Empoderada (cap.4)

Emponderada

– Outra coisa de outro mundo é esse gosto do seu Gustavo por coisas antigas da Europa.  Pelo que entendi trabalha com isso. Um dia seu Gustavo me perguntou o que eu achava. Eu disse que achava muito trabalho, imagina o trabalhão que deve dá para ariar essas armaduras todas, coitado do escudeiro. Imagina quando a criatura, o tal cavaleiro, vai para guerra, quando volta o escudeiro tem que desamassar tudinho. Seu Gustavo riu do que eu disse. Mas é verdade.

– Vixi, mensagem. É daquele francês doido, amigo da dona Antônia e do seu Gustavo. Disse para mim que achava lindo a esperança que percebia nas lajes dos barracos, via como uma crença em um futuro melhor. Não deixa de ser. Falou que gostava da nossa simplicidade, pobreza, agora, é simplicidade. Dona Antônia ficou toda preocupada. Disse que ia conversar com ele, para ele parar com essas coisas, pois, depois ele voltava para França e eu ficava aqui iludida. Mas por isso mesmo, dona Antônia, falei. Ele logo, logo vai se embora e não vai dar incômodo. Foi engraçado, parecia que eu era uma menininha. O problema é que esse francês foi embora, mas fica mandando mensagem. Fica dizendo que vai voltar e que quer me levar para conhecer a Europa. Cada um tá muito bem onde está, isso não precisa mudar não, respondo. E adianta? Adianta nada. Parece que não entende, sujeito doido.

– Opa, já deu minha hora. Ir para casa e se eu encontrar o Clair rondando a minha casa de novo não respondo por mim. Coloco na Maria da Penha. Para pagar pensão nada, para comprar alguma coisa para os filhos nada, para ser exemplo pros filhos nada. Mas para ficar querendo me controlar o traste tem tempo.

– Sim, vagão rosa, sim dona Antônia. Lutar eu já luto vinte e quatro horas por dia. Já não sou mais nova, mesmo assim sempre tem um abusado, esse instantinho de sossego não abro mão. Outra ideia esquisita que dona Antônia tem é sobre empregados, falava sobre uma amiga que faz tudo sozinha, que era exemplo. Eu conheço a amiga por isso retruquei. Ora, mas ela tem empregas, mais de uma, como assim faz tudo sozinha? E desde quando quem tem empregado não vai usar. Eu, hein. Então dona Antônia me perguntou se eu tivesse empregada eu usaria. Vixi, é claro, respondi. Para que alguém tem empregada? Daí ela disse que quando a educação não é libertadora o desejo do oprimido é se tornar opressor, disse que é de um tal de Frei ou Farias, algo assim.  Pelo o que eu entendi, eu sou a oprimida? Dona Antônia disse que sim. A senhora se acha opressora. Não sabia. Como assim? Ué, a senhora tem emprega. Que por acaso sou euzinha aqui. Não é bem assim, disse dona Antônia, e deu um monte de voltas. Aí eu cutuquei, belisquei mesmo. Ah, entendi. É opressão quando os pobres querem vida boa e conforto. Quando pobre quer ter a vida do patrão e não quando o patrão tem a vida que tem. Ela disse que eu não entendi. Vixi, nem eu e nem a senhora pelo jeito. Diz uma coisa e faz outra.

– Dona Antônia é engraçada. Diz para todo mundo que eu não sou sua empregada, diz que eu sou sua secretária, pois assim eu me sinto melhor, como é que ela diz? Que assim fica uma relação mais horizontal e que eu não me sinto submissa. Dona Antônia vive no mundo da lua, nunca me perguntou nada. De onde ela tira essas ideias? Nem a sapeca da minha Marta inventa tanta coisa.

Lia

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