Síndrome de Estocolmo (cap.14)

banksy síndrome de estocolmo

Adriano volta para delegacia e Dião manda chamar Evaristo. O imediato não vem sozinho, são pelo menos vinte. Estão a cavalo e em carros. Contudo, é possível pressentir a existência de mais alguns, disfarçados, andando pela praça e no boteco do seu Pitomba, se querendo passar por paisano.

– O que isso, homem? Guarde já essa arma – ordena o delegado a um policial valente.

– É reação, delegado. Se vamos morrer que seja com honra.

– Largue mão de ser besta. A questão aqui é não morrer. Esse Evaristo me aparece aqui com vinte cangaceiros e você ainda quer mostrar os dentes. Guarde já isso! – e é obedecido.

A cidade é pega em um surdo susto. Os passantes não sabem para onde correr, onde se esconder, só sente o cheiro de guerra no ar. Manada prevendo predador na relva, atenta, apenas esperando um movimento brusco para sair em debandada. Todavia, ele não vem e Evaristo, acompanhado por Aparício, se afasta do grupo maior e vai em direção aos homens que saíram para recebê-los, Adriano e o delegado.

– Venham, me acompanhem. Seu Dião está aguardados os senhores – o delegado.

O grupo começa a se movimentar, porém para ante uma observação.

– Não seria melhor os senhores deixaram as armas. Não é adequado entrar na delegacia armado, uma vez que não são policiais.

– O doutor advogado que me desculpe, isso aqui lá é igreja para eu deixar arma na porta – Evaristo.

– Depois, a gente veio aqui para tudo – Aparício.

Não ocorre mais nenhuma objeção e todos adentram a delegacia. Um dos agentes abre a cela de Dião e o grupo para diante da porta escancarada.

– É verdade isso, Evaristo? Você colocou o povo em cima da família e dos amigos do delegado?

– Coloquei, para o caso de alguma precisão.

– Não tem precisão nenhuma. Tire os homens de cima da gente do delegado. Agora podem ir.

Ocorre um movimento de retirada, então, Evaristo estaca e vira-se para Dião.

– É só isso? – percebe o estranhamento pela desobediência no rosto do chefe. – Estamos aqui, seu Dião. Vim com vinte homens à vista e tem mais um tanto acobertado.

– É só um nada, seu Dião. Só o seu querer e está feito – Aparício.

– Eu não careço de ser informado do que já sei. Não estou pondo questão na capacidade de vocês, nem na lealdade. É só decisão minha.

As palavras assossegam os corações dos dois homens e saem.

– Voltem aqui!

E um leve temor percorre Adriano e um extraordinário o delegado.

– Às ordens! – ao voltarem.

– E Maria? Como ela está?

– Dona Maria está bem. Ficou chateada pelo senhor não deixar vir aqui.

– Isso aqui não é lugar para ela.

– Conseguimos o pouso para dona Maria, aquele que o senhor disse. Ela entendeu o motivo de sair da Fazenda. Não queria mais ficar lá também.

– Alguém andou importunando minha mulher?

– Não. E se alguém se atrevesse não tava mais nesse mundo.

– Bom, muito bom. Enquanto eu estiver aqui você é o responsável por ela, Evaristo.

– Sim, enquanto viver ninguém ri e nem ofende dona Maria.

Saíram do local das celas. Tudo parecia apaziguado até Aparício estacar e encarar um dos policiais, o que fez menção de reagir quando da chegada dos homens de Dião.

– Que isso gente, nada de briga – o delegado ao perceber que o seu comandado devolve o olhar atrevido e levar a mão ao coldre.

– Pare com isso Aparício! Não arrume pretexto, é ordem, você mesmo ouviu – diz Evaristo, da rua.

Descrava os olhos do rival, olha com desprezo para o delegado e desce os poucos degraus rumo à rua.

– Vão com Deus! – o delegado.

– E vocês fiquem com o Diabo! – Aparício.

O delegado suspira e desabava baixo, para si.

– Pelo visto já estou.

A matilha desmanchou o cerco à delegacia e Adriano não demorou para pegar o caminho da capital. Enfastiado, Dião deitou-se para a sesta. Porém, minutos depois o predador experiente desperta, fica em alerta ao sentir um aroma diferente no ar. Cheiro de comida boa. Em seguida, do outro lado da grade, aparece seu anfitrião.

– Bem, seu Dião, comida de prisão é uma tragédia. Então, trouxe essa cuca, foi minha mulher que fez para agradecer a gentileza. Tem café fresquinho, feito agorinha. Aceita um gole?

A oferta foi aceita e uma mesa foi posta no cárcere. Dião aprovou o café e a cuca, mas a boa comida não abrandou seu instinto. As mesuras e simpatias mostradas durante a refeição o fizeram farejar algo.

– O que deseja delegado?

– Ora, eu nada.

– Tá todo manhoso, com jeito de pedinte.

– Bem, é um assunto delicado seu Dião. Nem sei por onde começar. A gente faz cada bobagem nessa vida. Mas quem é que nunca se distrai, não é mesmo. Quem nunca comete um erro aqui outro ali? Até os santos cometeram seus pecados o que dirá nós. Nessa vida…

– Desembuche homem! Fale logo de uma vez que já está me dando nos nervos!

– Foi tentação do demônio, seu Dião! Só pode! Foi o tinhoso que me tirou o juízo – e cai de joelhos.

Então, Dião é informado pelo próprio agente da lei que cantou glórias sobre sua prisão, que se referiu a ele como criminoso e etc. Porém, estava arrependido, mais  que arrependido, afirmou. Mais que isso, jurou por tudo que é mais sagrado. Rogou para ser poupado, mas se algo tivesse de acontecer que fosse só a si. Enfim, foi um auto de fé.

– Então, o senhor levantou falso sobre minha pessoa – e o analisa. – Mas está arrependido – olha o delegado de cima a baixo. – Certo, ta desculpado. Não temos contas a acertar.

E o peso do mundo foi tirado das costas do delegado e pela primeira vez, após muitos dias, conseguiu fazer amor com a mulher e ter uma noite sossegada de sono. Exceto por um momento no meio da madruga quando foi a o banheiro

– E se esse homem morre enquanto está preso, sob meus cuidados? Aqueles cangaceiros vão nos destrinchar.

Na manhã seguinte certifica-se de que tudo esteja bem com Dião e liga para Adriano para saber quando vai conseguir a soltura de seu cliente e se pode ser de alguma serventia em tal questão.

 

Caminhante

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