Síndrome de Estocolmo (cap.15)

banksy síndrome de estocolmo

– O frouxo do delegado, agora, quer se livrar de seu preso – ironiza o assessor.

– Sim. Teme pelos seus. Quem tem responsabilidade teme pelos seus, só temerários não. Ninguém depende de suas ações por isso não entende. Também por isso é inconsequente. Talvez a idade ajude nisso. Com todo certeza. Quando tinha seus poucos anos costumava me sentir imune. Ulisses amarrado ao mastro enquanto ouve o maravilhoso canto. Porém, o rei de Ítaca já estava mais próximo de Caronte que do útero, por isso a aliança entre a curiosidade e a frieza do cálculo. Mas a juventude, mestra em zombar do que não compreende e em julgar com o rigor e a empáfia dos deuses o que não abarca, conta com a simpatia dos velhos para compensar sua alegre imprudência. Nada é tão comovedor quanto ver com olhos de plateia as reencenações das trapalhadas dos verdes anos. Por querer vê-lo envelhecer o suficiente para viver a sensação descrita lhe darei um conselho. Garoto modere suas demonstrações de desdém para aqueles homens do Arraial.

– Mas nada digo

– Contudo, demonstra. Se um deles se ofender, o que acha que irá ocorrer? Não irá entrar com uma ação judicial para buscar reparação, a reparação será na ponta de um punhal. Aquilo não é o mundo digital onde você diz o que quer e nada acontece. Lá, tudo tem consequência. O agir e o não agir. Ouça-me. Deixe-me ser as amarras de sua bela imprudência.

 

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Também na capital, não muito longe do diálogo anterior. Abigail finalmente consegue encontrar Dagmar em um shopping e não se contém. Corre até ela e investe contra ela.

– Como pôde fazer aquilo? Quem está te pagando?

– Não é nada disso….

– Então, onde você está trabalhando? Do que está vivendo?

Dagmar tenta fugir, entretanto, Abigail não sai do seu lado, a segue por toda parte do centro comercial e é taxativa: não irá embora enquanto não entender.

– Ela já tinha ficado tempo demais com o Doutor. Gostava dele. Não podíamos fazer nada por ela. Mas, pense, pense no que podemos fazer pelas demais. Essa é a causa, nada de paliativo, mas a solução.

– Que causa? Ela é a causa!

Mira-a. Não consegue deixar de fazer ligação entre as novas roupas de Dagmar e as sacolas de lojas frequentadas por gente de outra espécie com a divulgação da notícia e dos vídeos. Lança um soco e embala.

– Sua desgraçada! Você conseguiu transformar aquele monstro na melhor parte da vida de Pérsia! – a agressão só cessa quando percebe um tufo de cabelo da inimiga em sua mão.

 

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Em Arraial, corre a notícia que Gideão será solto a qualquer momento. Evaristo, um dos primeiros a saber, decide fazer um acerto antes que o noticiado aconteça, não quer entregar o mando com pendências. A caminhonete para no meio do sertão, em frente a uma modesta casa. Uma mulher vem à porta, percebe Evaristo e Aparício.

– O que deseja seu Evaristo?

– Onde tá vosso esposo?

– Saiu, foi na cidade – diz desconcertada.

Evaristo encara a mulher, em seguida encara o sol e sentencia.

– Ainda é cedo, deve de tá na lavoura – e, a pé, ruma para lá.

A mulher desespera-se, porém sabe que não pode se bater com a fera, por isso roga.

– Onde vai Evaristo. Deixa ele em paz!

Evaristo faz que não ouve, passa a casa e continua. A mulher percebe que não é e não será atendida. Então corre para o fundo do casebre e grita para o horizonte.

– Foge, Claudir! Claudir foge!

Aparício encosta sua arma na testa da mulher.

– Vai ficar quieta do jeito difícil ou do jeito fácil?

A arrasta para dentro da casa. Tranca a criança que consegue andar no quarto onde está a de colo, o dos adultos da casa, e joga a mulher sobre a infantil cama.

– Misericórdia, Aparício! Meu esposo, sou casada!

– Não, é viúva, desacompanhada.

Claudir tem a impressão de ter ouvido a voz da mulher. Deixa a enxada, dá alguns passos em direção a casa, mas para ao ver Evaristo.

– O que traz o senhor aqui?

– Não se faça de besta, sabe muito bem.

– Aquilo no bar do seu Pitomba foi coisa da cachaça, eu não penso nada daquilo. Juro por Nosso Senhor Jesus Cristo.

– A questão não é o seu pensar, é o seu dizer.

Ao ver Evaristo empunhar a arma pensa em correr. Mas de nada adiantaria, compreende. Evaristo é atirador com olho de águia, não perde tiro.

– Pelo amor de Deus, Evaristo! Eu não disse mentira, disse? Eu não devia ter dito o que disse do mais novo de seu Dião. Mas ele é xibungo, todos sabem. Não tem mentira nenhuma. Não levantei falso.

– Se a verdade ofende não deve ser dita. Se diz tem que arcar com as consequências. Como é que vou olhar na cara de Dião sabendo que ouvi o que ouvi e não fiz nada. Nessa vida, o vivente tem que cuidar do que fala e de quem fala, senão, os dias encurtam.

Enquanto reza para Aparício terminar logo sem lhe fazer mal algum ouve sons secos, estranhos à Natureza, porém próprios de uma natureza, vararem o ar duas vezes. Profecia cumprida, percebe, e lágrimas começam a rolar.

Aparício farta-se. Fica em pé e ordena que ela arrume o vestido e vá vê-lo na sala. Ele entra na sala, logo, ela lá chega. Então, Aparício tira da algibeira um pardo pacote gordo e o coloca em uma estante, entre as imagens de Nossa Senhora e Jesus Cristo.

– É para remediar os dias difíceis.

Deixa a casa sem olhar para trás e assume o assento do motorista. Mais um pouco chega Evaristo.

– Fazer viúva com cria pequena é danação. Mas o sujeito bebe, esquece dos seus e nós é que vamos lembrar? Temos nossas lealdades para respaldar.

 

Caminhante

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