Síndrome de Estocolmo (cap.13)

banksy síndrome de estocolmo

O Doutor tava num desespero só, mais desamparado que filhote caído do ninho. Não sei o porquê, mas também fiquei arreliado. Fui atrás, tinha que assossegar o coração do Doutor e o meu. Agrupei os cabra e dei ordem de busca, todos sabiam muito bem o que deviam procurar. Sei rastrear quem apaga pegadas, revelar quem se disfarça. Sabia que ia achar.  Isso nunca foi questão. O que me afligia é como ia encontrar. Essas matas cheias de bichos com presas, peçonha e fome e de homens traiçoeiros a rondar é lugar de ceifação de vida, de minguação de tudo que é frágil. Esse mundo não é para inocente e nem para distraído. Tem que ter instinto aguçado, saber farejar ameaça e estar pronto para tudo sem medo de se bater, de fazer sangrar. Para viver nele só sendo mais feroz que as feras e as bestas. Só vinga nele quem assusta assombração.

Dentro da mata, com Evaristo, farejei medo e desespero. Sabia de onde o vento vinha. Então, fui contra ele e comecei a destroçar as brenhas. A abrir caminho e espantar os bichos. Ouvi o grito frágil. Torci para não correr. Desbastei mais folhagens e a vi. Pequena, assustada, chorosa. Senti dor no peito com a imagem. Em seguida fiquei preocupado de ela correr de mim, por medo, por pavor. Se os bichos fazem isso ela podia muito bem fazer o mesmo. A menina assim que me notou ficou mais luminosa que sol de meio dia. Ia dar alguma instrução, mas não deu tempo. Ela disparou na minha direção e me abraçou com desespero, alívio e contentamento.

Ali tava a solução de tudo, atinei.  Tinha o facão na mão, mas não ia fazer uso dele, muita judiação. Tinha o revólver. Entre os olhos, um pouco acima e a menina se ia sem atinar nada, sem sofrer como rês de pata quebrada. Um ato certeiro e a inocência deixa de sofrer. Tudo me cabia ali, podia despachar para o céu, a tirava desse inferno. Evitava as dores futuras, o sofrimento sem alívio. Salvaria sua alma. Mas fraquejei, doutor advogado, fraquejei. Salvei só a vida. Sou vivente, fiz o que sei fazer. Não sou padre e nem pastor.

Sabe, eu e Maria a gente sempre quis uma menina. Depois de dois guris é a coisa mais normal de desejar. Essa menina… sem pai…  sem mãe… bem que poderia ser nossa. Bestagem, Maria devia de tá é seca quando ela nasceu!

Depois dos meninos, Maria pegou barriga mais duas vezes. Não vingou. Nas duas vezes era menina. Meninas que não pude salvar.

E um delicado grão de água percorre a pele agreste do acre homem. Não vai muito longe, logo finda ao ser drenada pelas secas rachaduras do caminho.

– Fico tocado, senhor Dião. Fico mesmo. O senhor poderia repetir o mesmo diante do juiz e do júri. Afinal disse que sua vontade é dizer a verdade.

– Sim. Não sou de falácia e nem de fantasia.

– Apenas seria bom omitir aquele trecho em que o senhor pensou em sacrificá-la.

– Oxe, acabei de dizer que não sou disso.

– Eu sei, senhor Dião. Mas não estou pedindo para o senhor mentir. Apenas para não falar. Ora, quando o senhor guarda um segredo por acaso está mentindo?

– Não sei se é o caso. Não vejo muita parecença não.

– Bem, rogo ao senhor que reflita um pouco. No nosso próximo encontro me dê sua resposta. Creio que já virei com o habeas corpus, assim o senhor irá responder o processo em liberdade.

Adriano deixa a delegacia acompanhado por seu pajem, vê seu motorista deixar seu assento e se posicionar para lhe abrir a porta de trás.

– Reparei no semblante do senhor enquanto Dião contava a história dele com a menina. O senhor me pareceu bem emocionado. Não achei que estava fingindo. Se estava interpreta muito bem.

– Não, não estava garoto. Assim como você também me emocionei. Mas isso não nos faz necessariamente boas pessoas. Não se deixe enganar com tanta facilidade.

A porta é escancarada, porém antes de conseguir entrar percebe uma acanhada criatura ao seu lado.

– Deseja algo, senhor delegado?

– Bem, sim. Parece que o seu, digo, senhor Dião logo será libertado.

– É o que eu pretendo conseguir.

– Bem, eu não sei o doutor, mas eu não vejo motivo para ressentimentos, não é mesmo. Doutor Adriano, os homens de Dião andam rondando minha casa, revirando o cotidiano dos meus parentes e amigos. Depois, foi ele mesmo que queria ser preso. Do contrário não teria mandado ligar para nós.

– Creio que Dião não esteja ciente disso. Afinal, se lhe quisesse algum mal já teria acontecido. A não ser que esteja esperando para ele mesmo fazer. Ouvi outro dia na praça que questão de honra ele não terceiriza.

– É disso que falo, doutor. Não tem nada de honra não. Aquilo foi bobagem, tolice minha. Não devia ter feito aquelas pilhérias. Nunca que ia ofender um prócer de Arraial.

– Prócer? – e um sorriso de eureca surgi em seus lábios.

 

Caminhante

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