Sintonia Fina (cap.5)

sintonia fina, Jorge Horácio

Professor Devaneador, como de costume, realiza mais uma palestra. Porém, dessa vez é durante uma aula, também como de hábito.

– Tal como um médico ao tratar o paciente – Conclui o prólogo, então entra na parte explicativa – Ele sabe melhor que o paciente sobre o seu estado. O médico é o profissional capacitado a dar o diagnóstico preciso. Embora, o paciente busque achar que pode se automedicar, não pode, não possui leitura e nem treino para isso. Na sua luta diária pela sobrevivência enxerga apenas o imediato e muito próximo, enfim, o suficiente para viabilizar a vida. Sendo assim, não pode perceber estruturas e relações amplas. O povo está debilitado e doente. Portanto, nos cabe diagnosticar que doença é essa e recomendar o tratamento.

– Essa analogia é absurda – contesta um aluno do curso de medicina que calhou de fazer uma disciplina fora do seu curso e escolheu justamente a do afamado e renomado professor e doutor Augusto Devaneador da Silva. – Essa relação direta entre medicina e ciência humanas é um despropósito. Na sua retórica fica parecendo que o povo é um indivíduo, entretanto, trata-se de milhões – Devaneador tentou um aparte, porém lhe foi negada devido à indignação do aluno. – Experimente fazer tratamento uniforme de uma doença para todos os atingidos por ela. O resultado será a morte de todos. A não ser que você esteja mais preocupado em combater o mal que preservar a vida dos indivíduos. O senhor fala como se fosse capaz e de reduzir o indivíduo em todos os aspectos, sei lá, se existe alguém capaz disso seria Deus, se é que ele existe. Isso equivale a medicina se crer capaz de banir a morte do mundo. Quando o máximo que consegue é livrar de uma doença específica uma pessoa em particular, isso se for bem sucedida. Nem sequer conseguimos a cura universal de uma única doença quanto mais de todas.

– Isso me surpreende vindo de um estudante de medicina. E as vacinas? Nada mais são que uma cura, cura antecipada, aliás. A pessoa a toma e nunca será atingida pela doença que o medicamento combate. Portanto, uma vez realizada todas as transformações, findo todo o processo revolucionário…

– Mas isso é absurdo.

– O senhor me interrompeu, posso continuar? – diz com escárnio.

– O senhor falou por uma hora e meia e não deixou ninguém falar. Talvez seja o caso de ouvir  um pouco. Afinal, essa também é uma faculdade humana. Como ia dizendo, é absurdo. O senhor propõe algum tipo de revolução, mudança ou sei lá o que como se a sociedade fosse começar do zero, aí as precauções para evitar todos os males da sociedade anterior seriam tomados. A questão é que na medicina não existe uma vacina para prevenir todas as doenças. São apenas algumas que previnem algumas doenças.  As demais vacinas são parciais, conseguem reduzir a chance de pegar a doença, sendo assim, não garantem imunidade total. Enfim, já que estamos falando de medicina, o senhor é um caso clínico interessante.

A aula terminou e todos disparam para o intervalo. Menos o professor Devaneador, demorou um pouco para deixar a sala. Nunca fora tão firmemente contestado em sala de aula. As tentativas anteriores foram sufocadas com sucesso. O aluno é de outro curso, mas isso não o tranquiliza, percebeu na face de muitos no recinto a concordância. Isso não seria apenas por causa do intruso. “Talvez alguns professores do departamento”, pensou.

– Sim, principalmente esses moleques que chegaram agora e nada sabem da vida! Só o povo, só o povo. A batalha na academia está perdida! – e, marchando, deixou a sala.

 

Caminhante

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