Síndrome de Estocolmo (cap.10)

banksy síndrome de estocolmo

Respira alegre enquanto acaricia o cabelo da aliada que está sobre seu corpo. Neste momento o contentamento tem a forma de um homem.

– Agora, com esse tiro certeiro, vai começar o desmonte dessa estrutura arcaica da política estadual. Se eu não fosse ateu diria que essa menina caiu do céu.

– Não sei se o que eu fiz foi certo.

– Evidente que foi Dagmar. Graças a você essa terra deixou de ser uma capitania hereditária. Seu eu não espalhasse pelos meios evidentes o motivo do assassinato do Doutor Alexandre Mascarenhas Reis o filho dele ficaria com tudo. Esse estado continuaria sendo um latifúndio transferido de pai para filho ad infinitum. Deixamos o rei nu. A menina foi o estopim da mudança. Claro, toda transformação tem seus barulhos, no início vai parecer caótico, mas é tão somente o prenúncio de algo bom. Transições são dolorosas, no entanto, necessárias. Para  um novo tempo é preciso liquidar o antigo.

– Mas precisava de tudo isso?

– Tudo o quê?

– Ora, o quê!

Desabraça o corpo de Antônio Vilamares e revoltada senta-se na cama. Ele faz o mesmo, tenta enlaça-la e é repelido. Ia bufar, porém seus olhos caem sobre o macio dorso da insurreta, encanta-se, sua possível irritação morre antes de nascer e, em busca da paz, discursa.

– Sim, sim, o vídeo é lamentável. Mas sem ele quem iria acreditar no que todos já sabiam. É uma guerra, é impossível não haver vítimas. Depois, vítima a menina já é, portanto, soma zero. Sem a prova circulando pelos caminhos tortuosos e vielas escuras a notícia jamais andaria pelas avenidas ensolaradas.

– Não sei. Como vai ser agora?

– Não se preocupe. Será uma tormenta, estamos cruzando a tempestade, mas não vamos a pique. A borrasca não irá perdurar e após ela iremos desaguar em uma baia acolhedora, em um porto seguro – nota o desretesar das costas de Dagmar e aproxima-se – Não duvide por nenhum minuto do acerto do seu ato. Foi um ato em favor do bem comum – surge um suspiro de desanuviamento e a mão do deputado começa a passear pela nuca de Dagmar – Tire da cabeça essa ideia de que fez um grande mal, de que provocou alguma tragédia. Toda essa turbulência é apenas o febrão antes da cura. Você assentou o primeiro cravo da ferrovia para uma nova vida – toda ela exala alívio e ele a envolve – Veja o nascimento, o feto se crê protegido, confortável, não quer abandonar a situação a qual se acomodou. Mas é necessário o nascimento. O mundo em que vive não mais se sustenta, continuar nele é a morte. Chora desesperado ao perceber o fim da vida como até então conhecia, pois não concebe a existência de outra possibilidade. Então, após o berreiro, o desespero e toda a angústia vem o colo da mãe e o leite maternal. Ali é que está a verdadeira proteção, a benquerênça sem fim, a felicidade. Dagmar, somos os parteiros. Tu verá, tu verá. Não duvide.

Agradecida, vira-se e o beija, de começo suave, depois contundente, sem disfarce, com vontade. Penitência à altura da absolvição.

 

Caminhante

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