Sintonia Fina (cap.2)

sintonia fina, Jorge Horácio
Jorge Horácio

As palmas reduzem até ser possível ouvir o áudio e antes de apertar o play para dar andamento ao vídeo, Devaneador comenta.

– Atentem para a sutiliza da intromissão venenosa da grande mídia, reparem em suas técnicas em tentar conduzir os discursos – e dá prosseguimento ao vídeo.

O repórter de San Pablo pergunta a Maicon se ele concorda com o professor Augusto. Após se recuperar do baque da vergonha alheia o inquirido responde.

– Não. Que isso? Tem nada disso não. A gente sempre fez isso. Só que antes era bem menos gente. Era eu e mais uns chegados. Os seguranças olhavam atravessado, mas não dava nada. Agora que juntou umas dezenas passou a dar problema.

A entrevista retorna a Cascata.

– Como eu disse. Não se dão conta da magnitude de seus atos. Meu jovem, não se deixe levar pelas afirmações desses formadores de opinião golpistas. Querendo o transformar em mero consumidor, em um reles passeador de shopping. Você é líder de um movimento de indignação e revolta.

– Indignado a gente só ficou quando não pôde entrar – Maicon.

– Disseram o por quê de não poderem entrar? – o repórter de San Pablo.

– Falaram que não podiam garantir a segurança quando tantas pessoas chegam ao mesmo tempo.

– Foi apenas com isso que vocês se irritaram? Não havia nenhum tipo de revolta, querer tomar o espaço da classe dominante? – o mesmo entrevistador.

– Não. Não queremos tomar espaço nenhum. Nós sempre vamos lá. Mas quando o grupo ficou grande nos barraram…

– Não, não. Não é nada disso – interrompe Augusto Devaneador. – E, por favor, o senhor pare de fazer perguntas tendenciosas, de tentar induzir o jovem Maicon a responder o que você quer!

Antes do jornalista de San Pablo pudesse reagir o de Cascata de Maio indaga.

– Meu colega apenas perguntou o que os tinha irritado. Pelo visto o professor discorda da resposta dada pelo próprio Maicon. Então, segundo sua opinião, qual é a verdade?

– A verdade é que esses jovens têm uma vida cheia de privações, miséria e fome…

– Ei! Eu nunca passei fome, não.

Após uns vinte segundos de silêncio para lá de constrangedor, Devaneador retoma seu raciocínio.

– Falo de fome de sonhos, de espaço, de liberdade. E tudo isso está onde? Naquela Caixa de Pandora denominada shopping center. Esses jovens a abriram e agora a burguesia toma conhecimento do caos da desigualdade social semeado por ela mesma. No caso dos Rolezinhos tudo teve início com o olhar atravessado dos gorilas, dos seguranças, essa PM particular. Isso fica claro quando o jovem Maicon disse ‘A gente sempre fez isso. Só que antes era bem menos gente. Era eu e mais uns chegados. Os seguranças olhavam atravessado, mas não dava nada’. Nessa poucas e sábias palavras está embutida uma mensagem subliminar de suma importância. Ao proferi-las, Maicon quis dizer: Estamos aqui para dar fim a esses locais privados de consumo e divertimento. Para liquidar de vez essa cultura de classe. Chega de ficarmos apenas com o ínfimo, de termos somente o mínimo para nos mantermos em condições de carregarmos esse sistema de castas em nossas costas. Não somos dalits. Que a classe dominante trema frente à revolução. Nada temos a perder fora nossos grilhões! Temos o mundo a ganhar!

– Que papo é esse. Eu disse o que quis dizer. Não tem nada de mensagem subliminar. Esse velhote ta me tirando!

Antes de Maicon começar a despejar impropérios em Devaneador a emissora derruba o link de San Pablo.

 

Caminhante

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