Síndrome de Estocolmo (cap.20)

banksy síndrome de estocolmo

– Isso mesmo, tava pensando em trazer a menina para morar com a gente. Ela tá lá, enjeitada naquele abrigo – Maria.

– E ela vai entender? Melhor não. Tem esclarecimento que desatina o vivente. Melhor viver no breu.

– Oh homem, pelo menos o natal. É dia de família. Já conversei com a dona Abigail da assistência, ela disse se você mexer os pauzinhos dá para ser. É o nascimento de Jesus.

Gideão resmunga uma reprovação qualquer, no entanto consente. A influência foi exercida e a autorização saiu. Assim na manhã do dia 24 de dezembro Pérsia Daniela de Freitas entra na casa do prefeito eleito pela porta da frente, levada pelas mãos de Maria. Gideão está ansioso, levanta-se ao ver a porta abrir-se e os olhos de Pérsia brilham ao vê-lo.

– Seu Dião! – larga a mão de Maria e corre até ele e o abraça.

O matuto guerreiro, o hércules-quasímodo ficou enternecido, porém resistiu a essa demonstração de fraqueza, manteve a rude couraça intacta e impermeável; a não ser por um leve umedecer dos olhos , mas que bem pode passar por coisa da idade. Nada que prejudique a reputação. Verdade que ficou acabrunhado, notava-se, mas nada demais. Gente de guerra não sabe lidar com gente de paz.

– O senhor sabe o que aconteceu com o Doutor?

– Sei. Mas não posso dizer. É assunto de crescidos. Não se preocupe, não teve judiaria, foi ligeiro, foi cristão.

Pouco depois chegaram os filhos, o dono da casa não se agradou de por os olhos no mais novo.

– Que que ele faz aqui?

– É nosso filho e é natal.

– Isso aqui não é a capital, as coisas em Arraial ainda não desandaram e não vão desandar enquanto eu for prefeito. Quem é aquele sujeitinho?

– É amigo dele, se conheceram na capital.

– Maria, acha que sou besta. Essas rafuagens lá nas lonjuras do litoral atura-se, mas aqui, não. Diga para ele se livrar desse amigo o quanto antes. Se não me livro eu na base do rebenque.

– Não é para tanto homem.

– É sim senhora. Onde já se viu! Filho atura-se Deus quis assim, mas cada qual com as suas vexações, não vou carregar vergonha alheia.

E, na ceia natalina, o caçula estava abatido e desacompanhado. Contudo, tentado se consolar de que foi melhor assim. Afinal, o amigo está longe, mas está bem.

 

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Entre a noite do dia 31 de dezembro e o amanhecer do dia primeiro ocorreu o primeiro ato do novo governo, antes mesmo da posse oficial. Foram estampidos singulares, inconfundíveis e com os primeiros raios de sol ficou provado o que a vizinhança intuía. O jornalista vereador, principal opositor, estatelado no chão, em frente à porta de sua casa. Trazia dois balaços no peito e na mão uma arma. Teve tempo de ver quem o esperava, só não teve tempo de revidar.

Diligência foram feitas e ninguém sabia de nada.

– Mas não ouviram os tiros?

– Sim, seu delegado. Mas quem que haveria de sair? Com onça brava rondando ninguém se desentoca.

O delegado é chamado com urgência para o centro da cidade. Uma pequena casa, junto a Praça, onde funciona o jornal do vereador falecido foi carabinada. Tinha mais furos que uma peneira. Dos que estavam dentro saíram apenas o colunista social e o colunista esportivo, porém não ilesos. Lá, na peneirada residência, para sempre ficaram a secretária, a faxineira, o moleque de recados e os demais jornalistas.

Lembrou-se o delegado de um cena passada em sua delegacia e que poderia ter tido desfecho semelhante. Assim, o delegado teve suas desconfianças iniciais mais que elucidadas, suas suspeitas mais que comprovadas e tratou de engavetar a investigação.

– Já estão mortos mesmo, para que fabricar mais corpos.

Adriano Mascarenhas Heinz preocupou-se com o ocorrido. Sua criatura não estava seguindo o roteiro traçado, não se adaptou, está adaptando. Voltou o mais rápido que pôde para o Arraial e com perícia ficou aguardando a hora oportuna.

– Mal vejo a hora de desembestar daqui até a capital, de por todo esse estado em ordem. Governador, como o doutor sugeriu. Tudo vai ser um grande Arraial.

– Sim, claro. Mas, o senhor sabe o que sucedeu-se com o vereador Camilo e o seu jornal.

Gideão o mirou sem malícia, sem dissimular algum e arrematou.

– E quem não sabe?

E o advogado não teve coragem de ir adiante. Nisso, Pérsia invade o gabinete do prefeito, tendo logo atrás Maria, a menina está lépida, faceira, como nos bons tempos e está alegremente exigindo o passeio prometido por Gideão. Maria é mais feliz ainda por saber que Pérsia vai ficar de vez, apesar do marido ainda não admitir.

Gideão levanta-se para atender o compromisso, dizendo com um sorriso, algo raro em sua fisionomia, que promessa é dívida. O casal sai com a menina e Adriano recosta-se na escrivaninha e pensa no mais recente artigo de Cassandro de la Mancha.

“O prefeito eleito de Arraial é alguém que não concebe valores democráticos e toma a divergência por questão de honra. Além de fazer de si mesmo a lei, a justiça e a execução. Em suma, é um fóssil vivo. Parabéns senhores, congratulações doutores, colocaram um velociraptor entre as galinhas e esqueceram-se de um detalhe: que também são galinhas”.

– Maldito jornalista!

A imprensa local não deu pelo acontecimento, mesmo o vereador sendo uma das figuras mais conhecidas do Arraial e a sede de seu jornal cravejado de balas se localizar na praça central, tendo por vizinhas a igreja, a câmara, a prefeitura, a agência bancária e a prefeitura.

Contudo, volta e meia aparecia um forasteiro curioso para quebrar a harmonia e remexer as cinzas.

– Sei de nada não, seu moço.

Era a resposta mais frequente. Entretanto, nem tudo se reduzia a essa monotonia e um ou outro deixa escapar entre dentes.

– Também, é um mazanza. Para quê foi inticar com quem estava quieto!

E dizem que a Pax foi estabelecida em Arraial.

 

Caminhante

FIM

 

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