Empoderada (cap.5)

Emponderada

– Vixi, meu ex-patrão foi eleito de novo. Nada de novo. Isso é mais certo que a morte. Só se fala dessas eleições agora na TV, na nova política. Nova? Mas seu Euclides foi eleito de novo e pelo que eu entendi vai ocupar alguma coisa no governo. Quando trabalhei para ele, pra mais de quinze anos, ele já era político velho. Filho de político, acho que neto de político também. Como é que chamavam a família do seu Euclides? Ah, sim, dinastia, isso, dinastia dos Euclides. Seu Euclides é Euclides neto, o seu pai é o Euclides Filho e o avó é só Euclides. Dias desses o meu Jorge me mostrou no celular dele um desenho engraçado, ri muito. Era seu Euclides vestido de travesti, num vestidão todo grandão com mais rendas e firulas que as fantasias das alas das baianas das escolas de samba, tinha uma perucona gigante, tava com batom, pó de arroz e ruge. Imagina, seu Euclides de batom e ruge! E seu Euclides dizia “se não tem pão, comam brioches”. Dizia isso para um amontoado de gente de cara série e irritada que parecia estar protestando ou em greve.

– Muito engraçado. Só não entendi o motivo de seu Euclides tá fantasiado de travesti. Não é época de carnaval e mesmo que fosse nunca pensei que seu Euclides se vestiria assim.

– Aí, então, o Jorge deixou de rir do desenho para ir de mim. Não, mãe. O seu Euclides está vestido de Maria Antonieta, rainha da França. Oxe, a rainha da França é travesti. Não sabia. Não, mãe. A França não tem mais rainha, cortaram a cabeça dela. Vixi, essa França até parece ser aqui. Fizeram isso por ela ser travesti? Não, mãe. A senhora não está entendendo, disse. A rainha da França não era travesti, o povo era muito explorado pelos nobres, aí veio a Revolução Francesa e povo matou muitos nobres, inclusive o rei e a rainha.

– E o que isso tem com seu Euclides? Perguntei. A pobreza, mãe, disse o meu Jorge. Tá tudo mundo quebrado, muita gente sem receber o seu salário por culpa de políticos como esse ladrão do Euclides. Por isso a analogia, ele é a nossa Maria Antonieta. Então, eu ri, ri muito. Quanta volta para dizer que seu Euclides tinha roubando tanto do povo que deixou todo mundo na miséria. Mas o que tem o pão e o brioche? Brioche é até mais caro, perguntei. Jorge tentou explicar, mas essa parte não consegui acompanhar.

– Que seu Euclides fazia das suas eu já sabia, foi por isso que deixei de trabalhar para ele. Tava lá eu faxinando a mansão dele, junto com a Maria, a Neuza e a Kátia, mansão mesmo, castelo de rei. Quatro faxineiras todo dia para deixar aquele mundão em ordem. Tava a gente fazendo nosso serviço aí chega a polícia fazendo o maior alvoroço. Vixe, pegaram seu Euclides, disse a Neuza. Pegaram foi nada, reviraram umas gavetas, uns armários e depois vieram para mim e para a Kátia. Disseram que iam nos levar para prestar esclarecimento.

– Olha, moço, a gente não sabe de nada, não tem informação nenhuma não. A gente não sabe no que seu Euclides está metido, falei. O homem disse que íamos mesmo assim, mostrou papel do juiz para nós. Ou seja, não era questão de escolher. Era ir ou ir.

A gente não entendeu nada. Também levaram o Raimundo, o jardineiro da mansão. Pensei que iam algemar todo mundo, que a gente ia no camburão igual bandido. Não teve nada disso, a gente foi no banco de trás. Aquele carrão preto e a gente no banco de trás, igual madame indo fazer compras, parecia. Banco macio, macio. Ar-condicionado do bom. Uma maravilha. Mas uma coisa não saía da minha cabeça, o que essa polícia rica quer com a gente?

Lia

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