Síndrome de Estocolmo (p.16)

banksy síndrome de estocolmo

Por fim, Gideão Carvalho da Silva foi posto em liberta. Não faz muito, Adriano Mascarenhas Heinz entrou na delegacia para acompanhar a soltura do seu cliente. Não estava lá a família, Gideão não os queria naquela casa, ia ter com eles em casa. Porém a saída não foi anônima. Muitos esperavam ansiosos. A praça estava mais trucada que em dia santo de feira grande e dia de comício. Os comandados de Gideão fizeram-se presente, quase à porta, à espera da saída do chefe.

O leão saiu, estacou por um momento para mirar aquela multidão, sentiu não haver perigo e tranquilo, majestoso e indiferente voltou a se mover rumo ao carro de Adriano. A meio caminho do veículo percebeu um gesto e ouviu.

– Viva Dião!

– Viva o protetor do Arraial!

– Dião, salvador da família!

– Dião, protetor de donzela!

Muitos outros seguiram-se. O ovacionado não se abalou, não sorriu, nem agradeceu, não é do seu feitio retribuir adulação. Institivamente exprimiu os olhos, predador focalizando a manada. Murmurou para si que raio de atocaiamento está se passando?

– Senhor Gideão que tal dizer algo ao povo? – Adriano.

– Não sou de discurso.

– Não falo de discurso, só dizer algo.

Uma mulher se aproxima e diz que rezou muito para sua soltura. Lembrou dela no ato, mulher sofrida, calejada, de esposo vadio e desrespeitador, o qual deu fim, livrando a mulher do seu maior fardo.

– Veja só, seu Gideão. Só umas palavrinhas. Vai deixar o povo assim. Que tal algo informal, uma passada no bar do seu Pitomba?

Para lá foram, os que estavam perto olham o coveiro do Doutor com assombro. Respeitam e temem mais aquela face curtida que uma juba. Dá bom dia e recebe a mesma resposta, porém com tom de reverência. Alguns dão parabéns, mais não com muito entusiasmo. Aquele homem sisudo emana autoridade, ninguém se atreve a não  se mostrar cerimonioso.

Gideão chega ao palco e pede uma branquinha. Ela é servida e um não resiste a curiosidade.

– Com licença, seu Dião?

– Fale.

– Que mal lhe pergunte, o senhor vai tomar alguma providência contra aquela moço deputado da capital? Aquele deputado almofadinha andou desfeiteando o senhor. O povo aqui foi pelo senhor.

– O abusado tem um comitê na cidade, duvido que tenha pedido licença – segundou outro.

E os demais ficam em suspenso esperando pela resposta. Acompanham atentamente cada pequeno gesto de Gideão, não lhes escapa a menor expressão. Observam o varão em pé, junto ao balcão, tomar seu trago e concluir sem mágoa, contudo, preciso.

– Questão não faço. Mas se Deus colocar o vivente no meu caminho o que hei de fazer? É destino. É sina. É para ser – mandou seu Pitomba colocar na conta e rumou para casa.

Entretanto, o acontecido no boteco teve desdobramentos. O tempo e as bocas acrescentam um substantivo aqui, um verbo para mais adianta e uma vírgula acolá. Um ato de solidariedade, todos desejam participar, por isso cada um emenda e estende o recebido antes de passar adiante. Assim, o dito já não é mais o mesmo do proferido, no entanto, é tomado por certificado.

A versão de autoria coletiva foi a que chegou aos ouvidos de Antônio Vilamares. Nela, Dião dos Reis, agora, só Dião o havia jurado e rejurado.

Se achegou com estrondo, com alvoroço no boteco do seu Pitomba e com a mão espalmada martelou o balcão exigindo audiência. Como se um berrante tivesse sido tocado a turba, obediente, aquieta. Todos olham atento, quem ia ter peito de fazer o contrário?

– Digam para o esconjurado que sei da desfeita. Isso não é certo, mas vai ser acertado. Para mim esse citadino é pagão e pagão aqui não tem vez. Digam para o desaforado que nunca perco rés desgarrada, encontro serpente antes do bote, pressinto suçuarana de longe. Sei os caminhos e os atalhos, a mata nada me esconde. O mundo é grande, mas meu faro é bom e minha mira é certeira. Minha munição tem rastreador, tem guia. Nunca se perde nem se desvia. Sempre encontra o endereço, chega onde tem de chegar. Mas que ele não se alegre que não dou a hiena traiçoeira, a gente sem consideração passagem serena. Com cão satanás é sem vez e sem consideração. Se dá fim que nem bicho peçonhento, para erva ruim não se pode dar oportunidade. Se age como excomungado como excomungado há de ser julgado. Não vai ser com misericórdia como foi com o Doutor. Nada de bala, de tiro certeiro. Será no punhal, sem consideração cristã. Esse porco vai grunhir. Esse fariseu vai ganir mais que cachorro picado por cobra. Digam ao deputado para se paramentar, pois estou de tropa batida. Vou fazer esse ladino estrebuchar.

Dessa forma Vilamares foi posto para correr não pelo despachante de ladino, mas pelo acrescentar e distorcer do povo. Cabe lembrar que embora improcedente a versão não carece de verossimilhança. Afinal, quem deu cabo do Rei dos reis podia fazer o mesmo com um monarca menor.

Quando soube das modinhas e marchinhas compostas em homenagem a Gideão, não só nunca mais voltou a por os pés no Arraial como cercou-se de grande aparato de segurança. As rimas até que tinham sua graça, Vilamares não teve o mesmo entendimento.

“Veremos se nessa peleja quem se sai melhor, se o sertão ou se o mar. Esses dois elementos não convivem não, é contra a natureza, é desaprovação da Providência, onde um tá o outro não pode estar. Ou o mar vira sertão ou o sertão vira mar”.

“Quem da contenda sai. Vilamares ou Dião que dos Reis não é mais, pois virou imperador. O mar vai inundar o sertão ou o sertão vai engolir o mar”.

“Dião é bicho nativo, com onça sem grade e sem corrente criatura estrangeira, hiena vil não tem merenda”.

 

Caminhante

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