Síndrome de Estocolmo (cap.17)

banksy síndrome de estocolmo

Gideão sai do seu primeiro sono na residência nova. Ela não é seca e nem direta como a cela. A casa tem toques de mãe, enfeites e cuidados além da praticidade, é a presença de Maria. O marido senta à mesa e com cuidado a mulher entra no assunto.

– O povo fala muito, malda muito.

Gideão percebe o preambulo e aguça os ouvidos.

– E povo anda falando o quê?

– Dião, você sabe que nosso menor é especial, é artista lá na capital.

– Ora, é isso. Deixe de ladainha, Maria. Essas voltas sem necessidade. Sei muito bem que nosso menor é do avesso, é xibungo.

– Quem contou? – a preocupa mãe.

– E quem seria? Ninguém, alguém lá teria peito de puxar esse assunto comigo. Até você fica cheia de nove horas. Mas eu enxergo viração muito antes dela se anunciar no horizonte, não vou reparar que o nosso menor é o que não devia ser.

– Então?

– Assossega. Não vou tomar atitude, afinal, não tem o que remende isso.

O assunto é interrompido pela chegada de duas presenças ilustres, duas eminências da política local. Acomodam-se na sala.

– Nós estávamos passando aqui aí eu disse para o compadre Cícero, vamos se achegar na casa de seu Dião, fazer uma visita  de cortesia.

– Isso mesmo que o compadre Heleno acabou de dizer. Vamos lá prestar nossa solidariedade.

– Certo, certo. Sem floreio, sem prosopopeia. Qual a intenção? – interrompe Gideão.

Os políticos surpreendem-se, perdem o prumo com esse atalhe seco. Ali está mais um elemento da mudança que está ocorrendo em Arraial, a qual ainda não possuem plena ciência, porém está entre o sentir e o atinar. Até ontem gente como Gideão os tratava com deferência, sim, seca, silenciosa, mas ainda deferência. Agora, há isso, esse tom de conversa entre iguais ou pior.

– Desculpe, seu Dião? – um deles.

– Os senhores não estavam passando aqui perto. Aqui não é caminho de vocês. Vieram de premeditado. Então, qual o assunto?

Tiveram de ir direto a ele. Convidaram Gideão para disputar a prefeitura pelo partido.

– Hum, agradeço a lembrança. Mas eu não sou político. Não falo como um, não penso com um e meu proceder é bem outro.

– Por isso mesmo senhor Dião. É isso que o povo quer?

Gideão não aceitou, porém os ilustres conseguiram fazer com que pensasse mais na ideia e voltariam dali uns dias. Foram-se e Maria entrou na sala.

– Essa gente é teimosa, não aceita um não. Só a tiro – resmunga.

– Eu acho que você devia de pensar melhor, Dião – diz cerimoniosa e o marido presta atenção, pois percebe que ela tem muito mais a falar. – Como vai ser? Devia de aceitar. Pelo menos pensar melhor. Já não estamos mais na Fazenda. Não temos mais serventia para os Reis, não tem mais ninguém para dar valimento para nós. Nosso mais velho vai ser pai, a mulher dele tá de barriga, como você sabe. Dião, estamos soltos no mundo.

– É, à deriva, sem retaguarda. Galho sem raiz indo rio abaixo… Não se avexe, vou arranjar um caminho.

 

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Enquanto isso, na capital, Carlos Mascarenhas Reis, o primogênito de Alexandre Mascarenhas Reis, fala a si mesmo.

– O que farei? Não herdarei a ruína de meu pai.

Nisso ocorre um estalo na mente, surge um brilho nos olhos e a satisfação nos lábios.

– Trégua.

Ainda no mesmo dia marca uma reunião com Adriano Mascarenhas Heinz.

– Está me pedindo para que eu seja franco. Bem, não é algo ao qual estejamos acostumados. Para ver se alcanço tal intento vou me inspirar no meu cliente. Graças ao pateta do Vilamares a notícia virou A NOTÍCIA. Portanto, não existe a possibilidade de eu desistir do júri, pois ele irá absolver e deificar o meu cliente. A promotoria não se atreverá a recorrer por não desejar ter em sua biografia um gesto em favor de um notório pedófilo.

– E como ficamos? Afinal sou o dono da Fazenda, que tem as plantações, os gados, o frigorífico e o engenho. A maioria das pessoas de Arraial trabalha para mim, sou a maior fonte de receita dos cofres públicos.  E não basta tomar a Fazenda de mim, eu sou o contato com o mundo, os compradores nunca vão aceitar nada de propriedades que foram roubadas – afirmar cheio de si, exultando confiança.

– Sim, já tenho ciência disso desde quando soube dos dois tiros. Apesar de toda a sua fortuna você não põe os pés no Arraial com receio de levar um tiro. E aquele povo nunca atira à toa. Sem uma conciliação Arraial vem abaixo, contudo, os Reis também. A guerra não é boa para ninguém, também não a desejo. Um bom caminho para evitá-la é amenizar esse seu tom. Um conselho, mostre-se menos triunfante, para não ofender. Eles não hesitaram em atear fogo em tudo em nome do que chamam de honra e do que consideram certo.

– Compreendo. Em troca disso ajudo na eleição municipal.

– Gideão Carvalho da Silva não precisa de sua ajuda, Arraial já é dele, entregou-se por vontade própria, jogou-se em seus braços. Queres a Fazenda de volta e o feudo eleitoral para garantir uma cadeira no senado, no entanto, ofereces muito pouco. E sabes.

 

Caminhante

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