Síndrome de Estocolmo (cap.19)

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A eleição ocorreu e Gideão Carvalho da Silva tranquilamente arrebanhou mais da metade dos votos, muito mais, e fez-se prefeito. A novidade não se resumia apenas ao prefeito, a câmara estava mudada, vários velhos conhecidos de outras atividades tornaram-se os novos rostos na casa do povo; entre eles diversos comandados do coveiro de ladino. Dos poucos antigos restantes quase todos fizeram-se situação ainda no tempo da campanha eleitoral. Houve festas, comícios, panegíricos e adulações sem fim. Recepção de Cristo chegando a Jerusalém.

Entretanto, o messias não agradou a todos. Dois ou três dos vereadores se colocaram como oposição. Um deles, mais atrevido e jornalista, não esperou o inicio do mandato para começar a contestar a nova ordem. Todo dia santo fazia uma menção a quem acunhou de Jagunço Mor, e todo dia é dia de santo.

“Caiu o Rei dos reis e assumiu o Rei dos facínoras”.

“Saem as alianças e os conchavos e entram as tocaias e reparações. Oficializamos o cangaço, o banditismo. Quem está feliz dê um tiro para cima ou em quem não está”.

“Quando ocorrer uma votação de um projeto oriundo da prefeitura seria prudente os subalternos do Jagunço Mor deixarem suas peixeiras e suas garruchas à porta. Afinal, não queremos profanar o sagrado recinto da casa do povo com machas de sangue e buracos de balas”.

“Proponho que antes da próxima legislatura pinte-se as paredes da Câmera de vermelho, assim não será preciso lavá-las a todo instante. Temos de mostrar um pouco de civilidade. Não queremos chocar as almas sensíveis, além disso, é ecologicamente sustentável, pois se economizará água. Ah, claro, deve-se pintar o chão, não podemos esquecer que líquidos escorrem para baixo. Recomendo também pintar o teto, nunca se sabe a que altura um esguicho pode chegar. Evidentemente, o móveis também não podem ficar de fora”.

Esses trechos de colunas são apenas uma pequena amostra das duras críticas feitas ao prefeito eleito que por sua vez não apreciou a existência dessas linhas. Em uma reunião política fez um comentário sugestivo que preocupou o senador eleito Carlos Mascarenhas Reis. Este foi ao primo, Adriano Mascarenhas Heinz e lhe confidenciou.

– É preciso amansar a fera, limar suas garras. Ele precisa entender que os tempos são outros. Não se pode ficar resolvendo tudo à bala.

– Calma, dê tempo ao tempo, ele nem assumiu ainda.

Ainda antes da pose, no mês de dezembro, andando junto da praça Gideão encontra o seu novo desafeto e não hesita, como é de seu feitio.

– O senhor anda me afrontando. Se tem questão comigo diga logo qual é!

– Minha questão é a sua biografia, o senhor ser quem é, não é compatível com o posto que virá ocupar.

– Pare com esse palavrório que não é coisa de homem. Diga as coisas às claras, na minha cara.

– Não acato ordens do senhor, nada tenho a lhe dizer e escrevo para quem me lê. Se meus textos o incomodam tanto não os leia.

– Olhe aqui, seu ladino, comigo desaforo e desfeita tem resposta. Não sou homem de fingir que não sei o que sei.

– Digo o mesmo. Ademais, não tenho medo do senhor, fique sabendo.

– Melhor assim. Então se paramente, pois desprevenido não mais está.

Gideão chega em casa exalando guerra, lá, como já agendado, o espera Adriano. O advogado pergunta o motivo do desassossego e Gideão fala do encontro na praça. Meticulosamente inicia a doma e fala em temperança, que as colunas jornalísticas são motivo para riso e não irá.

– O coitado está sozinho, que dano pode causar?

– Ora, doutor, ele intica e vou deixar passar? Se faço isso que respeito vou merecer?

Adriano Mascarenhas Heinz percebe que o laço não pegou e muda de assunto, aborda o futuro, não o imediato, mas o pouco mais adiante.

– Governador?

– Sim, terá o apoio de Carlos, afinal sem você não estaria eleito, está em dívida. Depois isso é seguir o curso natural. O senhor que tanto entende de natureza há de convir. Veja o rio, sua origem é no sertão, mas seu destino é o mar. Já dizia o poeta, quem sabe profeta, João: “Como aceitara ir no meu destino de mar, preferi essa estrada, para lá chegar, que dizem da ribeira e à costa vai dar, que deste mar de cinza vai a um mar de mar, preferi essa estrada de muito dobrar, estrada bem segura que não tem errar pois é a que toda a gente costuma tomar”. O senhor vai querer contrariar o destino?

 

Caminhante

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