Síndrome de Estocolmo (cap.8)

 

banksy síndrome de estocolmo

Abigail está sem palavras, com um travo na língua, um nó na garganta. Enquanto ouvia a menina, chamada por muitos de Cabritinha, que logo vai fazer doze, entretanto, parece que vai completar dez, vários sentimentos afloram em seu ser. Sente asco dos adultos, pena da menina e várias outras sensações.

‘Uma enormidade dessas acontecendo diante de todos e durante tanto tempo e nenhuma denúncia, nada! Como é possível? Só depois do ocorrido. A menina gosta desse monstro. Como vai ser quando souber? Como explicar? Ao menos insinuar pelo que passou sem causar o risco de traumatizá-la? Como fazê-la ter consciência de quem é realmente o governador Alexandre Mascarenhas Reis, o Doutor, como é conhecido. Será melhor mantê-la na ignorância?’

Pensa a conselheira tutelar em um átimo, não há tempo para refletir sobre as questões levantas. Mas, há o suficiente para vislumbrar o tamanho da gravidade.

– Mais alguma coisa? – Pergunta a menina enquanto sorri.

Abigail diz não e sua voz sai embargada ao pronunciar a curta palavra. Dá a volta na mesa e abraça a menina. Apesar do esforço algumas lágrimas escapam.

– Tá tudo bem?

– Sim, está, querida. Bobagem minha. Precisa de alguma coisa? Está tudo bem no abrigo?

– Sim. Está tudo bem. Mas, eu queria voltar para casa. Queria ver a vó, o Doutor? A senhora sabe como estão eles?

– Não precisa me chamar de senhora. Eu me chamo Abigail.

– Tá. Eu me chamo Pérsia. Pérsia Daniela de Freitas. E então?

– O quê?

– A senho… você não respondeu se sabe algo da vó ou do Doutor. Sabe quando eles vêm me ver?

Ao perceber os belos olhos negros de Pérsia brilharem de expectativa sente uma pontada no peito. Não tem coragem de contar. Apenas acaricia o rosto da menina e, por misericórdia, menti.

– Não sei. Mas vou procurar saber.

– Ah, também queria saber de tio Túlio.

Sente outra pontada no peito e surge em sua memória um vídeo que viralizou na internet. Todo ele feito por celulares que registram o acontecimento de diferentes ângulos.

– Tarado!

– Vendendo a própria sobrinha!

– Tem que morrer!

– Antes tem que capar!

Falam alguns da multidão.

– Pega mesmo! – um dos que filmam.

O homem corre sem nada entender. Era tudo tão corriqueiro, tão natural e, de repente, essa viração. Aquele povo tão cordato, tão manso queria por as mãos nele. Corre, corre o máximo que pode. O povo todo em seu encalço. No desespero não raciocina direito e vira onde não devia. Está encurralado em uma viela sem saída. Vira-se, levanta as mãos, a multidão hesita, porém, o xinga com coragem.

– Vocês sabiam de tudo, sabiam. Sempre souberam. O que é isso? Agora, fingem que não sabem de nada. Somos compadres e comadres, somos vizinhos. Me receberam em suas casas nos dias de festas, aceitaram os presentes que eu e mainha demos nos casamentos e no natal. O que é isso? Jogo futebol todo domingo com muitos de vocês.

A fúria justiceira começa a arrefecer.

– Zé, Tonho, Beto lembram das nossas partidas de sinuca no bar do Galego, eu pagava bebida para vocês e …

Este foi o erro de Túlio, nomear os indivíduos. Afinal, acusações sem protagonista resultam em nada. Já as com…

– Ora, seu… – e arremessa a pedra que traz na mão.

O projetil atinge a fronte de Túlio e o deixa tonto. É o sinal de ataque. Os cúmplices partem para cima, os três nomeados e os não nomeados. Os primeiros para lavarem a honra e os segundos para não haver tempo de serem incriminados. Túlio é trucidado pelos até bem pouco tempo amigos e camaradas. Umas das que participa do espancamento, em pleno vigor da liberação de adrenalina, não percebe um esguicho de sangue espirrado pelo corpo que está no chão manchar seu bonito vestido, presente de casamento de Hermínia, mãe de Túlio.

Depois de o bode expiatório ser sacrificado todos voltam para seus afazeres, limpos, puros, inocentes. Em paz com a consciência e com o mundo.

Na mente de Abigail a lembrança nem sequer dura um segundo.  Desconversa e leva a menina de volta ao abrigo. Impotente, decide olhar o abrigo, mesmo sabendo que ali ela está segura. Na volta, só consegue pensar em quem espalhou a notícia. Quase ninguém sabia o motivo do ocorrido ao governador. Do conselho somente ela, Dagmar e o seu superior.

– Aquele puxa saco jamais diria um ai do grande Alexandre Mascarenhas Reis. Será que Dagmar… não. Só se foi sem querer.

 

Caminhante

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