Síndrome de Estocolmo (cap.12)

banksy síndrome de estocolmo

Advogado e assessor deixam a Fazenda rumo à capital, mas antes param em Arraial para ouvir os rumores.

– Procedeu bem. Isso tinha que acabar. Essa pouca vergonha tinha que ter fim. Desde moço o Doutor fazia essas coisas, deflorou muitas meninas do Arraial e região. Tudo ainda na rama, na muda – fala um enquanto encaixa sua peça de dominó às outras.

– Fez tanto aqui que se cansou. Foi buscar na capital. Como essa última – replica outro.

– Ninguém tinha peito de se bater com o homem. Quem diria que Dião é que faria isso – retorna o um.

– Eu, hein, compadre. Se não Dião, quem? – e dá serventia a uma peça sua.

Adriano Mascarenhas Reis diverte-se com o alinhamento do discurso. Não muito tempo atrás esses mesmos homens estavam nessa típica mesa de cimento com um quadriculado xadrez ao meio e como agora não havia reis, damas, bispos, cavalos, torres e peões. Estas peças estão em outras partes do Arraial, nunca ali. Como agora estes mesmo homens faziam seu beija-mão. O advogado consegue reconstruir palavra por palavra o discurso anterior.

– O Doutor mesmo não sendo mais tão novo, já tem filho homem feito, não para quieto. Sabe do que estou falando, compadre? – e sorri.

– Oxe, e quem não sabe. O compadre está falando da peça nova que arranjou na capital.

– Sim, sim.

– Mas já faz tempo que o Doutor laçou essa cabritinha. Tá como amásia. Quase todo final de semana tá na Fazenda metido com ela.

– E nela! – e a dupla cai na gargalhada.

Adriano começa a distanciar-se dos jogadores de dominó e murmura.

– É, rei morto, rei posto.

O ajudante enxerga uma aglomeração mais adiante, no outro extremo da praça, avisa seu chefe e seguem para lá. O ajuntamento se dá entre o coreto, na praça, e a venda do Seu Pitomba, do outro lado da rua. Adriano reconhece a figura do deputado Vilamares falando com populares.

– Só para saber se entendi. Espanando a chiqueza do vocabulário, o doutor deputado está dizendo que é tempo de mudança. Que agora é a hora de buscarmos outro caminho, um onde os humildes tenham vez.

– Mas é isso homem! Captou bem meu intento.

– E o doutor deputado está dizendo que o próprio é esse tal novo caminho?

– Bem, aí já é interpretação sua, meu bom homem. Não sou pretensioso. O que vos digo é que pretendo participar desse novo caminho. Afinal é insanidade sempre fazer a mesma coisa e esperar resultados diferentes.

– Vixi, político é padre que não pode ver gente que já faz uma missa. Tirando as noves horas, os floreios o doutor deputado está aqui pedindo voto. É ou não é?

– Bem, senhores, sinceramente vos digo que serei candidato ao governo do estado. Mas não estou aqui apenas para pedir seus votos. Não sou da realeza, não sou rei. Também vim de origem humilde, embora não sertaneja, mesmo assim humilde e muito. Por isso entendo-vos e meu mais profundo desejo é trabalhar com povo, construir com vocês. Chega de hierarquias! Viva a horizontalidade! Comigo o povo terá vez! – diz triunfante esperando aplausos, porém o silêncio impera.

E o seu rompimento frustra ainda mais as expectativas de Antônio Vilamares.

– Conversa! – Diz até então um que estava calado. – O Doutor disse a mesma coisa há um par de anos atrás. Eu tava trocando a pelagem, não era mais menino, mas ainda não era homem feito. Me alembro muito bem. O Doutor querendo ocupar o posto do falecido pai, o doutor Felipe que Deus o tenha, veio com um proseio parecido.

– Esse caminho é o mesmo de sempre. E trilhado pelos os mesmos de sempre – diz um terceiro.

– Vai me desculpar o doutor deputado, mas com que direito aparece aqui em Arraial? Não é dos Reis. Antes aqui tudo era dos Reis, agora, com essa rixa tem os Reis e Dião que dos Reis não mais é. Mais que eu saiba o senhor também não é do bando de Dião. Nem sequer foi visitar o homem na cadeia.

– Não, não sou meus caros senhores. E devo fazer uma correção, o novo caminho proposto por mim em nada se assemelha com o do Doutor. O caminho por mim proposto é um mundo sem Reis e sem Dião. Afinal, não podemos esquecer que esse tal Dião ajudou o Doutor a oprimi-los, a manter o Arraial sob o tacão do Doutor. Por fim, devemos observar se realmente Dião fez o que fez por causa da menina. Se fosse isso não teria feito antes? É algo a se perguntar. Só agora e antes não? É de se estranhar. A desavença pode muito bem ter sido outra. Talvez Dião tenha ficado ambicioso e pensou com seus botões, se sou eu que mantenho isso aqui para os Reis posso muito bem tomar para mim. Senhores hão de concordar que parece muito mais um caso de traição que de justiça.

– Arre, político é tudo serpente tentando Eva. Desde quando Dião é de sutileza. Quando deseja algo, faz. Quando pensa algo, diz.

– O doutor deputado vai me desculpar, mas quem tá agindo com desacato aqui é o doutor mesmo querendo roubar trabalho alheio. Se foi Dião que deu com o Rei dos reis cabe a ele ficar com o botim.

– Segundo o compadre. A caça é do caçador. O doutor tá agindo como hiena atacando presa alheia, isso lá é coisa de gente.

Vendo seu castelo começar a ruir Vilamares tenta ao menos manter os alicerces. Contudo, é interrompido.

– Chega de politicagem! Estamos fartos dessas propostas de novos caminhos, de vamos construir juntos, dessas conversas de futuro.

– Mais embarrigado que menino pego de bicha! – grita um mais afastado.

– Dião agiu no concreto! É um de nós. Dião é de fazer e não de discursar. É de mandar, não de discutir. Fala como vivente, age como vivente e não como doutor. Dião não tem anel, tem calo. Dião não tem gravata e nem paletó. Tem garrucha e rebenque. Não tem diploma, tem palavra. Não é de assembleia, é de ação.

– Política é danação, é arte da safadeza, ofício de lograr o povo. Quem agiu, quem tomou providência não foi político, foi Dião. Aí, aparecem as hienas mirando o que pertence a outro.

– Chega de comício, de assembleia, de reunião. É hora de ação. Lugar de ladainha é na igreja.

– Nem vou tomar as dores de Dião, pois acho que ele é que vai querer tratar disso. Questão de honrar ele não passa para terceiros.

– Só quero ver, o homem não tolera o roubo de uma saca, imagina o do seu feito.

E Vilamares sai dali quase fugindo. Ao longe ainda consegue ouvir.

– Com Dião tudo vai voltar pro eixo!

– Com Dião tudo vai ficar ordeiro!

– Com Dião a vida vai ser menos Severina!

Adriano observa o espetáculo, regozija-se, e decide ficar mais um pouco. Vai à casa alugada pelo partido de Vilamares, nela funciona o diretório. Lá, encontra o fujão.

– Olá.

– O que o senhor deseja? – Vilamares.

– Nada. Vim apenas por curiosidade. A oposição nunca teve espaço aqui, estranho ver um diretório dela em Arraial.

– São novos tempos.

– Pelo ocorrido na praça não me pareceu. Trabalho anônimo tem suas desvantagens.

– Do que o senhor está falando?

– Eu? Ah, nada nobre deputado. Estava apenas pensando alto.

– Eles vão mudar, só estão como umas ideias muito arraigadas. Vão entender.

– Me pareceu que querem Dião.

– Isso é fogo de palha, voo de galinha. O homem vai apodrecer na cadeia. Não sai de lá tão cedo.

– Sai. Asseguro que sai.

– De onde tirou tanta certeza?

– De mim. Sou o advogado de Dião.

Vilamares encara Adriano Mascarenhas Heinz e tenta se lembrar qual foi a sua última derrota nos tribunais, nada surge em sua memória e um leve tremor começa a tomar conta de seu corpo.

– Com a repercussão na mídia Dião não é visto como assassino, o veem como herói. Com esse trunfo consigo fazer meu cliente responder em liberdade. Para a semana Dião estará livre – percebe o impacto de suas palavras no político e vai adiante. – O deputado sabe qual o erro em semear o caos? – e antes que o deputado pudesse atinar qualquer resposta, responde. – É crer ser possível prever a colheita. Bem, vou indo. Desejo boa sorte ao senhor – e para Adriano o pavor nunca teve uma imagem tão cômica.

 

Caminhante

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