Síndrome de Estocolmo (cap.11)

banksy síndrome de estocolmo

O linchamento de Túlio de Freitas tio da menor que o governador Alexandre Mascarenhas Reis chamava de Cabritinha nada mais foi que um espetáculo de cinismo, uma encenação coletiva para limpar a própria consciência. Entre os justiçadores os mais sedentos por justiça eram os que ganharam promoções e toda sorte de vantagens para facilitar ou ao menos para não delatar o estupro sistemático. Todos sabiam dos atos do governador, a menina em questão não foi a primeira, só Deus sabe quantas foram e todos tinham ciência disso e de alguma forma eram seus cúmplices. Que uma coisa fique clara, não falo apenas dos linchadores. Em suma, trata-se de uma fraternidade ampla. Túlio foi o boi de piranha sacrificado para salvar a manada dos culpados.

– Esse Cassandro de la Mancha ainda vai levar um tiro – diz após ler o último paragrafo da coluna do jornalista e fecha o jornal.

– Senhor Heinz?

– Diga.

– Por acaso não há algum erro. O homem com quem vamos nos encontrar não é o Dião dos Reis?

– Sim.

– Bem, olhei os papéis e o nome escrito neles diz que vamos falar com um tal de Gideão Carvalho da Silva.

Solta uma risada leve.

– Garoto, é a mesma pessoa.

– Não entendo, ele tem dois nomes, duas identidades?

– De certa forma sim – e volta a rir.

O veículo atinge o local e os dois homens saem dele pelas portas traseiras. Entram na casa e vão ter com o responsável.

– Peguei esse famigerado, doutor. Na minha área famigerado não tem vez. Valentão comigo vira maricas.

– Delegado, delegado, andas cantando glórias demais. Tanto que tua ode a ti mesmo me alcançou na capital. Sejas mais prudente, delegado. O senhor não capturou Dião, ele se entregou. Maneire delegado. Estas tuas afirmações não vão te fazer bem. Mais dia menos dia Dião estará na rua e, então, como será?

A imagem da foiceira relampeja diante de seus olhos e a cor some de suas faces. Engole o medo para manter a compostura, conduz os forasteiros até o hóspede especial e nunca mais volta a cantar suas sagas.

– Agradeço o oferecimento. Mas não tenho finança para alguém do seu quilate.

– Já suspeitava disso. Farei de graça.

Sentiu o cravar inquisitivo dos olhos de Dião. Quer saber o motivo, percebeu.

– Farei pelo prestígio e pelo fato do senhor ter agido certo. Creio nisso.

Repara no mirar e remirar do caçador calejado. Nota ser medido, pesado e avaliado.

– Qual é mesmo a graça do doutor advogado?

– Adriano Mascarenhas Heinz.

– Então, é do clã do Doutor.

– Não, não sou. Sou aparentado dele como o senhor já percebeu. Na capital nada é tão evidente, tão claro. Tudo é nebuloso, cheio de nuances. Não sou do grupo do Doutor e tão pouco sou inimigo dele.

Dião concede e Adriano e seu assessor tomam um assento.

– Eu sou do certo, do justo, da ordem. Sou complemento do que deve ser. Onde as autoridades firmadas não conseguem ir eu chego, onde elas falham eu remendo. Doutor advogado, eu não sou fora da lei, sou complemento.

Adriano assente, o assessor nada entende e ambos se despedem do novo cliente. E já dentro do veículo.

– Esse homem é louco. Ora, complemento – debocha.

– Tens muito a aprender, garoto. No Arraial todos sempre votaram em um candidato e nos aliados desse candidato. No Arraial os roubos de gado e de máquinas agrícolas nunca acontecem. Sabes o motivo? Dião, Dião dos Reis, o despachante de ladino, o coveiro de ladrão. Como diz o dito popular “No Arraial, feudo dos Reis, oposição não tem vez”, seja ela qual for.

Divertido observa seu aprendiz, chocado, absorver a novidade.

– Agora, vamos para a Fazenda, aquele latifúndio que nasce no sertão e finda no oceano.

Lá, Evaristo conta que invadiu o local armado.

– Vi o Doutor no chão e Dião com o berro na mão. Aparício e Tonho vieram seguido, tudo engatilhado. Como eu numa batida de vista entenderam tudo – e vira-se para os dois. – Não é gente? – e ambos anuem com a cabeça.

– Sim, continue. Só quero a verdade. Pois, vou confrontar a versão de vocês com a do senhor Gideão para poder estruturar a defesa.

Advogado e ajudante reparam os descansados homens ficarem em posição de sentido em suas banquetas e com a alma baterem continência ao ouvirem o nome.

– A gente não largou Dião não, fique o doutor advogado a par disso – Tonho.

– Ciente de tudo, apuramos tudo para fazer como o de costume. Já estávamos manejado o corpo para dar para as piranhas, mas aí Dião ordenou respeito ao chefe morto, que não era para ninguém tocar no corpo e que o Doutor não ia virar desaparecido, ia ter velório e missa de corpo presente – Aparício.

– Fui eu que liguei para os homem. Mas veja bem, não foi trairagem, foi por ordem. Dião quis assim e eu não ia por questão no seu querer, remendar sua ordem. Agora fica aquele homem proseando glórias por aí, como se tivesse laçado Dião. Dião foi por gosto, a gente resistia. Bastava nada, era só agir no de sempre contra os contrários. Mas Dião disse que se entregava, mandou ninguém se posicionar, exigiu que ninguém atocaia-se – Evaristo.

– Eles estavam no nosso domínio, nas léguas que conhecemos desde menino ia ser mais fácil que pescar na piracema. Galinhas entrando em terra de suçuarana – Tonho.

 

Caminhante

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