O método (cap.2)

Isolated wooden chair in a dark scary prison with an interrogation spotlight

Não era nada demais, apenas um simples interrogatório e o vagabundo já estava pego. Não havia nenhuma mobilização para resgatá-lo. O morro já estava sob controle. Logo, não era necessário movimentar todos. Sem necessidade de usar força máxima, o blindado podia muito bem ficar onde estava. Enviei só alguns, em dois carros. Mais do que o suficiente. Quem diria que tudo acabaria desse jeito.

Os PMs não conseguiam arrancar nada do vagabundo. Hum, quando é que sabem fazer alguma coisa direito? Por isso mandei a equipe que me solicitaram. Tudo errado. Tempo perdido. Fomos traídos pela incompetência alheia. Ao chegar à base da PM na comunidade para proceder o interrogatório não tinha mais o que interrogar. Eles mataram o interrogado. Pior, mataram antes de conseguirem arrancar alguma coisa. Enfim, tanto esforço, tanta mobilização para nada. Absolutamente nada!

A equipe não tinha mais interrogatório para conduzir. Mas, não deixou de perguntar àqueles idiotas como conseguiram realizar aquela proeza. Falaram que foi acidente, que foi sem querer. Policiais que matam sem querer, é tudo o que me faltava. Deram fim ao vagabundo quando a minha equipe estava a caminho.

Não restava mais nada a fazer aos meus homens. A não ser limpar as merdas feitas pelos de farda azul, como sempre. Pegaram o corpo, o cobriram e o levaram para um dos carros. Ao deixar a favela transferiram para outro que não pode ser identificado. O veículo invisível foi utilizado para fazer a desova do cadáver. Serviço limpo, bem feito. Não ficou nenhum vestígio. O corpo nunca será encontrado, é como se nunca tivesse existido, como se nunca tivesse nascido. Enfim, mais uma faxina bem sucedida.

Contudo, não foi isso que aconteceu. A nossa parte foi muito bem executada, trabalho irretocável. O problema é que os azuis não reportaram nada sobre o banzé que aprontaram quando botaram as mãos no vagabundo. Uma sucessão de erros impressionantes, parecia até que queriam ser pegos. Se tivessem feito de propósito não seriam tão eficientes em ferrar com tudo.

Foram pegar o vagabundo em um bar que estava lotado. Além disso, o boteco fica bem no meio da comunidade. O morro todo viu a captura. Imagina a quantidade de testemunhas! Arrastaram o sujeito por metade da favela até a base de operações. Esse tipo de atitude não pode mais ser feita, não é mais como antigamente. Hoje em dia qualquer um tem um celular com câmera. O cúmulo da patetada foi terem passado com o detido por caminhos com monitoramento eletrônico e não há como fazer esse tipo de testemunha mudar de versão… Seria cômico se não fosse trágico.

Muito amadorismo! Aqui é a selva, não há espaço para moleques! Tem que agir como os leões antes de capturar a presa. Antes de atacarem o búfalo selecionado tomam o cuidado de dispersar a manada. Só, então, enquanto todo mundo está preocupado em se salvar, se isola o alvo e depois dá o bote.

Quando já se chega trocando tiros com os traficantes todo mundo já debandou. Ninguém está fora para ver o que se passa, nem tenta fazer isso. Ninguém é louco de correr o risco de levar um tiro de fuzil. Portanto esse trabalho já está feito. Mas neste caso, não houve tiroteio e por isso o povo não foi dispersado e ficou de plateia  vendo tudo. Tinham de ter que arranjado o corre-corre do povo antes de darem o atraque.

Podia ser qualquer coisa, desde que fizesse tantos olhos sumirem. Sei lá, como lançar rojões, coisas que os olheiros fazem para avisar o tráfico que a favela está para ser invadida por milicianos, outros traficantes ou por nós. Os moradores conhecem muito bem esse código e se apuram para suas casas para se esconderem, se protegerem.

O pior de tudo foi o comandante da base na favela não ter nos dito nada. Nem sequer pensou nisso. Quando é que íamos desconfiar que iriam proceder desse jeito, com Deus e o mundo registrando tudo? Ele nem se deu conta da quantidade de erros que cometeu. Só ficamos sabemos da forma como procedeu quando a imprensa, amiga de vagabundo, já estava noticiando tudo.

 

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