Sintonia Fina (cap.6)

sintonia fina, Jorge Horácio

Augusto Devaneador da Silva chega em seu prédio, entra no elevador e reflete com seus botões se por acaso teria pego pesado demais com Mariana, a sua empregada.

– Não, definitivamente não. Tudo é Jesus, tudo é Deus. Chega de rememorar essa experiência trágica. Só libertando as expectativas do carrasco do além mundo é que será possível alguma mudança.  As expectativas devem se alicerçarem em algo novo, desprendido dessas velharias inúteis. Fui duro, sim. Mas dei um novo horizonte a ela. Vai ser doído por enquanto, porém toda metamorfose é dolorosa, contudo, necessária. Deixará essa carolice rastejante e irá bater asas, voar rumo à liberdade, à consciência de classe.

Os botões, como de hábito, nada respondem, guardam um silencioso respeitoso. Devaneador contenta-se com a deferência e a toma como aceitação e concordância. Não cogita a hipótese deles precisarem de tempo para digerirem suas palavras, confrontá-las com outras possibilidades para somente, então, poderem emitir alguma opinião.

O veículo para em seu andar, o inquilino o deixa, entra em seu apartamento e pelo aroma percebe o almoço pronto. Ao acabar de degustar a refeição, chama Mariana para falar de uma conversa específica que tiveram há uns quinze dias. Decidiu dar um tempo a ela para processar a revelação, para ocorrer a tal metamorfose. Entretanto, chegou o momento de ver a evolução, o estágio em que se encontra a transformação que ajudou a provocar.

– Me lembro, sim. Aquele dia que o senhor disse que Jesus era um engodo, um arquétipo e mais um monte de coisa. Que bom que o senhor tocou no assunto. Não sabia como fazer isso.

O coração de Devaneador acelerou de emoção, uma conversão tão cedo. E esse desprezo dos acadêmicos pelos desfavorecidos, francamente! A Academia é um cemitério!… e seus sentimentos são interrompidos…

– Eu falei com o pastor da minha igreja das blasfêmias ditas pelo senhor e ele falou que o senhor tá com encosto e que seria bom ir lá para ele amarrar o mal, expulsar ele da sua vida. Se o senhor quiser algo mais reservado ele pode vir aqui.

O professor explodiu, com ira revolucionária despejou suas teses sobre o amanhã e sobre o passado. Anos e anos de discussões, palestras, livros lidos e escrito despejados em torrente. Cataratas Vitória despencado sobre a doméstica acostumada a correntes de água mais tranquilas e comezinhas como a que jorra da torneira da pia. Aquela fumaça trovejante só fez Mariana se convencer ainda mais de que seu patrão está possuído pelo demônio. Aquelas palavras que ninguém entende só podiam ser pragas disparadas a quem estende a mão, atitude típica do Tinhoso.

– Se preocupe não, seu Augusto, vou começar uma novena pro senhor.

– Eu não preciso ser salvo. A senhora é que precisa!

– Mas eu já fui, em nome de Jesus! – diz com alegria triunfante.

Perdeu o chão, fica sem palavras, sinal de alerta. Fica tão estarrecido que se esquece de respirar. Só retoma o movimento vital após a empregada acudi-lo.

– O senhor está bem?

– Sim, sim.

– Quer uma água?

– Não, não. Obrigado.

– O cafezinho de sempre?

– Sim, claro.

Foi à cozinha e preparou o cafezinho pós desjejum com água benta, abençoada pelos pastor no último culto. Ao ver o líquido ser saboreado pelo patrão, Mariana sente a presença do Espirito Santo.

“Pronto, a salvação começou. Glória”, pensa e os lábios expressam contentamento.

 

Caminhante

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