Empoderada (cap.1)

Emponderada

– Eu, hein, dona Antônia vive no mundo da lua. Só pode. Imagina se não vou pegar o vagão rosa. Fico o dia todo faxinando, tirando o pó dos livros dela e do doutor Gustavo e preparando comida. Depois quase duas horas para voltar para casa, um trecho de metrô e o resto de ônibus. Chegando em casa tenho que dar comida para as crianças e ainda ficar espreitando para ver se o Clair não está pelas redondezas, traste de homem. Também tenho que manter minha casa um brinco, afinal doméstica que se preze tem que ter tudo limpo e organizado. Também tenho que dar exemplo pros pequenos, para não se desencaminharem. Mania chata que patrão tem em tratar a gente como se fosse criança. Às vezes dá vontade de dizer, “Claro, dona Antônia, faço tudo isso que a senhora diz para fazer, é só eu ter uma pessoa para cuidar da minha casa e dos meus filhos como a senhora tem. Ah, e tempo para ler e ir nos lugares que a senhora vai. Sem contar no dinheiro”. Mas, aí, você vira a grossa, a ingrata que não sabe ouvir um conselho. Como esse ônibus sacoleja, parece até que foi feito para levar batatas e não gente. Diz que temos que resistir, que também pega metrô e não entra no vagão rosa, pois temos que lutar por igualdade e não por um espaçozinho. Hum, acha que engana quem. Dona Antônia não faz isso por necessidade, brinca de pegar metrô, meio como quem vai à praia, para ela é lazer, para ela não é rotina.  Se eu tiver a chance de ter sossego vou aproveitar.

– Depois, esse seu lutar é sua profissão dona Antônia, não a minha. A minha é deixar tudo arrumadinho para a senhora ir lutar como o escudeiro da idade média que ouvi o doutor Gustavo dizendo ao Gabrielzinho o que é. Pelo que eu entendi, o escudeiro é quem carrega todos os trecos e todos os cacarecos do cavaleiro, até do cavalo cuida, assim o cavaleiro pode pensar só na guerra, só na resistência. Agora, a senhora quer que eu também lute como se fosse a senhora. Francamente, né! Eu sou o burro de carga para o cavaleiro, para a senhora ir lá fazer e acontecer.

– Vixe, parou o ônibus – um passageiro.

– É tiro gente, se abaixem! – o motorista.

– Valha-me Deus! – Lia.

– Para fora! Todo mundo para trás do ônibus! – o motorista.

Meia hora depois…

– É, gente, acho que apaziguou. Vamos voltar – o motorista.

– Vou ligar avisando do atraso. Oi, dona Antônia. Hoje vou atrasar teve tiroteio no meio do caminho, mas já acabou. O quê? Se estou traumatizada? Não. Se fosse me traumatizar cada vez que escuto tiro já tinha ficado doida. Isso a gente guarda para quando acontecer o pior. E Deus queira que nunca acontece.

– Pronto, aviso dado. Estamos no mesmo barco é o que dona Antônia sempre diz. Sei.  Estamos no mesmo barco? Que mesmo barco? A senhora está num transatlântico e eu estou no máximo na barca Rio-Niterói. Desde quando dá para comparar o doutor Gustavo com o traste do Clair. O doutor está aí, põe dinheiro em casa, viu o Gabrielzinho crescer e tudo. E opressão onde? É um molengão, com todo respeito, mas o doutor Gustavo é um sem voz, nunca vi apitar nada na casa, seja na criação do Gabrielzinho ou para os lugares onde vão viajar. Dona Antônia decide tudo.

 

Lia

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