Síndrome de Estocolmo (cap.18)

banksy síndrome de estocolmo

Maria entra na sala da frente, fazem silêncio ao notarem sua presença, deixa a bandeja com as xícaras de café sobre a pequena mesa e retira-se para os homens voltarem a conversar. Adriano pega a sua e toma um gole.

– Concordo com dona Maria, sua esposa. É mulher de juízo. O senhor melhor do que eu sabe que o vivente sem fonte e sem sombra morre à mingua.

– Nem todo vivente. Mandacaru resiste. Tem fonte em si para resistir, é sua própria sombra. É planta macho.

– Sim, ótima colocação. Mandacaru é ser valente, enfrenta tudo e se safa. Entretanto, mandacaru é só por si, não é esteio de ninguém. Não falo apenas de sua família, senhor Gideão, a cidade, Arraial precisa de sossego. Ademais, o povo conta com o senhor, deixar espaço para algum aventureiro é arriscado.

– É, animal estranho rondando sempre causa alvoroço.

– É o que lhe digo.

– E o menino Reis? Não vai mesmo querer escudar o nome do pai?

– Como já expliquei, não. Isso asseguro ao senhor.

– Onde já se viu filho que não legitima pai. Essa gente da capital é tudo herege. Com meus respeitos doutor Adriano.

– Tudo bem, sei que não é para mim. Mas não seja tão rígido com Carlos, afinal, o pai fez o que fez.

Depois, já no carro, após ter se despedido de seus anfitriões confidencia com seu assistente.

– Além do mais quem vai se lembrar da morte do pai vendo o patrimônio prestes a ir a pique. Afinal, remar é preciso.

 

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No mesmo dia Gideão recebe outra visita. A cena do cafezinho repete-se.

– Andei ouvido um boato, esse povo gosta de falar. Digo mais, gosta de inventar.

– E qual foi o boato que o prefeito ouviu?

– Ah, sim. De que o compadre vai se candidatar a prefeito. Vê se pode, gente mais imaginosa essa do Arraial.

– Pode até ser, mas nesse caso não é imaginação, não é futrica de lavadeira e nem conversa de caixeiro.

– Hum, o senhor devia refletir melhor. Nunca mostrou interesse nessas coisas de política, agora essa viragem. Faz mau negócio seu Dião. O que houve? Sei que a necessidade empurra o homem a fazer certas coisas, mas isso não é do seu feitio. Tenho um cargo para o amigo, que pensa de ser o secretário de segurança? É o trabalho que compadre já faz, só que com reconhecimento oficial e salário.

– O prefeito vá me desculpar, mas eu lá estou mendigando? Quando foi que fiz isso?

– Que isso, Dião? Longe de mim ofender. Só quero ajudar, estender a mão.

– Não estou no chão para precisar de mão nenhuma. Pelo visto, não quer que eu concorra.

– Não se trata disso. Apenas acho que não devia.

– Entendo… Está me dando um aviso – diz sentencioso.

O prefeito esbugalha os olhos, percebe o terreno de mina. Recua cauteloso, refletindo os passos.

– Não, seu Dião. Imagina. Só digo que acho melhor o senhor não concorrer.

– Então, está me dando um aviso – decreta.

– Pelo amor de Deus, seu Dião, não é nada disso. Juro. É aviso nenhum. Apenas uma sugestão.

Ainda na mesma semana o prefeito anuncia que não irá concorrer à reeleição. No mesmo dia em que correu a notícia, um comício foi organizado na praça central de Arraial. Todos estavam curiosos com o inusitado da situação.

– O mundo vai acabar. É sinal – uns da multidão.

– Onde já se viu isso – outros.

– Morro e não vejo tudo – mais alguns.

– Quem podia imaginar, o menino Reis e Dião no mesmo palanque – ainda mais alguns.

Dião se posiciona na frente do microfone, o povo cala imediatamente, e pede para escutarem o que Carlos Mascarenhas Reis tem a dizer. Sem nada ler, Carlos começa o seu preambulo, antes que a curiosidade da multidão fosse vencida pelo tédio chega ao cerne do discurso.

– Eu não acreditei, assim como vocês, meus queridos amigos. Do contrário, assim como vocês, eu teria tomado uma providência. Eu acredito na boa índole, no bom caráter da minha gente. Não sou como aquele jornalistazinho, o tal Cassandro de la Mancha, que andou gritando aos quatro ventos que o povo de Arraial fazia vistas grossas para o que se passava. Sei muito bem que não. O mesmo se passou comigo, nunca suspeitei de nada. Pois como está em Mateus: “Não julguem, para que vocês não sejam julgados. Pois da mesma forma que julgarem, vocês serão julgados; e a medida que usarem, também será usada para medir vocês”. Meus amigos, minhas amigas peço apenas, rogo, que não cometam a mesma injustiça que sofreram na pele.

– O canalha é bom, tem talento para o negócio. Nada como ter bons cúmplices para se livrar do julgamento – murmura Adriano para si.

 

Caminhante

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