquela vez que não. Entrei de tardezinha. Então escureceu rápido e não via mais nada. Deu muito medo, muito mesmo. Chorei bastante.  De manhã, bem cedinho ouvi um barulho esquisito. Achei que era algum bicho, mas era som de mato sendo cortado. Gritei, pensei em correr para onde vinha o som, mas eu não sabia direito de onde vinha. Por isso fiquei parada. Então, não sei de onde seu Dião disse para eu não me mexer. O barulho de mato sendo cortado ficou maior, me virei e vi seu Dião. Fiquei muito feliz. Corri e abracei o seu Dião, acho que ele não esperava isso. Pois, a mão na minha cabeça. Foi bom. Só aí vi o Evaristo, tava com ele. Tava atrás. Começamos a voltar. O seu Dião na frente, eu no meio e Evaristo atrás. Eu, muito cansada e com fome, não andava direito e caía uma vez. Tropecei novamente, não levantei e comecei a chorar. Eu queria muita sair dali, mas não conseguia sair, acho que fiquei com medo de novo.

– Tudo bem, vamos descansar um pouco – Dião.

– É melhor levar a menina no colo seu Dião – Evaristo

E ele se aproximou para perto de mim, eu me assustei e corri para junto de Dião.

– Some daqui, Evaristo!

– Mas seu Dião eu só…

– Some daqui antes que eu te corte mais que esse mato com meu facão.

E Evaristo sumiu mesmo, não sabia que podia correr tanto. Eu tava muita cansada e com fome e seu Dião só tinha levado água.

– O senhor pode me levar no colo, seu Dião?

Ele pensou um pouco. Olhou para o mato.

– Tudo bem.

Eu dormi logo, só acordei na casa grande, ainda no colo de seu Dião. A gente tava subindo a escada. O Doutor e dona Maria também subiam. Agradeci por ter me achado quando me pôs na cama e beijei o rosto dele. Seu Dião gostou, ficou sem graça. Mas gostou diferente, não foi um gostar como o do Doutor.

 

Cabritinha

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