Síndrome de Estocolmo (completo)

banksy síndrome de estocolmo

I

Estou como medo. Logo faço doze e acho que muita coisa vai mudar. O Doutor parece não gostar mais de mim. Agora, ele só manda me buscar muito de vez em quando. Parece que tem a ver com a minha idade, estou ficando velha. Eu não quero crescer! Não quero! Uma vez ouvi uma história onde as crianças nunca cresciam. Nela uma garoto chamado Peter Pan levava as crianças para a Terra do Nunca e lá elas brincavam muito e viviam várias aventuras. A minha Terra do Nunca é a fazenda do Doutor. É enorme. Tem mato, têm bichos, passarinhos. Um montão de passarinhos e eles cantam bonito. Lá o mar é bonito, não é como aqui no mangue: sujo e com mau cheiro. Tem cheiro de sal, tem gosto de sal. O ar é bom, muito bom. O rio é doce e gelado. Bom mergulhar nele. E tem bastante fruta nas árvores, subo nelas e pego as frutas. Não quero deixar de ser criança! Não quero! Queria viver para sempre na fazenda. Rolar no pasto, ouvir as vacas mugirem e os gritos engraçados dos gansos do laguinho. Lá tem a dona Maria. Ela tem cheiro de mãe. Gosta um montão de mim e parece que tem muita pena de mim. Não sei o porquê. Pobrezinha, tadinha. Ela diz isso de mim quando acha que não estou ouvindo. O seu Dião é o marido da dona Maria. Ele não gosta de mim. sempre se sente contrariado na minha presença. Não consegue ficar no mesmo lugar que eu. Não sei o motivo. Já perguntei para dona Maria. Ela diz que não é nada disso, que é para eu esquecer isso. Para ir brincar. Sempre que eu toco no assunto ele muda o assunto. É bem esperta ela.

– Dona Maria, por que o seu Dião não gosta de mim?

– Essa bobagem de novo, menina. Esquece isso. Vou fazer um bolo. Quer de que?

Então finjo que esqueço, dona Maria se magoa quando toco no assunto e ela é tão boa comigo e o bolo dela é bem gostoso. É a fada do bolo.

Uma vez, de manhazinha, espiei eles conversando. Era na cozinha. Fui para lá por causa do cheiro bom de pão sendo feito e café gostoso. Antes de entrar na cozinha ouvi que proseavam. Então, fiquei quietinha e me aproximei da porta bem devagarinho.

– O doutor tá bancando os estudos dos nossos dois meninos, Maria. Agora você quer propor trairagem, ingratidão. Foi ele quem conseguiu aquela tal bolsa para o nosso caçula na faculdade da família dele e arranjou lugar pra ele ficar lá na capital. E quem foi que arranjou emprego e aquele curso profissional pro nosso mais velho? Quem foi, hein?

– Foi o Doutor. Eu sei disso, Dião. Mas você acha isso certo? É uma criança.

– E quem tem certeza do que nessa vida? O que eu sei é que temos que fazer o que temos que fazer e não ficar dando pitaco no que os patrões fazem. Quer inverter a ordem do mundo, arre! Trata de desapegar dessa rapariguinha para não fazer nenhuma bobagem. Depois, quem ia dar importância. Olha quem é o Doutor, olha quem é essa rapariguinha. Ela é só uma anônima. Nem a família dá por ela, se a terra engole quem vai dar pela falta?

– Não fala assim que é pecado. Eu vou sentir falta.

– Diacho, já se apegou! – e saiu irritado.

Tadinha dessa tal Rapariguinha, nem a família gosta dela. Quem será que é? Nunca vi outra menina na fazenda. Não na casa grande. Acho que fiquei com ciúme. Fiquei me perguntando quem é essa menina que o Doutor conhece e eu não. Será que ele traz ela para a fazenda quando eu não tô? Não gostei dessa história de outra menina passeando pela fazenda quando eu não estava. Não gostei não. Perguntei pro Doutor quem era essa tal de Rapariguinha. Ele ficou branco, esbugalhou os olhos. Teve um troço, pensei. Mas, aí ficou carrancudo.

– Que história é essa de Rapariguinha? Quem falou isso? Foi alguém da fazenda? Ande, fale!

Eu me assustei, ele nunca falou brabo comigo e corri para o banheiro. Ele foi atrás. Tentou abrir a porta, mas eu tranquei. Não devia ter trancado, ele vai ficar furioso, pensei. Mas não. Falou calmo comigo.

– Tudo bem, Cabritinha. Não precisa se assustar assim. Venha, volte para cama, vamos terminar de ver o filme.

Cabritinha

 

II

Será que tudo vai voltar a ser tão ruim quanto era antes? Qual a necessidade de eu crescer? Antes era tudo muito esquisito. A vó não gostava de mim. Tinha raiva. Sempre irritada comigo e não gostava de ser chamada de vó.

– Não me chama de vó, estrupício! Eu sou a irmã da sua vô! Olha o meu azar! Depois de velha ainda me sobra você para cuidar. Mas aqui não tem lugar para gente desocupada não. Olha essa miséria. Veja, veja! O que vou fazer com você. Mas já que sobrou pra mim não vou ficar no prejuízo.

A comida era pouca, bem pouca. E ruim, muito ruim. Eu reclamava de fome e a vó me batia. Dizia para não reclamar que aquilo era mais que eu merecia.

– Quer mais? Tem que ir a luta.

– Mãe, é só uma criança.

– Não me venha você também, Túlio. Outro peso morto. Não ajuda em nada aqui na casa.

– Tenho minhas necessidades.

– Ora, então, não se meta. Tá com pena, então, cuide você se acha que pode fazer melhor.

Acho que o tio Túlio achava que não podia. Sempre que tinham essas conversas ele se retirava.

Tem um montão de crianças no mangue para brincar. É a única coisa boa. A gente corri para e para cá nas palafitas e os adultos ralhavam com a gente com medo de que um de nós caísse no mangue. Isso acontecia de vez em quando. Eu cai duas vezes e fui me limpar bem rapidinho, tinha medo da cinta da vó. Mas não é fácil tirar a lama da roupa e a vó me pegou as duas vezes. Doeu muito, ela sabe machucar. É a única coisa que faz bem.

Uma vez o Juninho, durante nossas brincadeira, despencou da palafita e caiu no mangue. Nos juntamos para rir dele e ele xingava a gente. Então eu vi que tinha mais alguém caído no mangue. Era um adulto, não se mexia e tava de cara na água suja. Eu apontei o homem. Achei estranho, todos nós achamos esquisito. O Juninho se assustou e saiu correndo. Um tempão depois tinha um monte de gente esquisita usando roupas parecidas. Era a polícia e mais um monte de gente estranha. Colocaram o homem no saco e depois num carro feio.

– Disputa de território, nessa miséria?

– Pra você ver.

– Vá entender. Pelo menos um traste a menos no mundo.

É o que ouvi dos adultos. O homem tava morto. Era o Celestino morador do mangue. Depois dele teve outros. E volte e meia dava para ouvir tiros durante a noite.

No mangue não aparece muita gente diferente. Só a polícia e às vezes o pessoal da TV, junto com a polícia. Mas sempre aparecem moradores novos. Mas eles parecem iguais aos que já estavam no mangue. É como se fosse uma família só.

Foi no mangue que vi o Doutor pela primeira vez. Era época de eleição. Nesse tempo aparece gente diferente, um montão. Foi no mangue que conheci o Doutor. Tinha um monte de gente com ele. Eu só tava vendo aquele povo de fora. Então, o Doutor me viu. Eu percebi. Pensei em correr, mas não corri. Ele fez um gesto para não ser acompanhado por sua turma. Veio até mim e perguntou meu nome. Ele falava manso. Ele sorriu para mim e nenhum adulto sorria para mim.

O Doutor perguntou pela minha casa e eu levei ele até em casa. No caminho ele cumprimentou um monte de gente. Chegamos em casa e não tinha ninguém

– Eu espero. Quer ouvir uma história?

Então o doutor me contou sobre o Peter Pan e a Terra do Nunca. Disse como era a fazenda e tudo mais. Falou de um monte de coisas que eu não conhecia nem pelo nome. Falou que se eu quisesse podia ir lá.

– Eu sou um tipo de Peter Pan, sabia?

A vó apareceu e não ralhou comigo por ter um estranho na casa. As pessoas, os adultos, já conheciam o Doutor. A vó também conhecia. Ela foi bem boazinha com ele. Achei estranho. Parecia até que tava meio que com medo dele. O Doutor disse que precisa ter um particular com minha vó e eu fui mandada para fora por ele. A vó não fez reparo nisso. Minutos depois fui chamada. O Doutor não tava mais.

– Venha cá, menina – disse a vó me chamando para seu colo.

Eu não fui, fiquei com medo de apanhar. Achei que ela não me bateu antes por causa da visita. Mas ela me chamou e eu não podia desobedecer. Era pior, sempre. Fui, tremendo de medo, e ela me pôs em seu colo.

– Você sabe que vovó sempre te amou. Só era um pouco grossa para você não desencaminhar na vida. O Doutor prometeu te levar para a fazenda não é. Pois, então, amanhã você vai. Vai ser como férias. Não se preocupe o Doutor vai cuidar bem de você e não conte nada disso para ninguém. Esse povo é invejoso e mau.

Cabritinha

 

III

No dia seguinte que a vó disse que eu ia para a fazenda ela me levou até a rodoviária. Mas não peguei ônibus nenhum não. Apareceu um homem e ele me levou para a fazenda em um carro grandão bonito. O homem é o Evaristo que trabalha na fazenda.

Quando cheguei lá vi o fazendão lindo. Mas tava desconfiada, não sei o porquê. Acho que era por não conhecer ninguém. O Doutor veio sorrindo na minha direção.

– Venha, menina, vou mostrar a fazenda! – e todo feliz me pegou no colo.

Ninguém antes tinha ficado feliz com a minha chegada. Quando saía do mangue para andar pelo bairro todo mundo me olhava estranho. Todo mundo comentava alguma coisa ruim.

– Olha que sujinha.

– Logo, logo ta grávida de um marginal.

– Tadinha, dá pena.

– Isso é coisa do Bolsa Família, governo fica dando dinheiro para pobre ficar fazendo filho dá nisso.

Nos mercadinhos do bairro a gente é colocado para fora, acham que a gente vai roubar. Na verdade, a gente entrava para isso mesmo. Tinha fome, em casa não tinha o que comer. Uma vez fui pega e o moço do mercado me deu um tapa no rosto e disse se eu aparecer lá de novo ia chamar a polícia. Eu quis ser forte. Mas ele bateu no rosto e forte, nunca tinha levado no rosto. Doeu muito, no caminho de volta para o mangue chorei, sentei em um canto e chorei. Tapa na cara dói, parece que sua cabeça vai inchar até explodir. Dói e dá medo. Quando eu voltava para a casa a vó não gostava de me ver de novo.

Talvez por estar bem limpa o Doutor gostou de mim. Mas ele já gostou de mim quando me viu no mangue. A vó ficou meia hora me dando banho ante de me levar para a rodoviária.

Comigo no colo ele subiu em um cavalo bem bonito. Bem diferente dos baixinhos e cansados dos carroceiros. Esse é bem grandão, o pelo brilha e tudo. Parece até que faz academia e vai no salão. No Bucéfalo, é o nome do cavalo, passeamos por um bom pedaço da fazenda. O Doutor me mostrou a plantação, os outros cavalos bonitos. Ele tem um orquidário, é como uma casa só que de vidro e com um monte de planta bonita dentro. A gente foi no laguinho que tem uns peixes bem bonitos, ninguém pode pegar eles para comer, só os do rio. Eu dei comida para os peixes bonitos, eles são laranjas e esfomeados.

A gente comeu bem a comida era boa, bem boa. Foi aí que eu conheci a dona Maria. Eu fiquei bem cansada. Então o Doutor me levou para cima e eu dormi na rede enquanto ele me fazia carinho. Acordei no meio da tarde. Me assustei por estar na rede no colo do Doutor, sentindo sua mão…

– É só carinho, Cabritinha, não se assuste. Você é muito desconfiada, hein. Tem o quê? Oito?

– Sete.

– Parece oito, você é muito esperta. Vamos conhecer o rio.

A água tava boa, tive vontade de entrar. O Doutor disse para eu entrar.

– Mas tire a roupa para não molhar.

– É que eu não sei nadar.

– Oxe, eu sei. Não se preocupe. Eu dou conta de uma criaturinha como você. Se jogue, não tenha medo, eu te seguro.

E mergulhei. A gente brincou bastante. O Doutor é bonzinho e engraçado. De noite ele me deu banho. Enquanto me ensaboava disse que gostava muito de mim, que me amava. Eu disse que gostava muito dele também. Ele sorriu feito um bobo e disse que eu podia fazer uma coisa para ele, ser boazinha com ele. Eu concordei. O Doutor me levou para quarto. Não sabia o que era. O Doutor é pesado, pensei que fosse sufocar.

– Você me machucou – choraminguei.

– Eu sei, vai passar.

Ele pôs uma bolsa de água quente na minha barriga, um pouco para baixo. Isso foi bem bom.

– Quer ouvir uma história?

Foi aí que fiquei sabendo sobre Peter Pan e a Terra do Nunca.

Cabritinha

 

IV

Fiquei na Fazenda alguns dias. Fiquei com saudade de lá. Mas, aí, o Doutor mandou me chamar e eu voltei pro fazendão. Brincar no rio, assustar os peixes do laguinho e ouvir os passarinhos. De noite, antes de dormir, o Doutor me deu um presente, uma boneca. Foi a minha primeira, antes, só tinha visto de longe. Chamei ela de Tarantela, gostei do som do nome.

Então, por um tempão foi assim, eu ia na Fazenda e ficava lá alguns dias. Depois voltava para a casa e ficava mais uns dias e pronto. A Fazenda ficou sendo como minha segunda casa, eu podia andar por tudo, ninguém fazia reparo.

Eu acho que o Doutor mandou a vó ser boazinha comigo. Nem quando faço birra ela perde a paciência comigo. Antes era toda hora. Ela só me via e já tinha alguma coisa contra mim. Depois que conheci o Doutor ela deixou de ser braba comigo, só fala manso. Até sorri para mim, e ela nunca sorria. Agora, que já não vou tanto à Fazenda ela às vezes fala num esquisito comigo.

Em uma das voltas da Fazenda a casa já não era no mangue. Era junto, mas no bairro normal. É uma casa de material com luz e água direitinho. Tomo banho todo dia, bem demorado, é bom. Tem um quarto só para mim. A cozinha novinha, novinha e tem uma geladeira enorme, lindona e cheia. Bem cheia. Ah, tem TV nos três quartos.

No começo o povo do bairro passou a me tratar normal como se eu não fosse do mangue. Não olhavam desconfiado para mim quando entrava nos mercadinhos. Fui até no do moço que me bateu, fiquei com medo de entrar, mas não tive coragem de dizer pra vó. Entrei e não aconteceu nada, o moço não lembrou de mim. Ele sorriu e tudo.

O povo do mangue continuou a me tratar como sempre. Ia lá brincar com os meus amigos. Não podia levar eles pra nova casa não. A vó não queria.

– Nada disso, menina. Nada de trazer esses trastezinhos para casa. Onde já se viu. Também é bom você não ir mais lá. Não são boa companhia.

Não trazia meus amigos para a casa, mas sempre ia brincar com eles. E levava as bonecas e os brinquedos que o Doutor me dava e levava comida também. Mais depois de um tempo tudo mudou.

Os pais, mais as mães, pois no mangue quase ninguém tem pai, não deixavam mais meus amigos brincar comigo. Quando eu aparecia para brincar com meus amigos eles eram chamados para dentro de casa ou para fazer alguma coisa. Os adultos começaram a me olhar esquisito, como se eu tivesse algo errado, como se eu sempre estivesse fazendo algo errado. A bronca deles comigo nunca passava.

Conseguia brincar só muito de vez em quando, quando os adultos não percebiam. Mas uma hora eles percebiam e a brincadeira acabava e eu ficava sozinha. Só com a Dorinha eu conseguia brincar como antes. Não é bem como antes. A mãe dela disse que a gente podia brincar. Para isso eu tinha que trazer comida para Dorinha não ficar doente de fome. Então eu sempre levava, e um monte. Ela falava para levar dinheiro, mas eu não tinha.

A mãe de Dorinha sempre tava por perto nas nossas brincadeiras. Uma vez ouvi a conversa dela com a vizinha. Não entendi direito. Ouvi tudo direitinho, mas não entendi. A gente tava do lado de fora e elas dentro da casa, estava debaixo da janela e elas não viram. A vizinha ralhou com a mãe da Dorinha por deixar ela brincar comigo.

– Só aquela velha e o inútil do filho vão tirar proveito. Também tenho minhas necessidades. Olha, comadre, o buraco onde a gente vive.

– E se Dorinha se perde. Tem juízo não.

– Se perde nada. Estou de olho.

A mãe de Dorinha também tem bronca de mim. O povo do mangue não gosta mais de mim e não sei o motivo. Eu não fiz nada. Acho que não. Já pensei um montão nisso e não lembro de nada que fiz para irritar todo mundo. Agora só vou na Dorinha de vez em quando. Só quando a saudade é muito grande, não gosto do jeito que a mãe da Dorinha olha para mim. Ela desconfia de mim. Todo mundo desconfia.

Não se o que fiz de errado. A gente quando faz besteira os adultos dizem na hora, dão bronca, batem e põe de castigo. Mas ninguém diz nada. Não sei o que fiz de errado.

Cabritinha

 

V

Não sei o que fiz de errado. O mangue não gosta mais de mim. É estranho. Me olham como se eu tivesse feito algo errado, mas não falam, não dão bronca. Parece que têm medo também. Nunca falam, só dão bronca com os olhos. Quando falam é quando já passei.

– É, nessa idade, quem diria – o irmão de alguém.

– Uma perdidinha. Pouca vergonha – a mãe de alguém.

– Já nessa idade, não tem salvação – o pastor de alguns.

– E ainda vem para cá. Pouca vergonha – a prostituta de muitos.

Então, eu viro para conversar, para entender. Mas, aí, param de falar. Se volto para repetirem o que disseram eles saem.

Tem uma coisa errada que eu fiz. Muito feia mesmo. Não lembro de mamãe. Eu lembro do cabelo, era fofo. Ela tinha cheiro bom, a pela era bem quentinha, macia. Vivia no colo dele. Ah, ela cantava, cantava bonito. Não sei o que era. Só sei da sensação boa de ouvir. Me fazia dormir gostoso com a música. Mamãe tava sempre se mexendo cuidando das coisas. Mas do rosto dela não lembro. Não sei como ela era. Acho estranho saber o rosto de todo mundo do mangue e do bairro. Mas de mamãe, que é quem importa, não. Mas quando penso nela me sinto bem, me sinto quente e com saudade. Ah, ela sorria, sorria um montão. Os lábios eram grandes e bem bonitos. É bom lembrar do sorriso dela. Ela é um anjo. Não lembro do rosto, mas não é por falta de vontade. Entende? Pelo meu querer eu lembrava. Pelo meu querer mamãe estava aqui.

Sobre o pai eu não sei nada não. Pelos cochichos que ouvi parece que tá envolvido na morte de mamãe. Não entendi como. Acho que ele não é uma boa pessoa se mamãe não está mais aqui por causa dele.

Eu falei de tudo isso para o Doutor. Quando ouviu do povo do mangue ficou preocupado, meio irritado. Então, quando falei de mamãe, de sentir ela, mas não lembrar dela, do rosto dela e do pai o Doutor ficou triste, bem triste. Saiu rápido e foi para o banheiro. Acho que foi no banheiro para chorar. Não queria que eu visse.

Mas ninguém briga comigo por não lembrar de mamãe. Ninguém me pergunta de mamãe, acho que ninguém lembra dela. Nunca perguntam, nunca falam nada.

O Doutor tentou me animar quando me viu triste. Acho que ele fica triste quando falo de mamãe. Falou que sou bonita, disse que vou ser igual essas modelos famosas que viajam pelo mundo. Que vou ter um montão de fãs, que todo mundo vai querer tirar fotos comigo. Depois disso, sempre que vou no mangue e passo pelos caminhos das palafitas imagino que estou numa passarela. Eu sou uma daquelas modelos de asa de anjo que todo mundo vê na televisão. Elas são muito bonitas, meio magras demais, acho que não comem muito como o povo do mangue.

Eu disse da minha imaginação para o Doutor. Ele riu, fiquei com vergonha.

– Não se acanhe, não se envergonhe. Você é bem mais que essas magrelas estrangeiras. Vou providenciar umas asas, assim, você desfila para mim.

Sim, eu desfilo para ele, usando as asas, quando estou na fazenda. Ele gosta muito. Fica bem bobo, bem feliz. Ele comprou várias, tem de tudo que é cor. Ele gosta de me ver com elas. Eu gosto de usar. Ah, ele me desenha e me pinta com elas. Leva um tempão e tenho que ficar parada, isso cansa. Às vezes eu saio correndo pela casa e ele fica feito doido atrás de mim, pedindo para voltar para a posição. É divertido, corro por tudo. Só no segundo andar, pois, só estou com as asas e não quero que ninguém me veja sem nada. Por isso não desço a escada, mas ameaço por brincadeira. O Doutor fica aflito. Parece que vai ter um troço. Depois, por pena, volto para o lugar e ele termina o desenho.

Cabritinha

 

VI

O seu Dião dá medo às vezes, não é bonzinho como o Doutor, mas gosto dele, apesar daquela cara de mau, de severo. Não gosto do Evaristo, nunca me fez nada, mas não gosto dele. Achei bem feito a surra de relho que levou do seu Dião, ele e o Amaral. Eu tava no estábulo vendo os cavalos bonitos, de pelos brilhosos quando ouvi Evaristo e Amaral entrando, falavam alto. Passei para dentro da coxia de Bucéfalo. Não gosto muito de dá de cara com eles não. Eles estavam falando alto sobre uma tal de Zona.

– É, ontem a gente se fartou, compadre.

– E como. Mas alegria de pobre não dura. Não deu nem para se recuperar da ressaca. Hoje cedo já estamos aqui na fazenda, compadre.

– Alegria duradoura, imorrível mesmo é a de rico. Veja o Doutor aí.

– Hum, nem me fale, compadre.

– Além de afortunado o Doutor sabe das coisas. Nada melhor que uma menina nova para se esparramar.

– Oh, se sabe! Cabritinha é a melhor carne.

Então não sei como apareceu seu Dião dando relhada para tudo que é lado. Evaristo leva uma no rosto e vai pro chão e Amaral fica acuado, encostado na porta de uma baia, sem ter para onde ir. Ouvi um montão de estalos do relho.

– Vão ficar de vadiagem! Aqui não tem lugar para quem não gosta de trabalho! Se não gostam peguem seu rumo que não vai faltar quem queira.

– Que isso seu Dião. Que brutalidade é essa? Ninguém é vadio, a gente só tava proseando – e ajuda Evaristo a se levantar.

– Se aviem e saiam daqui! Vão fazer as coisas que eu não quero ver a cara de vocês tão cedo!

Eles vão embora quase correndo. O seu Dião não me percebeu e quando achou que estava sozinho… Ah, tem os cavalos, mas eles não contam os segredos para ninguém. Então, achando que só ele e os cavalos estavam no estábulo falou de alguém.

– O mundo todo já tá sabendo, diacho! Depois de velho ficou doido.

O seu Dião tem cara severa, mas tem bom coração. Às vezes acho que ele não gosta de mim, mas às vezes acho que gosta. Deve gostar, pois ele me salvou quando me perdi. É, eu me perdi uma vez. Lá na Fazenda, na mata. Tem muita mata. O Doutor e dona Maria sempre falam para eu não entrar nelas sozinha. Eu sempre obedeço, só aquela vez que não. Entrei de tardezinha. Então escureceu rápido e não via mais nada. Deu muito medo, muito mesmo. Chorei bastante.  De manhã, bem cedinho ouvi um barulho esquisito. Achei que era algum bicho, mas era som de mato sendo cortado. Gritei, pensei em correr para onde vinha o som, mas eu não sabia direito de onde vinha. Por isso fiquei parada. Então, não sei de onde seu Dião disse para eu não me mexer. O barulho de mato sendo cortado ficou maior, me virei e vi seu Dião. Fiquei muito feliz. Corri e abracei o seu Dião, acho que ele não esperava isso. Pois, a mão na minha cabeça. Foi bom. Só aí vi o Evaristo, tava com ele. Tava atrás. Começamos a voltar. O seu Dião na frente, eu no meio e Evaristo atrás. Eu, muito cansada e com fome, não andava direito e caía uma vez. Tropecei novamente, não levantei e comecei a chorar. Eu queria muita sair dali, mas não conseguia sair, acho que fiquei com medo de novo.

– Tudo bem, vamos descansar um pouco – Dião.

– É melhor levar a menina no colo seu Dião – Evaristo

E ele se aproximou para perto de mim, eu me assustei e corri para junto de Dião.

– Some daqui, Evaristo!

– Mas seu Dião eu só…

– Some daqui antes que eu te corte mais que esse mato com meu facão.

E Evaristo sumiu mesmo, não sabia que podia correr tanto. Eu tava muita cansada e com fome e seu Dião só tinha levado água.

– O senhor pode me levar no colo, seu Dião?

Ele pensou um pouco. Olhou para o mato.

– Tudo bem.

Eu dormi logo, só acordei na casa grande, ainda no colo de seu Dião. A gente tava subindo a escada. O Doutor e dona Maria também subiam. Agradeci por ter me achado quando me pôs na cama e beijei o rosto dele. Seu Dião gostou, ficou sem graça. Mas gostou diferente, não foi um gostar como o do Doutor.

Cabritinha

 

VII

Tio Túlio tem um emprego que não é bem emprego. Explicar não sei direito não. Ele tinha um trabalho, não sei se ainda tem, mas quase nunca ia. Mesmo assim não perdia o emprego. Bem esquisito.

– O Doutor te arranjou um emprego e você não vai. Ta querendo ser demitido, traste!

– Que ser demitido o que, mãe.

– Ora, se você não trabalha não é pago.

– O arrimo da casa não sou eu mãe. Já estamos sendo pago pelo serviço dado ao Doutor.

– Arre! Cale sua boca, traste!

– Mas, não é. Aliás, acho que o Doutor tá pagando é pouco, muito pouco. Ele tá é se aproveitando da gente.

– Ora, lave essa boca antes de falar do Doutor! Essa casa de onde veio, essa mobília e o emprego que você nunca vai, mas continua recebendo?

– É pouco, mãe. Eu fiquei vendo uns vídeos na internet e sabe quanto custa um serviço, um produto?

– Do que você tá falando, guri?

– Custa o que o cliente está disposto a pagar, o quanto é importante para ele, esse é o valor de mercado de um produto.

– Fale direito, você não é doutor para ficar com esse palavreado difícil.

– Estou dizendo que vale muito mais o que oferecemos para o Doutor. Ele se agradou muito, tanto que não para de usar faz tempo. Tem anos. Ora, tá na hora de aumentar o preço.

– Sei não.

– A gente precisa é de um carro. Isso aqui é longe de tudo. Fica difícil ir trabalhar. Se um fosse arranjado seria bom. Não acha?

– Seria. Dava para passear de vez em quando, trazer as compras do mercado.

– E também dava para aumentar o meu salário.

Que serviço será que esse, que não é o serviço onde o tio Túlio devia ir? O que sei é que pouco depois tio Túlio tava de carro, vermelho, todo vermelho. Não é grande e bonitão como os da Fazenda, é pequeno, mas bonitinho. Na época tinha cheiro bom, cheiro de coisa nova. Tio Túlio demorou um tempão para tirar os plásticos do banco.

É isso. Nos últimos tempos o Doutor me chama pouco para a Fazenda, uma pena. Fico sem ter muito o que fazer, não tenho mais amigos, as mães não deixam mais eles brincarem comigo. Uns deles já viram o rosto quando me veem, fingindo não terem me visto. A vó disse que isso é inveja por não estarmos mais no mangue. Perguntei o motivo dos do bairro também correrem de mim. Ela ficou pensativa por um tempo, coçou o queixo, então, disse:

– Inveja também. Agora, vá brincar.

– Mas, vó, eu não tenho com quem brincar.

– Arre! Não me amole! Suma daqui!

Foi a primeira vez que a vó levantou a voz para mim desde que conheci o Doutor. Tenho medo, às vezes sinto que vai tudo voltar a ser como antes. Acho que pior, antes tinha a pobreza, a falta de tudo, a brabeza da vó, mas eu tinha meus amigos. Só tio Túlio tenta me consolar, faz isso sem jeito, acho.

Tenta fazer como o Doutor, meio que fazer a vez dele. Mas não gosto não. Ele é meio bruto, tenta ser carinhoso, mas não consegue. Acho que não sabe. Com o Doutor eu to acostumada. É estranho com outra pessoa. Acho que ele tem medo do Doutor. Pede para não dizer nada. Quando ele me coloca no colo e passa a mão pelo meu corpo fico em pé logo. Não, ele não força nada. Fica só nisso. Ele diz que tudo bem, que não tem presa. Não gostei da cara que fez quando disse isso. Senti um frio, um medo que me fez sentir frio.

– Não se preocupe, Cabritinha. O Doutor está perdendo o interesse, mas você não vai ficar sozinha não. Você está virando mocinha, titio vai acudir você quando o Doutor se cansar.

Ele fez aquela cara de novo e sai correndo. Ele foi atrás, pediu desculpa e disse para não contar nada para o Doutor. Ficou com um pavor danado quando me viu chorando. Eu tava chorando não por causa da cara que tio Túlio fez, mas porque ele disse que o Doutor ia se cansar de mim.

Cabritinha

 

VIII

Abigail está sem palavras, com um travo na língua, um nó na garganta. Enquanto ouvia a menina, chamada por muitos de Cabritinha, que logo vai fazer doze, entretanto, parece que vai completar dez, vários sentimentos afloram em seu ser. Sente asco dos adultos, pena da menina e várias outras sensações.

‘Uma enormidade dessas acontecendo diante de todos e durante tanto tempo e nenhuma denúncia, nada! Como é possível? Só depois do ocorrido. A menina gosta desse monstro. Como vai ser quando souber? Como explicar? Ao menos insinuar pelo que passou sem causar o risco de traumatizá-la? Como fazê-la ter consciência de quem é realmente o governador Alexandre Mascarenhas Reis, o Doutor, como é conhecido. Será melhor mantê-la na ignorância?’

Pensa a conselheira tutelar em um átimo, não há tempo para refletir sobre as questões levantas. Mas, há o suficiente para vislumbrar o tamanho da gravidade.

– Mais alguma coisa? – Pergunta a menina enquanto sorri.

Abigail diz não e sua voz sai embargada ao pronunciar a curta palavra. Dá a volta na mesa e abraça a menina. Apesar do esforço algumas lágrimas escapam.

– Tá tudo bem?

– Sim, está, querida. Bobagem minha. Precisa de alguma coisa? Está tudo bem no abrigo?

– Sim. Está tudo bem. Mas, eu queria voltar para casa. Queria ver a vó, o Doutor? A senhora sabe como estão eles?

– Não precisa me chamar de senhora. Eu me chamo Abigail.

– Tá. Eu me chamo Pérsia. Pérsia Daniela de Freitas. E então?

– O quê?

– A senho… você não respondeu se sabe algo da vó ou do Doutor. Sabe quando eles vêm me ver?

Ao perceber os belos olhos negros de Pérsia brilharem de expectativa sente uma pontada no peito. Não tem coragem de contar. Apenas acaricia o rosto da menina e, por misericórdia, menti.

– Não sei. Mas vou procurar saber.

– Ah, também queria saber de tio Túlio.

Sente outra pontada no peito e surge em sua memória um vídeo que viralizou na internet. Todo ele feito por celulares que registram o acontecimento de diferentes ângulos.

– Tarado!

– Vendendo a própria sobrinha!

– Tem que morrer!

– Antes tem que capar!

Falam alguns da multidão.

– Pega mesmo! – um dos que filmam.

O homem corre sem nada entender. Era tudo tão corriqueiro, tão natural e, de repente, essa viração. Aquele povo tão cordato, tão manso queria por as mãos nele. Corre, corre o máximo que pode. O povo todo em seu encalço. No desespero não raciocina direito e vira onde não devia. Está encurralado em uma viela sem saída. Vira-se, levanta as mãos, a multidão hesita, porém, o xinga com coragem.

– Vocês sabiam de tudo, sabiam. Sempre souberam. O que é isso? Agora, fingem que não sabem de nada. Somos compadres e comadres, somos vizinhos. Me receberam em suas casas nos dias de festas, aceitaram os presentes que eu e mainha demos nos casamentos e no natal. O que é isso? Jogo futebol todo domingo com muitos de vocês.

A fúria justiceira começa a arrefecer.

– Zé, Tonho, Beto lembram das nossas partidas de sinuca no bar do Galego, eu pagava bebida para vocês e …

Este foi o erro de Túlio, nomear os indivíduos. Afinal, acusações sem protagonista resultam em nada. Já as com…

– Ora, seu… – e arremessa a pedra que traz na mão.

O projetil atinge a fronte de Túlio e o deixa tonto. É o sinal de ataque. Os cúmplices partem para cima, os três nomeados e os não nomeados. Os primeiros para lavarem a honra e os segundos para não haver tempo de serem incriminados. Túlio é trucidado pelos até bem pouco tempo amigos e camaradas. Umas das que participa do espancamento, em pleno vigor da liberação de adrenalina, não percebe um esguicho de sangue espirrado pelo corpo que está no chão manchar seu bonito vestido, presente de casamento de Hermínia, mãe de Túlio.

Depois de o bode expiatório ser sacrificado todos voltam para seus afazeres, limpos, puros, inocentes. Em paz com a consciência e com o mundo.

Na mente de Abigail a lembrança nem sequer dura um segundo.  Desconversa e leva a menina de volta ao abrigo. Impotente, decide olhar o abrigo, mesmo sabendo que ali ela está segura. Na volta, só consegue pensar em quem espalhou a notícia. Quase ninguém sabia o motivo do ocorrido ao governador. Do conselho somente ela, Dagmar e o seu superior.

– Aquele puxa saco jamais diria um ai do grande Alexandre Mascarenhas Reis. Será que Dagmar… não. Só se foi sem querer.

Caminhante

 

IX

Dião olha descansado para o cômodo. A parede nua, sem nada. A não ser por algumas manchas, rugas do tempo. Catre duro, seco, nada amistoso. Chão exposto, nu, frio. Sem nenhum enfeite. Não há mimo algum, nenhum penduricalho, nada de imagens ou flores. O espaço nada esconde, nada disfarça, nada alivia. É simples, econômico, direto. Se reconhece nele. Senta e rumina os últimos acontecimentos.

– O que quer dizer com isso, Dião?

– O que o Doutor ouviu. Essa atitude com a menina tá certo não.

– Do que está falando?

– Sabe muito bem, Doutor. Se ela fosse crescida, taluda tudo bem. A questão é que não é.

– Ora, Dião, não dê ouvidos a esse povo. Só contam loratas. Sabe muito bem que o povo vive de contar histórias e só trabalha nas horas vagas. Sempre entre uma fofoca e outra, entre um causo e outro. Se não está contando é porque está ouvindo. E sempre acrescentando um ponto, colocando uma emenda. Assim, o chuvisco vira dilúvio e queimada, incêndio. O que tu andou ouvindo, hein, Dião? Me conte – diz bonachão e risonho.

– Eu sei que o povo fala, e muito. Principalmente depois do assossego do Doutor. Se acostumou demais com isso, ficou descuidado. Ficou exposto no pasto, ficou na mira de todo mundo, no alcance de uma carabina.

– Não estou gostando desse tom Dião. Quem foi envenenar seu ouvido? Me conte. Que história andam dizendo.

– O povo anda dizendo o que sabe. Nesse caso, se aumenta é pouco. Depois, não é do povo que eu sei. Tem lá suas fofocas, suas invenções, suas piadas, mas se calam quando me achego, saem do caminho, tomam o rumo de casa. Sou calado, Doutor. Não lesado. Sou calejado o suficiente para entender o que se passa, sei atocaiar os acontecimentos.

– Que acontecimentos? Ta truncado hoje, hein, Dião. Quer alguma coisa? Dona Maria anda precisando de algo? Ou os meninos lá na capital? Sabe muito bem que não falto aos meus, é só pedir.

E o resquício de servilidade some.

– Doutor, eu não sou homem de insinuação. De deixar as coisas no ar, por entender. Não fico de rodeios. Não sou homem de usar vias tortas, labirinto de brenhas para chegar onde quero. Não sou homem de sugerir chantagem. Quando ameaço não ameaço manso.

Doutor percebeu a tensão no ar, deu fim ao sorriso na cara. Não podia crer que o seu lugar tenente, quem lhe garantia a posse do Arraial, fosse lhe falar atravessado. Nunca cogitou tal possibilidade. Tal hipótese nunca esteve em seu cálculo político. Pego desprevenido agiu de relance e intimou o seu general, o seu braço armado.

– Então, fale. Desembuche, homem!

– O Doutor não pode pegar essa menina para amante. Fazer dela sua amásia. Isso é errado. Eu não admito isso!

– Desde quando você tem que admitir alguma coisa! Vá cuidar dos seus afazeres. Se avie daqui! Vá! – vermelho de cólera, exige.

Logo a vermelhidão da raiva dá lugar a uma súbita palidez. É o efeito do som do objeto atirado sobre a mesa. Doutor o mira e constata ser um revolver. Já tinha percebido quando Dião o tirou da cintura, mas olhou novamente para ter certeza. Era um homem habituado a não ter medo, principalmente dentro de seus domínios. Contudo, ao vislumbrar o que estava por vir senti um morno líquido escorrer para dentro de seus sapatos. O pavor é um oceano e Doutor está mergulhado nele.

– Pega, Doutor! Não vai ser às escondidas, nada de surpresa. Olho no olho.

– Dião, eu sou seu patrão.

– Eu sei, eu sei. Mas patrão por patrão Ele é maior. Pegue a arma. Eu vou atirar de qualquer jeito. Mas te dou uma chance. Vamos ser julgado. Se a minha desfeita for a maior eu fico por aqui.

– Isso é pior que a traição de Brutus feita a César – balbucia.

– Não sei quem são esses sujeitos.

– Cabra filho de uma égua, cachorro maldito!

E se atira sobre a arma. Dião, habituado, é mais rápido, puxa a sua e o sangue escorre do peito do Doutor por meio de dois furos.

Caminhante

 

X

Respira alegre enquanto acaricia o cabelo da aliada que está sobre seu corpo. Neste momento o contentamento tem a forma de um homem.

– Agora, com esse tiro certeiro, vai começar o desmonte dessa estrutura arcaica da política estadual. Se eu não fosse ateu diria que essa menina caiu do céu.

– Não sei se o que eu fiz foi certo.

– Evidente que foi Dagmar. Graças a você essa terra deixou de ser uma capitania hereditária. Seu eu não espalhasse pelos meios evidentes o motivo do assassinato do Doutor Alexandre Mascarenhas Reis o filho dele ficaria com tudo. Esse estado continuaria sendo um latifúndio transferido de pai para filho ad infinitum. Deixamos o rei nu. A menina foi o estopim da mudança. Claro, toda transformação tem seus barulhos, no início vai parecer caótico, mas é tão somente o prenúncio de algo bom. Transições são dolorosas, no entanto, necessárias. Para  um novo tempo é preciso liquidar o antigo.

– Mas precisava de tudo isso?

– Tudo o quê?

– Ora, o quê!

Desabraça o corpo de Antônio Vilamares e revoltada senta-se na cama. Ele faz o mesmo, tenta enlaça-la e é repelido. Ia bufar, porém seus olhos caem sobre o macio dorso da insurreta, encanta-se, sua possível irritação morre antes de nascer e, em busca da paz, discursa.

– Sim, sim, o vídeo é lamentável. Mas sem ele quem iria acreditar no que todos já sabiam. É uma guerra, é impossível não haver vítimas. Depois, vítima a menina já é, portanto, soma zero. Sem a prova circulando pelos caminhos tortuosos e vielas escuras a notícia jamais andaria pelas avenidas ensolaradas.

– Não sei. Como vai ser agora?

– Não se preocupe. Será uma tormenta, estamos cruzando a tempestade, mas não vamos a pique. A borrasca não irá perdurar e após ela iremos desaguar em uma baia acolhedora, em um porto seguro – nota o desretesar das costas de Dagmar e aproxima-se – Não duvide por nenhum minuto do acerto do seu ato. Foi um ato em favor do bem comum – surge um suspiro de desanuviamento e a mão do deputado começa a passear pela nuca de Dagmar – Tire da cabeça essa ideia de que fez um grande mal, de que provocou alguma tragédia. Toda essa turbulência é apenas o febrão antes da cura. Você assentou o primeiro cravo da ferrovia para uma nova vida – toda ela exala alívio e ele a envolve – Veja o nascimento, o feto se crê protegido, confortável, não quer abandonar a situação a qual se acomodou. Mas é necessário o nascimento. O mundo em que vive não mais se sustenta, continuar nele é a morte. Chora desesperado ao perceber o fim da vida como até então conhecia, pois não concebe a existência de outra possibilidade. Então, após o berreiro, o desespero e toda a angústia vem o colo da mãe e o leite maternal. Ali é que está a verdadeira proteção, a benquerênça sem fim, a felicidade. Dagmar, somos os parteiros. Tu verá, tu verá. Não duvide.

Agradecida, vira-se e o beija, de começo suave, depois contundente, sem disfarce, com vontade. Penitência à altura da absolvição.

Caminhante

 

XI

O linchamento de Túlio de Freitas tio da menor que o governador Alexandre Mascarenhas Reis chamava de Cabritinha nada mais foi que um espetáculo de cinismo, uma encenação coletiva para limpar a própria consciência. Entre os justiçadores os mais sedentos por justiça eram os que ganharam promoções e toda sorte de vantagens para facilitar ou ao menos para não delatar o estupro sistemático. Todos sabiam dos atos do governador, a menina em questão não foi a primeira, só Deus sabe quantas foram e todos tinham ciência disso e de alguma forma eram seus cúmplices. Que uma coisa fique clara, não falo apenas dos linchadores. Em suma, trata-se de uma fraternidade ampla. Túlio foi o boi de piranha sacrificado para salvar a manada dos culpados.

– Esse Cassandro de la Mancha ainda vai levar um tiro – diz após ler o último paragrafo da coluna do jornalista e fecha o jornal.

– Senhor Heinz?

– Diga.

– Por acaso não há algum erro. O homem com quem vamos nos encontrar não é o Dião dos Reis?

– Sim.

– Bem, olhei os papéis e o nome escrito neles diz que vamos falar com um tal de Gideão Carvalho da Silva.

Solta uma risada leve.

– Garoto, é a mesma pessoa.

– Não entendo, ele tem dois nomes, duas identidades?

– De certa forma sim – e volta a rir.

O veículo atinge o local e os dois homens saem dele pelas portas traseiras. Entram na casa e vão ter com o responsável.

– Peguei esse famigerado, doutor. Na minha área famigerado não tem vez. Valentão comigo vira maricas.

– Delegado, delegado, andas cantando glórias demais. Tanto que tua ode a ti mesmo me alcançou na capital. Sejas mais prudente, delegado. O senhor não capturou Dião, ele se entregou. Maneire delegado. Estas tuas afirmações não vão te fazer bem. Mais dia menos dia Dião estará na rua e, então, como será?

A imagem da foiceira relampeja diante de seus olhos e a cor some de suas faces. Engole o medo para manter a compostura, conduz os forasteiros até o hóspede especial e nunca mais volta a cantar suas sagas.

– Agradeço o oferecimento. Mas não tenho finança para alguém do seu quilate.

– Já suspeitava disso. Farei de graça.

Sentiu o cravar inquisitivo dos olhos de Dião. Quer saber o motivo, percebeu.

– Farei pelo prestígio e pelo fato do senhor ter agido certo. Creio nisso.

Repara no mirar e remirar do caçador calejado. Nota ser medido, pesado e avaliado.

– Qual é mesmo a graça do doutor advogado?

– Adriano Mascarenhas Heinz.

– Então, é do clã do Doutor.

– Não, não sou. Sou aparentado dele como o senhor já percebeu. Na capital nada é tão evidente, tão claro. Tudo é nebuloso, cheio de nuances. Não sou do grupo do Doutor e tão pouco sou inimigo dele.

Dião concede e Adriano e seu assessor tomam um assento.

– Eu sou do certo, do justo, da ordem. Sou complemento do que deve ser. Onde as autoridades firmadas não conseguem ir eu chego, onde elas falham eu remendo. Doutor advogado, eu não sou fora da lei, sou complemento.

Adriano assente, o assessor nada entende e ambos se despedem do novo cliente. E já dentro do veículo.

– Esse homem é louco. Ora, complemento – debocha.

– Tens muito a aprender, garoto. No Arraial todos sempre votaram em um candidato e nos aliados desse candidato. No Arraial os roubos de gado e de máquinas agrícolas nunca acontecem. Sabes o motivo? Dião, Dião dos Reis, o despachante de ladino, o coveiro de ladrão. Como diz o dito popular “No Arraial, feudo dos Reis, oposição não tem vez”, seja ela qual for.

Divertido observa seu aprendiz, chocado, absorver a novidade.

– Agora, vamos para a Fazenda, aquele latifúndio que nasce no sertão e finda no oceano.

Lá, Evaristo conta que invadiu o local armado.

– Vi o Doutor no chão e Dião com o berro na mão. Aparício e Tonho vieram seguido, tudo engatilhado. Como eu numa batida de vista entenderam tudo – e vira-se para os dois. – Não é gente? – e ambos anuem com a cabeça.

– Sim, continue. Só quero a verdade. Pois, vou confrontar a versão de vocês com a do senhor Gideão para poder estruturar a defesa.

Advogado e ajudante reparam os descansados homens ficarem em posição de sentido em suas banquetas e com a alma baterem continência ao ouvirem o nome.

– A gente não largou Dião não, fique o doutor advogado a par disso – Tonho.

– Ciente de tudo, apuramos tudo para fazer como o de costume. Já estávamos manejado o corpo para dar para as piranhas, mas aí Dião ordenou respeito ao chefe morto, que não era para ninguém tocar no corpo e que o Doutor não ia virar desaparecido, ia ter velório e missa de corpo presente – Aparício.

– Fui eu que liguei para os homem. Mas veja bem, não foi trairagem, foi por ordem. Dião quis assim e eu não ia por questão no seu querer, remendar sua ordem. Agora fica aquele homem proseando glórias por aí, como se tivesse laçado Dião. Dião foi por gosto, a gente resistia. Bastava nada, era só agir no de sempre contra os contrários. Mas Dião disse que se entregava, mandou ninguém se posicionar, exigiu que ninguém atocaia-se – Evaristo.

– Eles estavam no nosso domínio, nas léguas que conhecemos desde menino ia ser mais fácil que pescar na piracema. Galinhas entrando em terra de suçuarana – Tonho.

Caminhante

 

XII

Advogado e assessor deixam a Fazenda rumo à capital, mas antes param em Arraial para ouvir os rumores.

– Procedeu bem. Isso tinha que acabar. Essa pouca vergonha tinha que ter fim. Desde moço o Doutor fazia essas coisas, deflorou muitas meninas do Arraial e região. Tudo ainda na rama, na muda – fala um enquanto encaixa sua peça de dominó às outras.

– Fez tanto aqui que se cansou. Foi buscar na capital. Como essa última – replica outro.

– Ninguém tinha peito de se bater com o homem. Quem diria que Dião é que faria isso – retorna o um.

– Eu, hein, compadre. Se não Dião, quem? – e dá serventia a uma peça sua.

Adriano Mascarenhas Reis diverte-se com o alinhamento do discurso. Não muito tempo atrás esses mesmos homens estavam nessa típica mesa de cimento com um quadriculado xadrez ao meio e como agora não havia reis, damas, bispos, cavalos, torres e peões. Estas peças estão em outras partes do Arraial, nunca ali. Como agora estes mesmo homens faziam seu beija-mão. O advogado consegue reconstruir palavra por palavra o discurso anterior.

– O Doutor mesmo não sendo mais tão novo, já tem filho homem feito, não para quieto. Sabe do que estou falando, compadre? – e sorri.

– Oxe, e quem não sabe. O compadre está falando da peça nova que arranjou na capital.

– Sim, sim.

– Mas já faz tempo que o Doutor laçou essa cabritinha. Tá como amásia. Quase todo final de semana tá na Fazenda metido com ela.

– E nela! – e a dupla cai na gargalhada.

Adriano começa a distanciar-se dos jogadores de dominó e murmura.

– É, rei morto, rei posto.

O ajudante enxerga uma aglomeração mais adiante, no outro extremo da praça, avisa seu chefe e seguem para lá. O ajuntamento se dá entre o coreto, na praça, e a venda do Seu Pitomba, do outro lado da rua. Adriano reconhece a figura do deputado Vilamares falando com populares.

– Só para saber se entendi. Espanando a chiqueza do vocabulário, o doutor deputado está dizendo que é tempo de mudança. Que agora é a hora de buscarmos outro caminho, um onde os humildes tenham vez.

– Mas é isso homem! Captou bem meu intento.

– E o doutor deputado está dizendo que o próprio é esse tal novo caminho?

– Bem, aí já é interpretação sua, meu bom homem. Não sou pretensioso. O que vos digo é que pretendo participar desse novo caminho. Afinal é insanidade sempre fazer a mesma coisa e esperar resultados diferentes.

– Vixi, político é padre que não pode ver gente que já faz uma missa. Tirando as noves horas, os floreios o doutor deputado está aqui pedindo voto. É ou não é?

– Bem, senhores, sinceramente vos digo que serei candidato ao governo do estado. Mas não estou aqui apenas para pedir seus votos. Não sou da realeza, não sou rei. Também vim de origem humilde, embora não sertaneja, mesmo assim humilde e muito. Por isso entendo-vos e meu mais profundo desejo é trabalhar com povo, construir com vocês. Chega de hierarquias! Viva a horizontalidade! Comigo o povo terá vez! – diz triunfante esperando aplausos, porém o silêncio impera.

E o seu rompimento frustra ainda mais as expectativas de Antônio Vilamares.

– Conversa! – Diz até então um que estava calado. – O Doutor disse a mesma coisa há um par de anos atrás. Eu tava trocando a pelagem, não era mais menino, mas ainda não era homem feito. Me alembro muito bem. O Doutor querendo ocupar o posto do falecido pai, o doutor Felipe que Deus o tenha, veio com um proseio parecido.

– Esse caminho é o mesmo de sempre. E trilhado pelos os mesmos de sempre – diz um terceiro.

– Vai me desculpar o doutor deputado, mas com que direito aparece aqui em Arraial? Não é dos Reis. Antes aqui tudo era dos Reis, agora, com essa rixa tem os Reis e Dião que dos Reis não mais é. Mais que eu saiba o senhor também não é do bando de Dião. Nem sequer foi visitar o homem na cadeia.

– Não, não sou meus caros senhores. E devo fazer uma correção, o novo caminho proposto por mim em nada se assemelha com o do Doutor. O caminho por mim proposto é um mundo sem Reis e sem Dião. Afinal, não podemos esquecer que esse tal Dião ajudou o Doutor a oprimi-los, a manter o Arraial sob o tacão do Doutor. Por fim, devemos observar se realmente Dião fez o que fez por causa da menina. Se fosse isso não teria feito antes? É algo a se perguntar. Só agora e antes não? É de se estranhar. A desavença pode muito bem ter sido outra. Talvez Dião tenha ficado ambicioso e pensou com seus botões, se sou eu que mantenho isso aqui para os Reis posso muito bem tomar para mim. Senhores hão de concordar que parece muito mais um caso de traição que de justiça.

– Arre, político é tudo serpente tentando Eva. Desde quando Dião é de sutileza. Quando deseja algo, faz. Quando pensa algo, diz.

– O doutor deputado vai me desculpar, mas quem tá agindo com desacato aqui é o doutor mesmo querendo roubar trabalho alheio. Se foi Dião que deu com o Rei dos reis cabe a ele ficar com o botim.

– Segundo o compadre. A caça é do caçador. O doutor tá agindo como hiena atacando presa alheia, isso lá é coisa de gente.

Vendo seu castelo começar a ruir Vilamares tenta ao menos manter os alicerces. Contudo, é interrompido.

– Chega de politicagem! Estamos fartos dessas propostas de novos caminhos, de vamos construir juntos, dessas conversas de futuro.

– Mais embarrigado que menino pego de bicha! – grita um mais afastado.

– Dião agiu no concreto! É um de nós. Dião é de fazer e não de discursar. É de mandar, não de discutir. Fala como vivente, age como vivente e não como doutor. Dião não tem anel, tem calo. Dião não tem gravata e nem paletó. Tem garrucha e rebenque. Não tem diploma, tem palavra. Não é de assembleia, é de ação.

– Política é danação, é arte da safadeza, ofício de lograr o povo. Quem agiu, quem tomou providência não foi político, foi Dião. Aí, aparecem as hienas mirando o que pertence a outro.

– Chega de comício, de assembleia, de reunião. É hora de ação. Lugar de ladainha é na igreja.

– Nem vou tomar as dores de Dião, pois acho que ele é que vai querer tratar disso. Questão de honrar ele não passa para terceiros.

– Só quero ver, o homem não tolera o roubo de uma saca, imagina o do seu feito.

E Vilamares sai dali quase fugindo. Ao longe ainda consegue ouvir.

– Com Dião tudo vai voltar pro eixo!

– Com Dião tudo vai ficar ordeiro!

– Com Dião a vida vai ser menos Severina!

Adriano observa o espetáculo, regozija-se, e decide ficar mais um pouco. Vai à casa alugada pelo partido de Vilamares, nela funciona o diretório. Lá, encontra o fujão.

– Olá.

– O que o senhor deseja? – Vilamares.

– Nada. Vim apenas por curiosidade. A oposição nunca teve espaço aqui, estranho ver um diretório dela em Arraial.

– São novos tempos.

– Pelo ocorrido na praça não me pareceu. Trabalho anônimo tem suas desvantagens.

– Do que o senhor está falando?

– Eu? Ah, nada nobre deputado. Estava apenas pensando alto.

– Eles vão mudar, só estão como umas ideias muito arraigadas. Vão entender.

– Me pareceu que querem Dião.

– Isso é fogo de palha, voo de galinha. O homem vai apodrecer na cadeia. Não sai de lá tão cedo.

– Sai. Asseguro que sai.

– De onde tirou tanta certeza?

– De mim. Sou o advogado de Dião.

Vilamares encara Adriano Mascarenhas Heinz e tenta se lembrar qual foi a sua última derrota nos tribunais, nada surge em sua memória e um leve tremor começa a tomar conta de seu corpo.

– Com a repercussão na mídia Dião não é visto como assassino, o veem como herói. Com esse trunfo consigo fazer meu cliente responder em liberdade. Para a semana Dião estará livre – percebe o impacto de suas palavras no político e vai adiante. – O deputado sabe qual o erro em semear o caos? – e antes que o deputado pudesse atinar qualquer resposta, responde. – É crer ser possível prever a colheita. Bem, vou indo. Desejo boa sorte ao senhor – e para Adriano o pavor nunca teve uma imagem tão cômica.

Caminhante

 

XIII

O Doutor tava num desespero só, mais desamparado que filhote caído do ninho. Não sei o porquê, mas também fiquei arreliado. Fui atrás, tinha que assossegar o coração do Doutor e o meu. Agrupei os cabra e dei ordem de busca, todos sabiam muito bem o que deviam procurar. Sei rastrear quem apaga pegadas, revelar quem se disfarça. Sabia que ia achar.  Isso nunca foi questão. O que me afligia é como ia encontrar. Essas matas cheias de bichos com presas, peçonha e fome e de homens traiçoeiros a rondar é lugar de ceifação de vida, de minguação de tudo que é frágil. Esse mundo não é para inocente e nem para distraído. Tem que ter instinto aguçado, saber farejar ameaça e estar pronto para tudo sem medo de se bater, de fazer sangrar. Para viver nele só sendo mais feroz que as feras e as bestas. Só vinga nele quem assusta assombração.

Dentro da mata, com Evaristo, farejei medo e desespero. Sabia de onde o vento vinha. Então, fui contra ele e comecei a destroçar as brenhas. A abrir caminho e espantar os bichos. Ouvi o grito frágil. Torci para não correr. Desbastei mais folhagens e a vi. Pequena, assustada, chorosa. Senti dor no peito com a imagem. Em seguida fiquei preocupado de ela correr de mim, por medo, por pavor. Se os bichos fazem isso ela podia muito bem fazer o mesmo. A menina assim que me notou ficou mais luminosa que sol de meio dia. Ia dar alguma instrução, mas não deu tempo. Ela disparou na minha direção e me abraçou com desespero, alívio e contentamento.

Ali tava a solução de tudo, atinei.  Tinha o facão na mão, mas não ia fazer uso dele, muita judiação. Tinha o revólver. Entre os olhos, um pouco acima e a menina se ia sem atinar nada, sem sofrer como rês de pata quebrada. Um ato certeiro e a inocência deixa de sofrer. Tudo me cabia ali, podia despachar para o céu, a tirava desse inferno. Evitava as dores futuras, o sofrimento sem alívio. Salvaria sua alma. Mas fraquejei, doutor advogado, fraquejei. Salvei só a vida. Sou vivente, fiz o que sei fazer. Não sou padre e nem pastor.

Sabe, eu e Maria a gente sempre quis uma menina. Depois de dois guris é a coisa mais normal de desejar. Essa menina… sem pai…  sem mãe… bem que poderia ser nossa. Bestagem, Maria devia de tá é seca quando ela nasceu!

Depois dos meninos, Maria pegou barriga mais duas vezes. Não vingou. Nas duas vezes era menina. Meninas que não pude salvar.

E um delicado grão de água percorre a pele agreste do acre homem. Não vai muito longe, logo finda ao ser drenada pelas secas rachaduras do caminho.

– Fico tocado, senhor Dião. Fico mesmo. O senhor poderia repetir o mesmo diante do juiz e do júri. Afinal disse que sua vontade é dizer a verdade.

– Sim. Não sou de falácia e nem de fantasia.

– Apenas seria bom omitir aquele trecho em que o senhor pensou em sacrificá-la.

– Oxe, acabei de dizer que não sou disso.

– Eu sei, senhor Dião. Mas não estou pedindo para o senhor mentir. Apenas para não falar. Ora, quando o senhor guarda um segredo por acaso está mentindo?

– Não sei se é o caso. Não vejo muita parecença não.

– Bem, rogo ao senhor que reflita um pouco. No nosso próximo encontro me dê sua resposta. Creio que já virei com o habeas corpus, assim o senhor irá responder o processo em liberdade.

Adriano deixa a delegacia acompanhado por seu pajem, vê seu motorista deixar seu assento e se posicionar para lhe abrir a porta de trás.

– Reparei no semblante do senhor enquanto Dião contava a história dele com a menina. O senhor me pareceu bem emocionado. Não achei que estava fingindo. Se estava interpreta muito bem.

– Não, não estava garoto. Assim como você também me emocionei. Mas isso não nos faz necessariamente boas pessoas. Não se deixe enganar com tanta facilidade.

A porta é escancarada, porém antes de conseguir entrar percebe uma acanhada criatura ao seu lado.

– Deseja algo, senhor delegado?

– Bem, sim. Parece que o seu, digo, senhor Dião logo será libertado.

– É o que eu pretendo conseguir.

– Bem, eu não sei o doutor, mas eu não vejo motivo para ressentimentos, não é mesmo. Doutor Adriano, os homens de Dião andam rondando minha casa, revirando o cotidiano dos meus parentes e amigos. Depois, foi ele mesmo que queria ser preso. Do contrário não teria mandado ligar para nós.

– Creio que Dião não esteja ciente disso. Afinal, se lhe quisesse algum mal já teria acontecido. A não ser que esteja esperando para ele mesmo fazer. Ouvi outro dia na praça que questão de honra ele não terceiriza.

– É disso que falo, doutor. Não tem nada de honra não. Aquilo foi bobagem, tolice minha. Não devia ter feito aquelas pilhérias. Nunca que ia ofender um prócer de Arraial.

– Prócer? – e um sorriso de eureca surgi em seus lábios.

Caminhante

 

XIV

Adriano volta para delegacia e Dião manda chamar Evaristo. O imediato não vem sozinho, são pelo menos vinte. Estão a cavalo e em carros. Contudo, é possível pressentir a existência de mais alguns, disfarçados, andando pela praça e no boteco do seu Pitomba, se querendo passar por paisano.

– O que isso, homem? Guarde já essa arma – ordena o delegado a um policial valente.

– É reação, delegado. Se vamos morrer que seja com honra.

– Largue mão de ser besta. A questão aqui é não morrer. Esse Evaristo me aparece aqui com vinte cangaceiros e você ainda quer mostrar os dentes. Guarde já isso! – e é obedecido.

A cidade é pega em um surdo susto. Os passantes não sabem para onde correr, onde se esconder, só sente o cheiro de guerra no ar. Manada prevendo predador na relva, atenta, apenas esperando um movimento brusco para sair em debandada. Todavia, ele não vem e Evaristo, acompanhado por Aparício, se afasta do grupo maior e vai em direção aos homens que saíram para recebê-los, Adriano e o delegado.

– Venham, me acompanhem. Seu Dião está aguardados os senhores – o delegado.

O grupo começa a se movimentar, porém para ante uma observação.

– Não seria melhor os senhores deixaram as armas. Não é adequado entrar na delegacia armado, uma vez que não são policiais.

– O doutor advogado que me desculpe, isso aqui lá é igreja para eu deixar arma na porta – Evaristo.

– Depois, a gente veio aqui para tudo – Aparício.

Não ocorre mais nenhuma objeção e todos adentram a delegacia. Um dos agentes abre a cela de Dião e o grupo para diante da porta escancarada.

– É verdade isso, Evaristo? Você colocou o povo em cima da família e dos amigos do delegado?

– Coloquei, para o caso de alguma precisão.

– Não tem precisão nenhuma. Tire os homens de cima da gente do delegado. Agora podem ir.

Ocorre um movimento de retirada, então, Evaristo estaca e vira-se para Dião.

– É só isso? – percebe o estranhamento pela desobediência no rosto do chefe. – Estamos aqui, seu Dião. Vim com vinte homens à vista e tem mais um tanto acobertado.

– É só um nada, seu Dião. Só o seu querer e está feito – Aparício.

– Eu não careço de ser informado do que já sei. Não estou pondo questão na capacidade de vocês, nem na lealdade. É só decisão minha.

As palavras assossegam os corações dos dois homens e saem.

– Voltem aqui!

E um leve temor percorre Adriano e um extraordinário o delegado.

– Às ordens! – ao voltarem.

– E Maria? Como ela está?

– Dona Maria está bem. Ficou chateada pelo senhor não deixar vir aqui.

– Isso aqui não é lugar para ela.

– Conseguimos o pouso para dona Maria, aquele que o senhor disse. Ela entendeu o motivo de sair da Fazenda. Não queria mais ficar lá também.

– Alguém andou importunando minha mulher?

– Não. E se alguém se atrevesse não tava mais nesse mundo.

– Bom, muito bom. Enquanto eu estiver aqui você é o responsável por ela, Evaristo.

– Sim, enquanto viver ninguém ri e nem ofende dona Maria.

Saíram do local das celas. Tudo parecia apaziguado até Aparício estacar e encarar um dos policiais, o que fez menção de reagir quando da chegada dos homens de Dião.

– Que isso gente, nada de briga – o delegado ao perceber que o seu comandado devolve o olhar atrevido e levar a mão ao coldre.

– Pare com isso Aparício! Não arrume pretexto, é ordem, você mesmo ouviu – diz Evaristo, da rua.

Descrava os olhos do rival, olha com desprezo para o delegado e desce os poucos degraus rumo à rua.

– Vão com Deus! – o delegado.

– E vocês fiquem com o Diabo! – Aparício.

O delegado suspira e desabava baixo, para si.

– Pelo visto já estou.

A matilha desmanchou o cerco à delegacia e Adriano não demorou para pegar o caminho da capital. Enfastiado, Dião deitou-se para a sesta. Porém, minutos depois o predador experiente desperta, fica em alerta ao sentir um aroma diferente no ar. Cheiro de comida boa. Em seguida, do outro lado da grade, aparece seu anfitrião.

– Bem, seu Dião, comida de prisão é uma tragédia. Então, trouxe essa cuca, foi minha mulher que fez para agradecer a gentileza. Tem café fresquinho, feito agorinha. Aceita um gole?

A oferta foi aceita e uma mesa foi posta no cárcere. Dião aprovou o café e a cuca, mas a boa comida não abrandou seu instinto. As mesuras e simpatias mostradas durante a refeição o fizeram farejar algo.

– O que deseja delegado?

– Ora, eu nada.

– Tá todo manhoso, com jeito de pedinte.

– Bem, é um assunto delicado seu Dião. Nem sei por onde começar. A gente faz cada bobagem nessa vida. Mas quem é que nunca se distrai, não é mesmo. Quem nunca comete um erro aqui outro ali? Até os santos cometeram seus pecados o que dirá nós. Nessa vida…

– Desembuche homem! Fale logo de uma vez que já está me dando nos nervos!

– Foi tentação do demônio, seu Dião! Só pode! Foi o tinhoso que me tirou o juízo – e cai de joelhos.

Então, Dião é informado pelo próprio agente da lei que cantou glórias sobre sua prisão, que se referiu a ele como criminoso e etc. Porém, estava arrependido, mais  que arrependido, afirmou. Mais que isso, jurou por tudo que é mais sagrado. Rogou para ser poupado, mas se algo tivesse de acontecer que fosse só a si. Enfim, foi um auto de fé.

– Então, o senhor levantou falso sobre minha pessoa – e o analisa. – Mas está arrependido – olha o delegado de cima a baixo. – Certo, ta desculpado. Não temos contas a acertar.

E o peso do mundo foi tirado das costas do delegado e pela primeira vez, após muitos dias, conseguiu fazer amor com a mulher e ter uma noite sossegada de sono. Exceto por um momento no meio da madruga quando foi a o banheiro

– E se esse homem morre enquanto está preso, sob meus cuidados? Aqueles cangaceiros vão nos destrinchar.

Na manhã seguinte certifica-se de que tudo esteja bem com Dião e liga para Adriano para saber quando vai conseguir a soltura de seu cliente e se pode ser de alguma serventia em tal questão.

Caminhante

 

XV

– O frouxo do delegado, agora, quer se livrar de seu preso – ironiza o assessor.

– Sim. Teme pelos seus. Quem tem responsabilidade teme pelos seus, só temerários não. Ninguém depende de suas ações por isso não entende. Também por isso é inconsequente. Talvez a idade ajude nisso. Com todo certeza. Quando tinha seus poucos anos costumava me sentir imune. Ulisses amarrado ao mastro enquanto ouve o maravilhoso canto. Porém, o rei de Ítaca já estava mais próximo de Caronte que do útero, por isso a aliança entre a curiosidade e a frieza do cálculo. Mas a juventude, mestra em zombar do que não compreende e em julgar com o rigor e a empáfia dos deuses o que não abarca, conta com a simpatia dos velhos para compensar sua alegre imprudência. Nada é tão comovedor quanto ver com olhos de plateia as reencenações das trapalhadas dos verdes anos. Por querer vê-lo envelhecer o suficiente para viver a sensação descrita lhe darei um conselho. Garoto modere suas demonstrações de desdém para aqueles homens do Arraial.

– Mas nada digo

– Contudo, demonstra. Se um deles se ofender, o que acha que irá ocorrer? Não irá entrar com uma ação judicial para buscar reparação, a reparação será na ponta de um punhal. Aquilo não é o mundo digital onde você diz o que quer e nada acontece. Lá, tudo tem consequência. O agir e o não agir. Ouça-me. Deixe-me ser as amarras de sua bela imprudência.

 

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Também na capital, não muito longe do diálogo anterior. Abigail finalmente consegue encontrar Dagmar em um shopping e não se contém. Corre até ela e investe contra ela.

– Como pôde fazer aquilo? Quem está te pagando?

– Não é nada disso….

– Então, onde você está trabalhando? Do que está vivendo?

Dagmar tenta fugir, entretanto, Abigail não sai do seu lado, a segue por toda parte do centro comercial e é taxativa: não irá embora enquanto não entender.

– Ela já tinha ficado tempo demais com o Doutor. Gostava dele. Não podíamos fazer nada por ela. Mas, pense, pense no que podemos fazer pelas demais. Essa é a causa, nada de paliativo, mas a solução.

– Que causa? Ela é a causa!

Mira-a. Não consegue deixar de fazer ligação entre as novas roupas de Dagmar e as sacolas de lojas frequentadas por gente de outra espécie com a divulgação da notícia e dos vídeos. Lança um soco e embala.

– Sua desgraçada! Você conseguiu transformar aquele monstro na melhor parte da vida de Pérsia! – a agressão só cessa quando percebe um tufo de cabelo da inimiga em sua mão.

 

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Em Arraial, corre a notícia que Gideão será solto a qualquer momento. Evaristo, um dos primeiros a saber, decide fazer um acerto antes que o noticiado aconteça, não quer entregar o mando com pendências. A caminhonete para no meio do sertão, em frente a uma modesta casa. Uma mulher vem à porta, percebe Evaristo e Aparício.

– O que deseja seu Evaristo?

– Onde tá vosso esposo?

– Saiu, foi na cidade – diz desconcertada.

Evaristo encara a mulher, em seguida encara o sol e sentencia.

– Ainda é cedo, deve de tá na lavoura – e, a pé, ruma para lá.

A mulher desespera-se, porém sabe que não pode se bater com a fera, por isso roga.

– Onde vai Evaristo. Deixa ele em paz!

Evaristo faz que não ouve, passa a casa e continua. A mulher percebe que não é e não será atendida. Então corre para o fundo do casebre e grita para o horizonte.

– Foge, Claudir! Claudir foge!

Aparício encosta sua arma na testa da mulher.

– Vai ficar quieta do jeito difícil ou do jeito fácil?

A arrasta para dentro da casa. Tranca a criança que consegue andar no quarto onde está a de colo, o dos adultos da casa, e joga a mulher sobre a infantil cama.

– Misericórdia, Aparício! Meu esposo, sou casada!

– Não, é viúva, desacompanhada.

Claudir tem a impressão de ter ouvido a voz da mulher. Deixa a enxada, dá alguns passos em direção a casa, mas para ao ver Evaristo.

– O que traz o senhor aqui?

– Não se faça de besta, sabe muito bem.

– Aquilo no bar do seu Pitomba foi coisa da cachaça, eu não penso nada daquilo. Juro por Nosso Senhor Jesus Cristo.

– A questão não é o seu pensar, é o seu dizer.

Ao ver Evaristo empunhar a arma pensa em correr. Mas de nada adiantaria, compreende. Evaristo é atirador com olho de águia, não perde tiro.

– Pelo amor de Deus, Evaristo! Eu não disse mentira, disse? Eu não devia ter dito o que disse do mais novo de seu Dião. Mas ele é xibungo, todos sabem. Não tem mentira nenhuma. Não levantei falso.

– Se a verdade ofende não deve ser dita. Se diz tem que arcar com as consequências. Como é que vou olhar na cara de Dião sabendo que ouvi o que ouvi e não fiz nada. Nessa vida, o vivente tem que cuidar do que fala e de quem fala, senão, os dias encurtam.

Enquanto reza para Aparício terminar logo sem lhe fazer mal algum ouve sons secos, estranhos à Natureza, porém próprios de uma natureza, vararem o ar duas vezes. Profecia cumprida, percebe, e lágrimas começam a rolar.

Aparício farta-se. Fica em pé e ordena que ela arrume o vestido e vá vê-lo na sala. Ele entra na sala, logo, ela lá chega. Então, Aparício tira da algibeira um pardo pacote gordo e o coloca em uma estante, entre as imagens de Nossa Senhora e Jesus Cristo.

– É para remediar os dias difíceis.

Deixa a casa sem olhar para trás e assume o assento do motorista. Mais um pouco chega Evaristo.

– Fazer viúva com cria pequena é danação. Mas o sujeito bebe, esquece dos seus e nós é que vamos lembrar? Temos nossas lealdades para respaldar.

Caminhante

 

XVI

Por fim, Gideão Carvalho da Silva foi posto em liberta. Não faz muito, Adriano Mascarenhas Heinz entrou na delegacia para acompanhar a soltura do seu cliente. Não estava lá a família, Gideão não os queria naquela casa, ia ter com eles em casa. Porém a saída não foi anônima. Muitos esperavam ansiosos. A praça estava mais trucada que em dia santo de feira grande e dia de comício. Os comandados de Gideão fizeram-se presente, quase à porta, à espera da saída do chefe.

O leão saiu, estacou por um momento para mirar aquela multidão, sentiu não haver perigo e tranquilo, majestoso e indiferente voltou a se mover rumo ao carro de Adriano. A meio caminho do veículo percebeu um gesto e ouviu.

– Viva Dião!

– Viva o protetor do Arraial!

– Dião, salvador da família!

– Dião, protetor de donzela!

Muitos outros seguiram-se. O ovacionado não se abalou, não sorriu, nem agradeceu, não é do seu feitio retribuir adulação. Institivamente exprimiu os olhos, predador focalizando a manada. Murmurou para si que raio de atocaiamento está se passando?

– Senhor Gideão que tal dizer algo ao povo? – Adriano.

– Não sou de discurso.

– Não falo de discurso, só dizer algo.

Uma mulher se aproxima e diz que rezou muito para sua soltura. Lembrou dela no ato, mulher sofrida, calejada, de esposo vadio e desrespeitador, o qual deu fim, livrando a mulher do seu maior fardo.

– Veja só, seu Gideão. Só umas palavrinhas. Vai deixar o povo assim. Que tal algo informal, uma passada no bar do seu Pitomba?

Para lá foram, os que estavam perto olham o coveiro do Doutor com assombro. Respeitam e temem mais aquela face curtida que uma juba. Dá bom dia e recebe a mesma resposta, porém com tom de reverência. Alguns dão parabéns, mais não com muito entusiasmo. Aquele homem sisudo emana autoridade, ninguém se atreve a não  se mostrar cerimonioso.

Gideão chega ao palco e pede uma branquinha. Ela é servida e um não resiste a curiosidade.

– Com licença, seu Dião?

– Fale.

– Que mal lhe pergunte, o senhor vai tomar alguma providência contra aquela moço deputado da capital? Aquele deputado almofadinha andou desfeiteando o senhor. O povo aqui foi pelo senhor.

– O abusado tem um comitê na cidade, duvido que tenha pedido licença – segundou outro.

E os demais ficam em suspenso esperando pela resposta. Acompanham atentamente cada pequeno gesto de Gideão, não lhes escapa a menor expressão. Observam o varão em pé, junto ao balcão, tomar seu trago e concluir sem mágoa, contudo, preciso.

– Questão não faço. Mas se Deus colocar o vivente no meu caminho o que hei de fazer? É destino. É sina. É para ser – mandou seu Pitomba colocar na conta e rumou para casa.

Entretanto, o acontecido no boteco teve desdobramentos. O tempo e as bocas acrescentam um substantivo aqui, um verbo para mais adianta e uma vírgula acolá. Um ato de solidariedade, todos desejam participar, por isso cada um emenda e estende o recebido antes de passar adiante. Assim, o dito já não é mais o mesmo do proferido, no entanto, é tomado por certificado.

A versão de autoria coletiva foi a que chegou aos ouvidos de Antônio Vilamares. Nela, Dião dos Reis, agora, só Dião o havia jurado e rejurado.

Se achegou com estrondo, com alvoroço no boteco do seu Pitomba e com a mão espalmada martelou o balcão exigindo audiência. Como se um berrante tivesse sido tocado a turba, obediente, aquieta. Todos olham atento, quem ia ter peito de fazer o contrário?

– Digam para o esconjurado que sei da desfeita. Isso não é certo, mas vai ser acertado. Para mim esse citadino é pagão e pagão aqui não tem vez. Digam para o desaforado que nunca perco rés desgarrada, encontro serpente antes do bote, pressinto suçuarana de longe. Sei os caminhos e os atalhos, a mata nada me esconde. O mundo é grande, mas meu faro é bom e minha mira é certeira. Minha munição tem rastreador, tem guia. Nunca se perde nem se desvia. Sempre encontra o endereço, chega onde tem de chegar. Mas que ele não se alegre que não dou a hiena traiçoeira, a gente sem consideração passagem serena. Com cão satanás é sem vez e sem consideração. Se dá fim que nem bicho peçonhento, para erva ruim não se pode dar oportunidade. Se age como excomungado como excomungado há de ser julgado. Não vai ser com misericórdia como foi com o Doutor. Nada de bala, de tiro certeiro. Será no punhal, sem consideração cristã. Esse porco vai grunhir. Esse fariseu vai ganir mais que cachorro picado por cobra. Digam ao deputado para se paramentar, pois estou de tropa batida. Vou fazer esse ladino estrebuchar.

Dessa forma Vilamares foi posto para correr não pelo despachante de ladino, mas pelo acrescentar e distorcer do povo. Cabe lembrar que embora improcedente a versão não carece de verossimilhança. Afinal, quem deu cabo do Rei dos reis podia fazer o mesmo com um monarca menor.

Quando soube das modinhas e marchinhas compostas em homenagem a Gideão, não só nunca mais voltou a por os pés no Arraial como cercou-se de grande aparato de segurança. As rimas até que tinham sua graça, Vilamares não teve o mesmo entendimento.

“Veremos se nessa peleja quem se sai melhor, se o sertão ou se o mar. Esses dois elementos não convivem não, é contra a natureza, é desaprovação da Providência, onde um tá o outro não pode estar. Ou o mar vira sertão ou o sertão vira mar”.

“Quem da contenda sai. Vilamares ou Dião que dos Reis não é mais, pois virou imperador. O mar vai inundar o sertão ou o sertão vai engolir o mar”.

“Dião é bicho nativo, com onça sem grade e sem corrente criatura estrangeira, hiena vil não tem merenda”.

Caminhante

 

XVII

Gideão sai do seu primeiro sono na residência nova. Ela não é seca e nem direta como a cela. A casa tem toques de mãe, enfeites e cuidados além da praticidade, é a presença de Maria. O marido senta à mesa e com cuidado a mulher entra no assunto.

– O povo fala muito, malda muito.

Gideão percebe o preambulo e aguça os ouvidos.

– E povo anda falando o quê?

– Dião, você sabe que nosso menor é especial, é artista lá na capital.

– Ora, é isso. Deixe de ladainha, Maria. Essas voltas sem necessidade. Sei muito bem que nosso menor é do avesso, é xibungo.

– Quem contou? – a preocupa mãe.

– E quem seria? Ninguém, alguém lá teria peito de puxar esse assunto comigo. Até você fica cheia de nove horas. Mas eu enxergo viração muito antes dela se anunciar no horizonte, não vou reparar que o nosso menor é o que não devia ser.

– Então?

– Assossega. Não vou tomar atitude, afinal, não tem o que remende isso.

O assunto é interrompido pela chegada de duas presenças ilustres, duas eminências da política local. Acomodam-se na sala.

– Nós estávamos passando aqui aí eu disse para o compadre Cícero, vamos se achegar na casa de seu Dião, fazer uma visita  de cortesia.

– Isso mesmo que o compadre Heleno acabou de dizer. Vamos lá prestar nossa solidariedade.

– Certo, certo. Sem floreio, sem prosopopeia. Qual a intenção? – interrompe Gideão.

Os políticos surpreendem-se, perdem o prumo com esse atalhe seco. Ali está mais um elemento da mudança que está ocorrendo em Arraial, a qual ainda não possuem plena ciência, porém está entre o sentir e o atinar. Até ontem gente como Gideão os tratava com deferência, sim, seca, silenciosa, mas ainda deferência. Agora, há isso, esse tom de conversa entre iguais ou pior.

– Desculpe, seu Dião? – um deles.

– Os senhores não estavam passando aqui perto. Aqui não é caminho de vocês. Vieram de premeditado. Então, qual o assunto?

Tiveram de ir direto a ele. Convidaram Gideão para disputar a prefeitura pelo partido.

– Hum, agradeço a lembrança. Mas eu não sou político. Não falo como um, não penso com um e meu proceder é bem outro.

– Por isso mesmo senhor Dião. É isso que o povo quer?

Gideão não aceitou, porém os ilustres conseguiram fazer com que pensasse mais na ideia e voltariam dali uns dias. Foram-se e Maria entrou na sala.

– Essa gente é teimosa, não aceita um não. Só a tiro – resmunga.

– Eu acho que você devia de pensar melhor, Dião – diz cerimoniosa e o marido presta atenção, pois percebe que ela tem muito mais a falar. – Como vai ser? Devia de aceitar. Pelo menos pensar melhor. Já não estamos mais na Fazenda. Não temos mais serventia para os Reis, não tem mais ninguém para dar valimento para nós. Nosso mais velho vai ser pai, a mulher dele tá de barriga, como você sabe. Dião, estamos soltos no mundo.

– É, à deriva, sem retaguarda. Galho sem raiz indo rio abaixo… Não se avexe, vou arranjar um caminho.

 

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Enquanto isso, na capital, Carlos Mascarenhas Reis, o primogênito de Alexandre Mascarenhas Reis, fala a si mesmo.

– O que farei? Não herdarei a ruína de meu pai.

Nisso ocorre um estalo na mente, surge um brilho nos olhos e a satisfação nos lábios.

– Trégua.

Ainda no mesmo dia marca uma reunião com Adriano Mascarenhas Heinz.

– Está me pedindo para que eu seja franco. Bem, não é algo ao qual estejamos acostumados. Para ver se alcanço tal intento vou me inspirar no meu cliente. Graças ao pateta do Vilamares a notícia virou A NOTÍCIA. Portanto, não existe a possibilidade de eu desistir do júri, pois ele irá absolver e deificar o meu cliente. A promotoria não se atreverá a recorrer por não desejar ter em sua biografia um gesto em favor de um notório pedófilo.

– E como ficamos? Afinal sou o dono da Fazenda, que tem as plantações, os gados, o frigorífico e o engenho. A maioria das pessoas de Arraial trabalha para mim, sou a maior fonte de receita dos cofres públicos.  E não basta tomar a Fazenda de mim, eu sou o contato com o mundo, os compradores nunca vão aceitar nada de propriedades que foram roubadas – afirmar cheio de si, exultando confiança.

– Sim, já tenho ciência disso desde quando soube dos dois tiros. Apesar de toda a sua fortuna você não põe os pés no Arraial com receio de levar um tiro. E aquele povo nunca atira à toa. Sem uma conciliação Arraial vem abaixo, contudo, os Reis também. A guerra não é boa para ninguém, também não a desejo. Um bom caminho para evitá-la é amenizar esse seu tom. Um conselho, mostre-se menos triunfante, para não ofender. Eles não hesitaram em atear fogo em tudo em nome do que chamam de honra e do que consideram certo.

– Compreendo. Em troca disso ajudo na eleição municipal.

– Gideão Carvalho da Silva não precisa de sua ajuda, Arraial já é dele, entregou-se por vontade própria, jogou-se em seus braços. Queres a Fazenda de volta e o feudo eleitoral para garantir uma cadeira no senado, no entanto, ofereces muito pouco. E sabes.

Caminhante

 

XVIII

Maria entra na sala da frente, fazem silêncio ao notarem sua presença, deixa a bandeja com as xícaras de café sobre a pequena mesa e retira-se para os homens voltarem a conversar. Adriano pega a sua e toma um gole.

– Concordo com dona Maria, sua esposa. É mulher de juízo. O senhor melhor do que eu sabe que o vivente sem fonte e sem sombra morre à mingua.

– Nem todo vivente. Mandacaru resiste. Tem fonte em si para resistir, é sua própria sombra. É planta macho.

– Sim, ótima colocação. Mandacaru é ser valente, enfrenta tudo e se safa. Entretanto, mandacaru é só por si, não é esteio de ninguém. Não falo apenas de sua família, senhor Gideão, a cidade, Arraial precisa de sossego. Ademais, o povo conta com o senhor, deixar espaço para algum aventureiro é arriscado.

– É, animal estranho rondando sempre causa alvoroço.

– É o que lhe digo.

– E o menino Reis? Não vai mesmo querer escudar o nome do pai?

– Como já expliquei, não. Isso asseguro ao senhor.

– Onde já se viu filho que não legitima pai. Essa gente da capital é tudo herege. Com meus respeitos doutor Adriano.

– Tudo bem, sei que não é para mim. Mas não seja tão rígido com Carlos, afinal, o pai fez o que fez.

Depois, já no carro, após ter se despedido de seus anfitriões confidencia com seu assistente.

– Além do mais quem vai se lembrar da morte do pai vendo o patrimônio prestes a ir a pique. Afinal, remar é preciso.

 

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No mesmo dia Gideão recebe outra visita. A cena do cafezinho repete-se.

– Andei ouvido um boato, esse povo gosta de falar. Digo mais, gosta de inventar.

– E qual foi o boato que o prefeito ouviu?

– Ah, sim. De que o compadre vai se candidatar a prefeito. Vê se pode, gente mais imaginosa essa do Arraial.

– Pode até ser, mas nesse caso não é imaginação, não é futrica de lavadeira e nem conversa de caixeiro.

– Hum, o senhor devia refletir melhor. Nunca mostrou interesse nessas coisas de política, agora essa viragem. Faz mau negócio seu Dião. O que houve? Sei que a necessidade empurra o homem a fazer certas coisas, mas isso não é do seu feitio. Tenho um cargo para o amigo, que pensa de ser o secretário de segurança? É o trabalho que compadre já faz, só que com reconhecimento oficial e salário.

– O prefeito vá me desculpar, mas eu lá estou mendigando? Quando foi que fiz isso?

– Que isso, Dião? Longe de mim ofender. Só quero ajudar, estender a mão.

– Não estou no chão para precisar de mão nenhuma. Pelo visto, não quer que eu concorra.

– Não se trata disso. Apenas acho que não devia.

– Entendo… Está me dando um aviso – diz sentencioso.

O prefeito esbugalha os olhos, percebe o terreno de mina. Recua cauteloso, refletindo os passos.

– Não, seu Dião. Imagina. Só digo que acho melhor o senhor não concorrer.

– Então, está me dando um aviso – decreta.

– Pelo amor de Deus, seu Dião, não é nada disso. Juro. É aviso nenhum. Apenas uma sugestão.

Ainda na mesma semana o prefeito anuncia que não irá concorrer à reeleição. No mesmo dia em que correu a notícia, um comício foi organizado na praça central de Arraial. Todos estavam curiosos com o inusitado da situação.

– O mundo vai acabar. É sinal – uns da multidão.

– Onde já se viu isso – outros.

– Morro e não vejo tudo – mais alguns.

– Quem podia imaginar, o menino Reis e Dião no mesmo palanque – ainda mais alguns.

Dião se posiciona na frente do microfone, o povo cala imediatamente, e pede para escutarem o que Carlos Mascarenhas Reis tem a dizer. Sem nada ler, Carlos começa o seu preambulo, antes que a curiosidade da multidão fosse vencida pelo tédio chega ao cerne do discurso.

– Eu não acreditei, assim como vocês, meus queridos amigos. Do contrário, assim como vocês, eu teria tomado uma providência. Eu acredito na boa índole, no bom caráter da minha gente. Não sou como aquele jornalistazinho, o tal Cassandro de la Mancha, que andou gritando aos quatro ventos que o povo de Arraial fazia vistas grossas para o que se passava. Sei muito bem que não. O mesmo se passou comigo, nunca suspeitei de nada. Pois como está em Mateus: “Não julguem, para que vocês não sejam julgados. Pois da mesma forma que julgarem, vocês serão julgados; e a medida que usarem, também será usada para medir vocês”. Meus amigos, minhas amigas peço apenas, rogo, que não cometam a mesma injustiça que sofreram na pele.

– O canalha é bom, tem talento para o negócio. Nada como ter bons cúmplices para se livrar do julgamento – murmura Adriano para si.

Caminhante

 

XIX

A eleição ocorreu e Gideão Carvalho da Silva tranquilamente arrebanhou mais da metade dos votos, muito mais, e fez-se prefeito. A novidade não se resumia apenas ao prefeito, a câmara estava mudada, vários velhos conhecidos de outras atividades tornaram-se os novos rostos na casa do povo; entre eles diversos comandados do coveiro de ladino. Dos poucos antigos restantes quase todos fizeram-se situação ainda no tempo da campanha eleitoral. Houve festas, comícios, panegíricos e adulações sem fim. Recepção de Cristo chegando a Jerusalém.

Entretanto, o messias não agradou a todos. Dois ou três dos vereadores se colocaram como oposição. Um deles, mais atrevido e jornalista, não esperou o inicio do mandato para começar a contestar a nova ordem. Todo dia santo fazia uma menção a quem acunhou de Jagunço Mor, e todo dia é dia de santo.

“Caiu o Rei dos reis e assumiu o Rei dos facínoras”.

“Saem as alianças e os conchavos e entram as tocaias e reparações. Oficializamos o cangaço, o banditismo. Quem está feliz dê um tiro para cima ou em quem não está”.

“Quando ocorrer uma votação de um projeto oriundo da prefeitura seria prudente os subalternos do Jagunço Mor deixarem suas peixeiras e suas garruchas à porta. Afinal, não queremos profanar o sagrado recinto da casa do povo com machas de sangue e buracos de balas”.

“Proponho que antes da próxima legislatura pinte-se as paredes da Câmera de vermelho, assim não será preciso lavá-las a todo instante. Temos de mostrar um pouco de civilidade. Não queremos chocar as almas sensíveis, além disso, é ecologicamente sustentável, pois se economizará água. Ah, claro, deve-se pintar o chão, não podemos esquecer que líquidos escorrem para baixo. Recomendo também pintar o teto, nunca se sabe a que altura um esguicho pode chegar. Evidentemente, o móveis também não podem ficar de fora”.

Esses trechos de colunas são apenas uma pequena amostra das duras críticas feitas ao prefeito eleito que por sua vez não apreciou a existência dessas linhas. Em uma reunião política fez um comentário sugestivo que preocupou o senador eleito Carlos Mascarenhas Reis. Este foi ao primo, Adriano Mascarenhas Heinz e lhe confidenciou.

– É preciso amansar a fera, limar suas garras. Ele precisa entender que os tempos são outros. Não se pode ficar resolvendo tudo à bala.

– Calma, dê tempo ao tempo, ele nem assumiu ainda.

Ainda antes da pose, no mês de dezembro, andando junto da praça Gideão encontra o seu novo desafeto e não hesita, como é de seu feitio.

– O senhor anda me afrontando. Se tem questão comigo diga logo qual é!

– Minha questão é a sua biografia, o senhor ser quem é, não é compatível com o posto que virá ocupar.

– Pare com esse palavrório que não é coisa de homem. Diga as coisas às claras, na minha cara.

– Não acato ordens do senhor, nada tenho a lhe dizer e escrevo para quem me lê. Se meus textos o incomodam tanto não os leia.

– Olhe aqui, seu ladino, comigo desaforo e desfeita tem resposta. Não sou homem de fingir que não sei o que sei.

– Digo o mesmo. Ademais, não tenho medo do senhor, fique sabendo.

– Melhor assim. Então se paramente, pois desprevenido não mais está.

Gideão chega em casa exalando guerra, lá, como já agendado, o espera Adriano. O advogado pergunta o motivo do desassossego e Gideão fala do encontro na praça. Meticulosamente inicia a doma e fala em temperança, que as colunas jornalísticas são motivo para riso e não irá.

– O coitado está sozinho, que dano pode causar?

– Ora, doutor, ele intica e vou deixar passar? Se faço isso que respeito vou merecer?

Adriano Mascarenhas Heinz percebe que o laço não pegou e muda de assunto, aborda o futuro, não o imediato, mas o pouco mais adiante.

– Governador?

– Sim, terá o apoio de Carlos, afinal sem você não estaria eleito, está em dívida. Depois isso é seguir o curso natural. O senhor que tanto entende de natureza há de convir. Veja o rio, sua origem é no sertão, mas seu destino é o mar. Já dizia o poeta, quem sabe profeta, João: “Como aceitara ir no meu destino de mar, preferi essa estrada, para lá chegar, que dizem da ribeira e à costa vai dar, que deste mar de cinza vai a um mar de mar, preferi essa estrada de muito dobrar, estrada bem segura que não tem errar pois é a que toda a gente costuma tomar”. O senhor vai querer contrariar o destino?

Caminhante

 

XX

– Isso mesmo, tava pensando em trazer a menina para morar com a gente. Ela tá lá, enjeitada naquele abrigo – Maria.

– E ela vai entender? Melhor não. Tem esclarecimento que desatina o vivente. Melhor viver no breu.

– Oh homem, pelo menos o natal. É dia de família. Já conversei com a dona Abigail da assistência, ela disse se você mexer os pauzinhos dá para ser. É o nascimento de Jesus.

Gideão resmunga uma reprovação qualquer, no entanto consente. A influência foi exercida e a autorização saiu. Assim na manhã do dia 24 de dezembro Pérsia Daniela de Freitas entra na casa do prefeito eleito pela porta da frente, levada pelas mãos de Maria. Gideão está ansioso, levanta-se ao ver a porta abrir-se e os olhos de Pérsia brilham ao vê-lo.

– Seu Dião! – larga a mão de Maria e corre até ele e o abraça.

O matuto guerreiro, o hércules-quasímodo ficou enternecido, porém resistiu a essa demonstração de fraqueza, manteve a rude couraça intacta e impermeável; a não ser por um leve umedecer dos olhos , mas que bem pode passar por coisa da idade. Nada que prejudique a reputação. Verdade que ficou acabrunhado, notava-se, mas nada demais. Gente de guerra não sabe lidar com gente de paz.

– O senhor sabe o que aconteceu com o Doutor?

– Sei. Mas não posso dizer. É assunto de crescidos. Não se preocupe, não teve judiaria, foi ligeiro, foi cristão.

Pouco depois chegaram os filhos, o dono da casa não se agradou de por os olhos no mais novo.

– Que que ele faz aqui?

– É nosso filho e é natal.

– Isso aqui não é a capital, as coisas em Arraial ainda não desandaram e não vão desandar enquanto eu for prefeito. Quem é aquele sujeitinho?

– É amigo dele, se conheceram na capital.

– Maria, acha que sou besta. Essas rafuagens lá nas lonjuras do litoral atura-se, mas aqui, não. Diga para ele se livrar desse amigo o quanto antes. Se não me livro eu na base do rebenque.

– Não é para tanto homem.

– É sim senhora. Onde já se viu! Filho atura-se Deus quis assim, mas cada qual com as suas vexações, não vou carregar vergonha alheia.

E, na ceia natalina, o caçula estava abatido e desacompanhado. Contudo, tentado se consolar de que foi melhor assim. Afinal, o amigo está longe, mas está bem.

 

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Entre a noite do dia 31 de dezembro e o amanhecer do dia primeiro ocorreu o primeiro ato do novo governo, antes mesmo da posse oficial. Foram estampidos singulares, inconfundíveis e com os primeiros raios de sol ficou provado o que a vizinhança intuía. O jornalista vereador, principal opositor, estatelado no chão, em frente à porta de sua casa. Trazia dois balaços no peito e na mão uma arma. Teve tempo de ver quem o esperava, só não teve tempo de revidar.

Diligência foram feitas e ninguém sabia de nada.

– Mas não ouviram os tiros?

– Sim, seu delegado. Mas quem que haveria de sair? Com onça brava rondando ninguém se desentoca.

O delegado é chamado com urgência para o centro da cidade. Uma pequena casa, junto a Praça, onde funciona o jornal do vereador falecido foi carabinada. Tinha mais furos que uma peneira. Dos que estavam dentro saíram apenas o colunista social e o colunista esportivo, porém não ilesos. Lá, na peneirada residência, para sempre ficaram a secretária, a faxineira, o moleque de recados e os demais jornalistas.

Lembrou-se o delegado de um cena passada em sua delegacia e que poderia ter tido desfecho semelhante. Assim, o delegado teve suas desconfianças iniciais mais que elucidadas, suas suspeitas mais que comprovadas e tratou de engavetar a investigação.

– Já estão mortos mesmo, para que fabricar mais corpos.

Adriano Mascarenhas Heinz preocupou-se com o ocorrido. Sua criatura não estava seguindo o roteiro traçado, não se adaptou, está adaptando. Voltou o mais rápido que pôde para o Arraial e com perícia ficou aguardando a hora oportuna.

– Mal vejo a hora de desembestar daqui até a capital, de por todo esse estado em ordem. Governador, como o doutor sugeriu. Tudo vai ser um grande Arraial.

– Sim, claro. Mas, o senhor sabe o que sucedeu-se com o vereador Camilo e o seu jornal.

Gideão o mirou sem malícia, sem dissimular algum e arrematou.

– E quem não sabe?

E o advogado não teve coragem de ir adiante. Nisso, Pérsia invade o gabinete do prefeito, tendo logo atrás Maria, a menina está lépida, faceira, como nos bons tempos e está alegremente exigindo o passeio prometido por Gideão. Maria é mais feliz ainda por saber que Pérsia vai ficar de vez, apesar do marido ainda não admitir.

Gideão levanta-se para atender o compromisso, dizendo com um sorriso, algo raro em sua fisionomia, que promessa é dívida. O casal sai com a menina e Adriano recosta-se na escrivaninha e pensa no mais recente artigo de Cassandro de la Mancha.

“O prefeito eleito de Arraial é alguém que não concebe valores democráticos e toma a divergência por questão de honra. Além de fazer de si mesmo a lei, a justiça e a execução. Em suma, é um fóssil vivo. Parabéns senhores, congratulações doutores, colocaram um velociraptor entre as galinhas e esqueceram-se de um detalhe: que também são galinhas”.

– Maldito jornalista!

A imprensa local não deu pelo acontecimento, mesmo o vereador sendo uma das figuras mais conhecidas do Arraial e a sede de seu jornal cravejado de balas se localizar na praça central, tendo por vizinhas a igreja, a câmara, a prefeitura, a agência bancária e a prefeitura.

Contudo, volta e meia aparecia um forasteiro curioso para quebrar a harmonia e remexer as cinzas.

– Sei de nada não, seu moço.

Era a resposta mais frequente. Entretanto, nem tudo se reduzia a essa monotonia e um ou outro deixa escapar entre dentes.

– Também, é um mazanza. Para quê foi inticar com quem estava quieto!

E dizem que a Pax foi estabelecida em Arraial.

Caminhante

FIM

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