Empoderada (cap.2)

Emponderada

– Uma vez, irritada, me mostrou uma foto, acho que era de São Paulo. Era de um prédio residencial todo chique, tinha até piscina na sacada, um luxo. Bem do lado, dividindo o muro tinha um favela. Me chamou para ver a imagem, parei de tirar o pó e fui ver o que era. Então me mostrou a imagem, disse que usou em uma palestra que foi dar em uma faculdade sei lá onde. Ficou surpresa por eu não ficar surpresa. Vai entender. Os ricos do Rio adoram falar mal dos ricos de São Paulo, hum, como se não fizessem a mesma coisa. Só muda o sotaque, sei bem, já faxinei por lá também. Uma vez ouvi que era inveja. Eu não sei se os ricos daqui são tão ricos quanto os de lá, o que sei é que os pobres daqui são tão pobres quanto os de lá.

– Daí, eu falei, falei mesmo. Eu, hein, dona Antônia, qual a novidade? É só a senhora olhar pela janela desse apartamentão que vai ver a favela, tá logo ali, nunca percebeu não. De um lado tá o mar e do outro estão os barracos. É quase igual a essa foto aí, só falta é a piscina na sacada, mas o resto é cuspido e escarrado. Igualzinho, igualzinho.

– Acredita que ficou surpresa? Acha que me deu razão? Deu nada, desconversou. Um apartamentão daquele. Em cada cômodo cabe um barraco. Aliás, quantas barcas cabem em um transatlântico?

– Até que fim cheguei.

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– Olha só que quadro mais horroroso. Tem um monte de coisa esquisita dessas pela casa. E eles adoram esse troço, chamam de arte contemporânea e que ninguém entende nada, nem eles. E daí que tem conceito e sei lá o que, continua sendo horroroso, uma droga, não queria nem de graça.

– Semana passada dona Antônia tava com umas amigas gringas pela casa… Me senti uma macaca de circo, não disse nada para não magoar. Mas não gostei não. Elas não quiseram ofender, eu sei. Mas não gostei. Ficaram falando do povo e todas olhavam para mim, era como se o povo fosse eu. Ficaram lá tirando suas conclusões esquisitas sem me perguntarem. Se tão falado de mim tinham que me chamar para a conversa ou pelo menos não falar de mim na minha frente. Falta de educação. Todo mundo sabe que fofoca é pelas costas.

– Mas, aí, teve uma das gringas. Essa não era gringa, só não era do estado. Uma toda plastificada. Aquela mulher tá começando a me dar medo. Repuxada demais. Já disse isso para dona Antônia, tem que dar um conselho para essa doida aí. Tá querendo ficar jovenzinha, mas só tá parecendo um saco esticado. A mulher tá ficando sem expressão dona Antônia, qualquer dia a cara dela racha e cai no chão. Disse mesmo, ué. Então, a repuxada falou do funk, de como é lindo, que é o momento de congregação da comunidade. Ah, ricos adoram chamar favela de comunidade, eles acham que ofende, porém o que ofende eles acham que não. Então, falou de como os bailes funks uniam as pessoas da comunidade. Daí virou para mim perguntando se não era bem assim, pois para ela era, disse que foi em muitos. Meus Deus, esse monte de cirurgia afetou a mente da criatura. Repuxou o juízo todinho. Essa senhora num baile funk! Já passou da idade e faz tempo. Claro que eu não disse isso, né. Mas, falei do baile na favela onde moro. Disse que a favela não é casa noturna, nem praia e nem parque de diversões para quem tem que levantar cedo e ir trabalhar.  O baile funk, quando tem, vai até às cinco horas da madrugada, e é as cinco que eu acordo para trabalhar, junto com todo mundo que trabalha fora da favela. É uma briga até para conseguir dormir dentro da própria casa. Dá vontade de ligar para a polícia para dar fim naquele furdunço.  Mas eu ligo? Não, claro que não. Já imaginou se os traficantes, que são os donos da festa, descobrem que fui eu que liguei. Mas a polícia vem com frequência, às vezes trocam tiros, às vezes não. Mas quase sempre tudo termina antes das cinco quando a polícia vem, assim tenho um tempinho para o meu sono. É isso que é o baile funk para mim. Ficaram em silêncio, meio que surpresas. A repuxada eu não sei, pois não importa o que acontece está sempre com a mesma cara.

Lia

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