Sintonia Fina (cap.1)

sintonia fina, Jorge Horácio
Jorge Horácio

Calor recorde na cidade esplendorosa, a semana inteira foi assim. Graças a Deus o final de semana repetia os dias úteis. Cleber só tem a agradecer, diante de seus olhos está a recompensa pela semana dura de trabalho e estudo. Logo ali, pouco após o término da base do morro, fica a orla mais famosa da cidade, a internacionalmente conhecida Cozinhabarraca. Junto com familiares e amigos Cleber desceu rumo ao éden de Cascata de Maio. Desciam em alvoroço falando de tudo um pouco. O Flamengo que ainda não engrenou no campeonato. O baile funk de hoje à noite em Simplicidade do Francês. O pagode muito bom que rolou semana passada em Município do Senhor. A multidão descia carregando toda sorte de provimento, mais que suficiente para passar o dia todo na praia. Pacote de bolachas, sanduíches de pão com mortadela, fatias de bolo, balas. E, conservado no gelo em caixas de isopor, água, sucos e, claro, cervejas. Tudo trazido lá de cima, o que não veio de casa foi adquirido no mercadinho do Seu Chico. Comprar na praia é suicídio, o preço está pela hora da morte. Um verdadeiro arrastão quando os vendedores ambulantes passam.

– Quanto custa?

– Dez.

– Que isso? Não sou turista, não. Sou dali do morro.

– Então, faço por oito.

Mesmo com o desconto sai mais barato descer com o rancho, além de mais divertido. Fora os alimentos há os objetos. Cadeiras, guarda-sóis, uma bola de vôlei, uma bola de futebol, brinquedos para as crianças e uma prancha de surf, apesar de não existir ondas para ela na praia. Sem contar nos celulares de última geração para postar comentários do dia no twitter, Face e publicar fotos no Insta. Enfim, uma verdadeira mudança.

A caravana chega a seu oásis e começa a levantar acampamento. Enquanto isso, próximo a eles, o doutor em ciências humanas, especializado em comportamento humano e honoris causa em diversas e diversas universidades, Augusto Devaneador da Silva, concede uma entrevista ao vivo.

– Vinte anos atrás quando publiquei meu livro A forma instintiva de reivindicação do povo fui ridicularizado por todos. No entanto, quem ri por último ri melhor. Após o advento dos rolezinhos, onde jovens em massa invadem estabelecimentos comerciais elitistas, como shoppings, para exigir seu espaço, para dizer que também tem direito ao consumo, todos viram que minhas conclusões estavam corretíssimas!

– Professor – o repórter. – Estamos com um link em San Pablo. Lá está Maicon, um dos organizadores dos rolezinhos.

Todos se cumprimentam e o repórter de San Pablo indaga qual o motivo dos rolezinhos existirem

– Queremos nos divertir, passar o tempo, trocar umas ideias com os amigos e beijar umas princesas. San Pablo não tem praia e ficar na praça com um sol de trinta e cinco graus na cara não dá. No shopping é mais confortável.

A reportagem volta para Cascata de Maio.

– Viram, é disso que falo em meu livro. A forma dos populares reivindicarem seu espaço é tão natural e espontânea que os autores nem se dão conta da profundidade do movimento que criaram. Isso não é novo no mundo, nem no Brasil. Em meu livro, A forma instintiva de reivindicação do povo, identifiquei esse processo aqui em Cascata de Maio. E o denominei Descidinha. É muito semelhante ao de San Pablo, porém com algumas adaptações locais. Afinal, nós somos nós e nossas circunstâncias. Lá são os shoppings centers, aqui são as praias. Enquanto lá o povo unido adentra as catedrais do consumo para afirmar diante daqueles elitistas, boquiabertos e paralisados diante da força da massa, que também querem consumir, que tem direito a isso. Direito a usufruir do conforto e da riqueza deles, tal como sem terras invadindo latifúndios. Aqui, há anos o povo invade esses paraísos, até então exclusivos dos endinheirados, Cozinhabarraca, Elmoreno e Caravan. Deixando claro que a praia, o regozijo, e todo esse hedonismo não é exclusividade dos moradores da Casa-Grande, daqueles que enriqueceram a custas do suor e do sacrifício do povo. Os sofridos, os explorados descem os morros, por isso o nome Descidinha, tomam conta da faixa de areia, deixando claro que também têm direito ao seu lugar ao sol.

Uma estrondosa salva de palmas toma conta do ambiente, abafando a fala dos que estão projetados na tela do auditório. Já esperando por isso Devaneador pausa a imagem até o fim da ovação.

 

Caminhante

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s