Sintonia Fina (cap.4)

sintonia fina, Jorge Horácio

A projeção acaba e um atônito silêncio paira sobre todos no auditório. As luzes são acessas e os rostos mudos ficam na expectativa.

– Pois é, companheiros, companheiras ainda falta, ainda falta… Contudo, não podemos ficar decepcionados, de forma alguma podemos esmorecer. Transformações são processos lentos, principalmente as grandes. Sem essa conversa de que o povo é letárgico, é alienado. O povo vive sua vidinha sem se dar conta do panorama maior, pois foram levados a isso pelas elites. Tal como um vírus introjetaram e introjetam esse sentimento bovino fazendo com que ele se preocupe apenas com o capim da hora sem nem sequer atinar para o abate futuro. Criaram um sistema que faz com que a massa dispense muita energia e tempo para sobreviver, assim, não conseguem olhar em volta, não percebem todo o quadro. Mas, nós podemos. Portanto, ao invés de ficarmos nos lamentando sobre a ignorância – e faz aspas com os dedos – sobre a cegueira do povo – e repete as aspas – temos de tirar essa viseira dele. Nossa missão é arrancar esse antolho criado e imposto pelas classes dominantes! Como faremos isso? Não é nos reunindo aqui e conversamos somente entre nós, criando textos para nós mesmo, enfim, alimentando um mundo à parte. Sim, é importante trocarmos ideias, reunirmos para definirmos estratégias e ações. Contudo, apenas isso não basta. Precisamos sair dessa catedral do saber, abandonar esses hábitos de sacerdote como se tratássemos de assuntos de outro mundo, de outro plano. Sem sombra de dúvida, cuidamos de assuntos elevados, porém são deste mundo. Portando, é absurdo nos isolarmos. É um arrematado disparate ficarmos enclausurados nos campus como se mosteiros fossem! Até parece que estamos em um clube de turfe ou de golfe. Somos a vanguarda revolucionária, cabe a nós acender a centelha da população. Falamos desse mundo, nosso objeto de estudo é este mundo, sendo assim, cabe-nos ir a ele e não evitá-lo.

Uma salva de palmas irrompe no recinto, com direito até a assobios. Só não surgiram pedidos de bis, pois o tempo estava curto e ainda havia o espaço para as perguntas. Após o alvoroço serenar, o intermediador abre para perguntas.

– Professor como podemos fazer para seguir a sua sugestão? Como fazemos para ir ao mundo? – uma graduanda da plateia.

– Bom ouvir essa pergunta. Agradeço por ela, minha jovem. Então, vamos a ela. Não podemos ter receio do povo, temos que conversar com ele. Não falo de momentos de crise, quando há manifestações, paralisações. Nestes momentos também. No entanto, somente eles não bastam. São pontuais e espaçados demais para criar intimidade, para gerar confiança e cumplicidade. Tem que ser no dia a dia como os pastores e a mídia golpista fazem! Também temos que pregar a palavra. Mas, a nossa palavra que também é a dele. Mais dele que nossa. É no convívio cotidiano é que vamos despertá-lo. Será aos poucos é que vamos conduzi-lo para a libertação. Em conversas amigas, ocasionais, porém constantes é que ocorrerá o estalo. Quando menos esperarmos, se agirmos dessa forma, a revolução estará à nossa porta e não haverá concílio e nem conluio capaz de deter ou reverter o inevitável. Saiam daqui e conversem com os cobradores de ônibus, como os garçons dos bares que frequentam, vão a uma obra e falem aos pedreiros. Aqui mesmo temos as pessoas da limpeza, todas terceirizadas, não basta cumprimentá-las, mostrar simpatia, dialoguem, as conheçam mais de perto. Em meio a essas conversas diárias as despertem para a salvação. Façam isso de forma homeopática, gradual, somente assim ocorrerá a troca de mentalidade, somente assim o discurso hegemônico das elites ruirá e discurso verdadeiro triunfará. Eu mesmo procedo assim. E creiam em mim, estou vendo resultado, progresso. Vamos despertar os Lenins em latência que são os cidadãos e as cidadãs do povo.

E a triunfal resposta é coroada por uma estrondosa aclamação, poucas vezes vistas na instituição, praticamente uma apoteose.

 

Caminhante

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