Sintonia Fina (cap.7)

sintonia fina, Jorge Horácio

Augusto Devaneador da Silva não desiste de sua missão, afinal, os contratempos e as pequenas derrotas são o presságio da vitória final. Portanto, é preciso perseverar, faz-se necessário seguir firme na fé. A esperança do ilustre professor é reforçada por um bom augúrio.

Outro membro do povo ao qual se aproximou para mostrar-lhe o caminho foi o Damasceno, porteiro de seu prédio. Com olhos humildes e sem ter para onde ir ouvia A Palavra, enquanto sentia que com as Testemunhas de Jeová podia fingir não estar em casa. Mas fazer o que? Essa é sina de porteiro, ter vários patrões, todos cheios de opinião sobre sua vida e querendo ajudar com suas sábias palavras.

“Devia de ter um aditivo por insalubridade”, pensava Damasceno com frequência.

Entretanto, com o tempo, Damasceno sentiu algo diferente, foi tocado pelas palavras do professor. O professor o incentiva à ação, a tomar uma atitude. Quem sabe faz a hora não espera acontecer, lhe disse em um dos tantos encontros. Sim, era isso que tinha que fazer, fazer sua hora.

Devaneador percebeu a mudança se processando em Damasceno. Em uma das tantas palestras sentiu um típico brilhar nos olhos de seu discípulo, a resolução em sua face era incontestável. Sim, sem margem para dúvida, tomaria uma providência. Enfim, uma alma conquistada para a causa, glória.

No dia seguinte seu coração alegrou-se enormemente ao saber que Damasceno tinha se demitido, logo, não voltaria mais ao condomínio. Estava em êxtase.

– Já começou, eu posso sentir. Começou – diz para si.

Como vai ser? Quando vai ser? O que importa? Devaneador sempre soube que seu papel era o de gatilho inicial, o de profeta anunciador e não redentor. Não adiante se lamentar por mesquinharias, não veria o acontecimento, contudo, o relevante é que já foi iniciado, é irrevogável, não há como ser detido.  Os efeitos ainda vão demorar, porém são inevitáveis.

E para sua surpresa, na mesma semana em que tomou o abençoado café de Mariana, encontra, ao entrar no banco, o Damasceno.

– Damasceno?

– Professor?

Cumprimentam-se e mais curioso e impulsivo que uma criança pergunta por novidades.

– Segui o conselho do doutor. Fui atrás, agi, fiz a mudança, fiz minha hora.

Não, diga – e seus olhos brilham de entusiasmo. Sim, podia ouvir as trombetas da anunciação sendo testadas para o início da apresentação. Era um começo, um começo promissor. Uma pedrinha no lago, mas com repercussão. Sim, tinha sido a força inicial que pôs tudo em movimento, a inércia fará o resto.  – Diga-me, qual movimento você entrou ou deu início.

Porém, o professor esqueceu que só em um mundo ideal a inércia age sozinha, há muitas outras forças além da que advém da que iniciou o movimento e a realidade despreza o ideal.

– Movimento? Bem, eu fiz um curso de padeiro no SENAC e já consegui emprego no ramo. Estou ganhando mais que como porteiro. Não fiquei nisso não, fui além, estou me profissionalizando em doces também. Quem sabe mais para frente, se Deus quiser, eu abra minha própria padaria.

Seu coração congelou por um instante, porém recupera-se. Afinal, tem que tirar seu discípulo do caminho da perdição e trazê-lo de volta. Procedeu com Damasceno de maneira semelhante que com Mariana. Trovejou suas altas verdades, suas revelações salvacionista.

– Revolução? Eu, hein, vá o senhor fazer, já que gosta e tem tempo. Eu tenho família para sustentar e mais vinte anos de financiamento da casa.

Devaneador ficou sem palavras, sinal grave, e viu Damasceno ir embora. Depois de conferir o estrato rumou para a universidade ministrar aula.  No Campus ouviu uma música peculiar, ainda estava nos instrumentos. É a música Bella Ciao, a da resistência italiana na segunda guerra.

– Sim, é a música antifascista – reconheceu.

Então lembrou que ela também é tema de uma série de um canal pago, o enredo é um grupo de assaltantes roubando a casa da moeda da Espanha, daquele governo monarquista.

– Sim, o caminho está na juventude, na juventude letrada. É isso. Como pude pensar diferente.

E parou diante dos jovens que colocaram a música para tocar, usavam todos a mesma camiseta de cores chamativas e com uma estampa esquisita. Deve ser uma convocação, é um ato. Não deixa de estar certo, porém não da maneira desejada. O ato é a convocação para um das tantas festas de cursos e quando entraram as vozes da música as palavras de resistência não deram o ar da graça.

– Essas malandra, assanhadinha que só quer vrau, só quer vrau…

E a licença poética continuou para o estarrecimento do professor. Não foi direto para a sala de aula, foi para a sua para se recuperar do baque. Em sua mesa, prestes a se entregar e a desistir lhe aparece o anjo anunciador da história. Suas decepções e fracassos não foram em vão, suas expectativas serão recompensadas em dobro, em expectativas realizadas.

– Sim, faça de mim seu servo.

No ano seguinte lançou seu mais recente livro, A forma instintiva de reivindicação do povo vol. 2 nele apresenta a tese de como por meio da sexualização das formas de expressão, desde a moda à música, a juventude expressa sua rebeldia contra o sistema vigente e seu desejo de colocá-lo por terra. Bella Ciao e sua versão funk foram apresentadas como evidência, entre outros exemplos. O professor batizou esse processo de funkização cultural, às vezes funkização da resistência e funkização da revolução.

 

Caminhante

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