Empoderada (cap.3)

Emponderada

– Traficante do bem. Vê se pode. Dona Antônia não disse bem assim, mas o sentido daquele palavrório esquisito era esse. Perguntou se não era melhor ter um de nós no poder. Que bestagem, hein, dona Antônia. Preto por preto os policiais também são. Disse, disse mesmo. E ainda fala como se a gente pudesse escolher, como se tivesse uma eleição para isso. Esse mundão de livros pela casa e não sabe o que se passa logo ali.

– Todo mundo dá palpite. Todo mundo dá conselho. Todo mundo quer cuidar da gente. A gente sabe se cuidar muito bem. O que atrapalha é esse povo que quer ajudar. Traficante quer ajudar, miliciano quer ajudar. Aonde eles chegam o gás fica mais caro, a lotação fica mais cara, a net fica mais cara. Como se pobre tivesse dinheiro sobrando. Vão perguntar pro Dilson do mercadinho que se apertou e não conseguiu pagar toda a mensalidade, foi surrado na frente de todo mundo. Se fosse para escolher a gente escolhia é ninguém. Cada um que aparece para ajudar é mais um peso para a gente carregar. Essa caridade custa caro, tem necessidade não.

– Daí ela falou para nós nos reunirmos, fazermos assembleia e não sei mais o que. É claro que não dona Antônia, quem é doido de criticar quem tem um fuzil na mão. A senhora pode fazer isso porque sabe que não vai dar nada. Na favela pode acontecer de um tudo. Somos vira-latas de rua, por experiência sempre desconfiados. Sempre prontos a nos esconder e sair correndo para não ser maltratado, para não ser judiado. Não somos esses luluzinhos criados a pão de ló em um bom condomínio da zona sul ou da Tijuca que late para todo mundo com raiva e as pessoas acham graça e até recuam quando o cãozinho fica muito feroz, dão razão ao cãozinho, tiram foto, filmam e colocam tudo no instagram. Cachorro de rua se ladrar leva paulada, pedrada e ninguém fica nem sabendo.

– Às vezes parece que eu moro em outro planeta, que eu e dona Antônia não vivemos no mesmo mundo. Quando entro nesse condomínio é outro mundo. Até pelas coisas que falam aqui. Dona Antônia com essa ideia de confraternizar ou se unir com bandido. Eu nunca entendi do que ela dá aula. Uma vez apareceu por aqui uma aluna dela, avoada, avoada. Linda, mas mais avoada que as nuvens. Falou em distribuição social, em uma tal de lógica capitalista. Por isso é justo o roubo, pois roubam dos ricos para adquirirem o que não tem.

– Eu, hein, menina, vocês da faculdade esqueceram de avisar isso para os ladrões. Mês passado fizeram um arrastão no ponto de ônibus, limparam todo mundo. Não tinha rico ali não. Eu só não perdi o meu celular porque sempre levo o celular do ladrão. Isso mesmo, celular do ladrão, a gente leva sempre um celular antigo ou que não funciona para quando o ladrão vier ter o que dar. Perdi o cartão do passe, deu um trabalho danado fazer outro. Ah, no começo do ano o Jeferson, filho da Dina, que faxina aqui no 802, a gente mora tudo na mesma favela… o que eu ia dizer mesmo? Ah, sim. Disse assim para a avoadinha, acredita que roubaram a moto dele, o menino é moto boy, usa para trabalhar e ainda tá pagando a moto. Os ladrões tinham que ir nessa faculdade, aí, hein, menina. Debochei, ah, debochei mesmo.

Lia

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