Síndrome de Estocolmo (cap.7)

banksy síndrome de estocolmo

Tio Túlio tem um emprego que não é bem emprego. Explicar não sei direito não. Ele tinha um trabalho, não sei se ainda tem, mas quase nunca ia. Mesmo assim não perdia o emprego. Bem esquisito.

– O Doutor te arranjou um emprego e você não vai. Ta querendo ser demitido, traste!

– Que ser demitido o que, mãe.

– Ora, se você não trabalha não é pago.

– O arrimo da casa não sou eu mãe. Já estamos sendo pago pelo serviço dado ao Doutor.

– Arre! Cale sua boca, traste!

– Mas, não é. Aliás, acho que o Doutor tá pagando é pouco, muito pouco. Ele tá é se aproveitando da gente.

– Ora, lave essa boca antes de falar do Doutor! Essa casa de onde veio, essa mobília e o emprego que você nunca vai, mas continua recebendo?

– É pouco, mãe. Eu fiquei vendo uns vídeos na internet e sabe quanto custa um serviço, um produto?

– Do que você tá falando, guri?

– Custa o que o cliente está disposto a pagar, o quanto é importante para ele, esse é o valor de mercado de um produto.

– Fale direito, você não é doutor para ficar com esse palavreado difícil.

– Estou dizendo que vale muito mais o que oferecemos para o Doutor. Ele se agradou muito, tanto que não para de usar faz tempo. Tem anos. Ora, tá na hora de aumentar o preço.

– Sei não.

– A gente precisa é de um carro. Isso aqui é longe de tudo. Fica difícil ir trabalhar. Se um fosse arranjado seria bom. Não acha?

– Seria. Dava para passear de vez em quando, trazer as compras do mercado.

– E também dava para aumentar o meu salário.

Que serviço será que esse, que não é o serviço onde o tio Túlio devia ir? O que sei é que pouco depois tio Túlio tava de carro, vermelho, todo vermelho. Não é grande e bonitão como os da Fazenda, é pequeno, mas bonitinho. Na época tinha cheiro bom, cheiro de coisa nova. Tio Túlio demorou um tempão para tirar os plásticos do banco.

É isso. Nos últimos tempos o Doutor me chama pouco para a Fazenda, uma pena. Fico sem ter muito o que fazer, não tenho mais amigos, as mães não deixam mais eles brincarem comigo. Uns deles já viram o rosto quando me veem, fingindo não terem me visto. A vó disse que isso é inveja por não estarmos mais no mangue. Perguntei o motivo dos do bairro também correrem de mim. Ela ficou pensativa por um tempo, coçou o queixo, então, disse:

– Inveja também. Agora, vá brincar.

– Mas, vó, eu não tenho com quem brincar.

– Arre! Não me amole! Suma daqui!

Foi a primeira vez que a vó levantou a voz para mim desde que conheci o Doutor. Tenho medo, às vezes sinto que vai tudo voltar a ser como antes. Acho que pior, antes tinha a pobreza, a falta de tudo, a brabeza da vó, mas eu tinha meus amigos. Só tio Túlio tenta me consolar, faz isso sem jeito, acho.

Tenta fazer como o Doutor, meio que fazer a vez dele. Mas não gosto não. Ele é meio bruto, tenta ser carinhoso, mas não consegue. Acho que não sabe. Com o Doutor eu to acostumada. É estranho com outra pessoa. Acho que ele tem medo do Doutor. Pede para não dizer nada. Quando ele me coloca no colo e passa a mão pelo meu corpo fico em pé logo. Não, ele não força nada. Fica só nisso. Ele diz que tudo bem, que não tem presa. Não gostei da cara que fez quando disse isso. Senti um frio, um medo que me fez sentir frio.

– Não se preocupe, Cabritinha. O Doutor está perdendo o interesse, mas você não vai ficar sozinha não. Você está virando mocinha, titio vai acudir você quando o Doutor se cansar.

Ele fez aquela cara de novo e sai correndo. Ele foi atrás, pediu desculpa e disse para não contar nada para o Doutor. Ficou com um pavor danado quando me viu chorando. Eu tava chorando não por causa da cara que tio Túlio fez, mas porque ele disse que o Doutor ia se cansar de mim.

 

Cabritinha

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