Síndrome de Estocolmo (cap.9)

banksy síndrome de estocolmo

Dião olha descansado para o cômodo. A parede nua, sem nada. A não ser por algumas manchas, rugas do tempo. Catre duro, seco, nada amistoso. Chão exposto, nu, frio. Sem nenhum enfeite. Não há mimo algum, nenhum penduricalho, nada de imagens ou flores. O espaço nada esconde, nada disfarça, nada alivia. É simples, econômico, direto. Se reconhece nele. Senta e rumina os últimos acontecimentos.

– O que quer dizer com isso, Dião?

– O que o Doutor ouviu. Essa atitude com a menina tá certo não.

– Do que está falando?

– Sabe muito bem, Doutor. Se ela fosse crescida, taluda tudo bem. A questão é que não é.

– Ora, Dião, não dê ouvidos a esse povo. Só contam loratas. Sabe muito bem que o povo vive de contar histórias e só trabalha nas horas vagas. Sempre entre uma fofoca e outra, entre um causo e outro. Se não está contando é porque está ouvindo. E sempre acrescentando um ponto, colocando uma emenda. Assim, o chuvisco vira dilúvio e queimada, incêndio. O que tu andou ouvindo, hein, Dião? Me conte – diz bonachão e risonho.

– Eu sei que o povo fala, e muito. Principalmente depois do assossego do Doutor. Se acostumou demais com isso, ficou descuidado. Ficou exposto no pasto, ficou na mira de todo mundo, no alcance de uma carabina.

– Não estou gostando desse tom Dião. Quem foi envenenar seu ouvido? Me conte. Que história andam dizendo.

– O povo anda dizendo o que sabe. Nesse caso, se aumenta é pouco. Depois, não é do povo que eu sei. Tem lá suas fofocas, suas invenções, suas piadas, mas se calam quando me achego, saem do caminho, tomam o rumo de casa. Sou calado, Doutor. Não lesado. Sou calejado o suficiente para entender o que se passa, sei atocaiar os acontecimentos.

– Que acontecimentos? Ta truncado hoje, hein, Dião. Quer alguma coisa? Dona Maria anda precisando de algo? Ou os meninos lá na capital? Sabe muito bem que não falto aos meus, é só pedir.

E o resquício de servilidade some.

– Doutor, eu não sou homem de insinuação. De deixar as coisas no ar, por entender. Não fico de rodeios. Não sou homem de usar vias tortas, labirinto de brenhas para chegar onde quero. Não sou homem de sugerir chantagem. Quando ameaço não ameaço manso.

Doutor percebeu a tensão no ar, deu fim ao sorriso na cara. Não podia crer que o seu lugar tenente, quem lhe garantia a posse do Arraial, fosse lhe falar atravessado. Nunca cogitou tal possibilidade. Tal hipótese nunca esteve em seu cálculo político. Pego desprevenido agiu de relance e intimou o seu general, o seu braço armado.

– Então, fale. Desembuche, homem!

– O Doutor não pode pegar essa menina para amante. Fazer dela sua amásia. Isso é errado. Eu não admito isso!

– Desde quando você tem que admitir alguma coisa! Vá cuidar dos seus afazeres. Se avie daqui! Vá! – vermelho de cólera, exige.

Logo a vermelhidão da raiva dá lugar a uma súbita palidez. É o efeito do som do objeto atirado sobre a mesa. Doutor o mira e constata ser um revolver. Já tinha percebido quando Dião o tirou da cintura, mas olhou novamente para ter certeza. Era um homem habituado a não ter medo, principalmente dentro de seus domínios. Contudo, ao vislumbrar o que estava por vir senti um morno líquido escorrer para dentro de seus sapatos. O pavor é um oceano e Doutor está mergulhado nele.

– Pega, Doutor! Não vai ser às escondidas, nada de surpresa. Olho no olho.

– Dião, eu sou seu patrão.

– Eu sei, eu sei. Mas patrão por patrão Ele é maior. Pegue a arma. Eu vou atirar de qualquer jeito. Mas te dou uma chance. Vamos ser julgado. Se a minha desfeita for a maior eu fico por aqui.

– Isso é pior que a traição de Brutus feita a César – balbucia.

– Não sei quem são esses sujeitos.

– Cabra filho de uma égua, cachorro maldito!

E se atira sobre a arma. Dião, habituado, é mais rápido, puxa a sua e o sangue escorre do peito do Doutor por meio de dois furos.

 

Caminhante

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s