Sintonia Fina (cap.3)

sintonia fina, Jorge Horácio

Em Cascata de Maio o professor continuou a demonstrar a sua teoria.

– Vejam aqueles oprimidos logo ali – vira-se e aponta para Cleber e os seus, que até o momento estavam como pano de fundo da entrevista – Por mais que tente condicionar a consciência do povo, jamais vão conseguir domar essa força da natureza, o instinto da massa. Invadiram a praia e montaram o seu piquete. A barraca é o centro da fortaleza. Trouxeram até suprimentos para dias difíceis de resistência. Afinal nunca se sabe quanto tempo o embate vai durar.

Estupefato, o repórter que não reconhece na cena nada das afirmações do douto, argumenta.

– O senhor vê isso? Bem, parecem apenas pessoas se divertindo. Parte deles está até jogando futebol.

– Isso não me surpreende, vindo de um alienado membro da mídia reacionária.

Mentalmente o jornalista esbofeteia o professor, o chuta em local muito delicado e escarra em sua face com vontade. Fora da ficção decide inquirir os revoltosos de Cozinhabarraca.

– É pegadinha, né! – afirma Cleber enquanto cai na risada. – Foi boa, eu quase acreditei que você estava falando sério.

– Mas estou falando sério – o repórter. – Essa é a teoria do professor Augusto Devaneador da Silva, a qual ele denomina Descidinha.

Em seguida apresenta o catedrático a Cleber. O futebolista não perde a esportiva e responde com bom humor.

– Mas a minha teoria é que tá um calor danado. Lá do morro a gente viu esse marzão, essa areia e decidiu descer. Não viemos para invadir e nem resistir. Viemos para jogar bola, beber umas geladas e cair na água. Claro, e azarar a mulherada. Mês passado conheci uma francesinha, se amarrou aqui no menino de Cascata que causa arrepio.

– Não, não. Meu jovem não se deixa induzir pelas aparências. Por essa versão tendenciosa dos fatos imposta pela elite.

– Ih, o velho surtou! – conclui divertido.

– Eu compreendo, seu espanto. Vocês não vieram aqui por lazer…

– Viemos, sim. Eu sei que o doutor é de outro mundo, mas tenho uma notícia para dar, pobre também se diverte.

– Eu sei. E de forma criativa vocês fazem uso da diversão, do lazer para protestar e reivindicar. Mostrar orgulho, o amor em ser pobre.

– Amor em ser pobre?! – e Cleber dá uma boa risada. – Eu não tenho vergonha de ser pobre, não é crime. Agora, amar ser pobre de jeito nenhum. Como diria Joãozinho Trinta ‘quem gosta de miséria é intelectual, pobre gosta é de luxo’. Eu adoraria ter uma dessas coberturas de cara para o mar e um carrão para zoar com a mulherada.

– Mas isso é se vender ao capitalismo! – o escandalizado professor.

– Opa, chama o homem aqui. Se me arrumar um apezão e uma maquina nervosa me vendo na hora.

– Meu jovem, capitalismo não é uma pessoa é…

– Eu sei. Ao contrário do que pessoas como você pensam pobre tem inteligência, só não é instruído.

– Não consideramos os pobres desprovidos de inteligência…

– Consideram, sim. Sempre dizem que o que falamos não é o que queríamos falar, quando fazemos isso é porque queríamos fazer aquilo. Mesmo quando afirmamos que não é nada disso, vocês olham a gente com superioridade como se fossem Deus, como um adulto falando com uma criança e com a maior tranquilidade do mundo afirmam que estamos enganados e nos explicam o que realmente queríamos dizer. Como, por exemplo, qual o verdadeiro motivo de estarmos aqui na praia.

O repórter contém o riso e pergunta.

– Então não se trata de protesto, de uma manifestação?

– Claro que se trata. Se nós quiséssemos só nos divertir iríamos para Angra, Saint Tropez, Ibiza, Bahamas ou Mônaco.

– Me permita fazer um à parte – o professor. – Há um equivoco em sua análise, meu jovem. Todos os locais citados são excelentes para uma manifestação. Levar o caos a esses locais onde os sugadores da alma dos explorados regozijam-se de suas façanhas é uma excelente ideia. Um belo próximo passo para a revolução.

Os outros dois ficam quietos por algum tempo. Por fim, Cleber se pronuncia.

– Eu estava sendo irônico. Fazendo piada.

– Como? Não acredito. Fazendo brincadeira com algo tão sério. Como pode. Não se deixe cegar. Você tem potencial para ser um Lênin…

– Sacanagem, hein! Se é para ser outra pessoa quero ser o Neymar. Ganha uma grana no Paris Saint Gemain e marca cada golaço. Dentro e fora de campo também. Já viram a mina que ele ta pegando agora?

 

Caminhante

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