Empoderada (cap.6)

Emponderada

– Então, o delegado me chamou e perguntou de onde vinham meus proventos. Que raio é isso, perguntei. O doutor delegado repetiu a pergunta, só mudou a palavra. Perguntou de onde vinha minha renda. Disse que do meu trabalho na casa do seu Euclides. Então, fui informada que meu salário não vinha do seu Euclides, vinha da verba de gabinete dele. Não entendi o que queriam dizer, então, me explicaram. Falaram que no papel eu trabalhava para o seu Euclides, até aí tudo bem, o problema é que no papel eu trabalha para o doutor Euclides no gabinete dele, lá em Brasília, onde nunca estive. Aí é que a coisa ficou feia, para o meu lado é claro. O delegado disse que eu era uma funcionária fantasma, que eu acabara de confirmar que nunca estivera em Brasília. E o quê que tem isso? Perguntei, já desconfiada que ia sobrar para a burra aqui.

– Então me avisaram que eu nunca tinha trabalhado no gabinete do seu Euclides, no entanto recebia como se trabalhasse, assim o meu ordenado não era pago pelo seu Euclides, e sim pelo povo. Por isso, eu teria que devolver todo o dinheiro, pois era funcionária fantasma. Aí fiquei apavorada e irritada. Disse que nunca trabalhei em Brasília, mas durante esses dois anos trabalhei foi é muito. Disse que ele tinha que ver isso com o seu Euclides, pois, eu não tinha nada com isso, não sabia de nada e que eu trabalhei durante esses dois anos direitinho, sem faltar um dia. Por isso essa história de funcionário fantasma não tem cabimento. Depois, disse que eu não tinha o dinheiro para devolver. Ora, era só o que falta trabalhar de graça. Funcionária fantasma onde, eu tava bem viva, todo santo dia faxinando aquela casa.

– Perguntaram com um tom desconfiado como era possível eu nunca ter desconfiado de nada? Eu, hein como eu ia saber, dinheiro do governo tem cor e cheiro diferente do dinheiro do doutor Euclides, disse. E completei, completei mesmo. E vocês que são dessa polícia importante levaram esse tempo todo para saber como eu ia saber? Não é nossa função, disseram. Mas se não é função de vocês por que estão bulindo com isso? O delegado ficou brabo. Patrão odeia ser questionado pela gente.

– Então me perguntaram se eu tinha reparado em algo estranho na casa do seu Euclides. Tudo lá é estranho para mim. Uma casa daquele tamanho, com um monte de quartos e salas decorados com luxo e que quase nunca ninguém usa. Um monte de comida que quase ninguém come. A casa tinha até sauna. Para que gastar uma fortuna para construir um quarto quente para ficar suando aqui no Rio de Janeiro. Se a intenção é esse é só pegar ônibus na hora da muvuca.

– Me liberaram e eu voltei para a casa do seu Euclides junto com a Kátia que tava apavorada. Eu achei que ela fosse ter um troço. O problema da Kátia não era como o meu, a artimanha do se Euclides com ela foi bem pior. A Kátia foi informada pela polícia que ela possuía várias casas, mansões, aliás. Uma em Angra, uma em Florianópolis e um na Costa do Sauípe. Perguntaram como ela podia ter esses três imóveis sendo que era uma faxineira. A Kátia disse que não sabia que nada e que morava no Vidigal e que podiam ir lá perguntar e que nunca esteve nem Angra, nem em Florianópolis e nem na Bahia. Disseram que ela era laranja, que estava ajudando seu Euclides a lavar dinheiro roubado e queriam saber qual a vantagem que ela tinha recebido. A Kátia chorou muito, disse que não tinha feito aquilo, que não tinha vantagem nenhuma, não sabia de casa nenhuma.

– Coitada da Kátia. Quando voltamos ela já estava melhor. E teve uma esperança besta. Me perguntou se será que ela podia ficar com uma das casas, a menorzinha que fosse. Pelo preço que o delegado disse que valia a Katia achava que dava para comprar uma casa com quintal e tudo para ele, pagar uma boa escola para os filhos até eles crescerem, comprar um sítio pro seu pai que era meeiro no interior do estado, achava até que dava para se aposentar ou abrir uma coisinha sua. Vê se pode!

– Deixa de ser tola, Kátia, é claro que não. Essas casas são do seu Euclides e vão continuar sendo. E pode esquecendo essa história de aposentadoria, pobre só se aposenta quando morre e olhe lá.

– O mais prejudicado por seu Euclides foi o coitado do Raimundo. Que só depois fiquei sabendo o motivo de não ter voltado com a gente, não foi liberado. Ele também era funcionário fantasma sem ser como eu. Pelo papel devia estar em Brasília, mas estava na casa do Rio. Para piorar tinha uma dúzia de fazendas em seu nome. De gado, de soja e de cana. Umas ficavam no nordeste, outras perto de Brasília e outras no interior de São Paulo. O coitado do Raimundo disse que a única terra que tinha era um sítio seco no interior de Pernambuco, onde estava sua família, e que mandava quase todo o seu salário para lá. Quando deram a entender para o Raimundo que achavam que ele sabia que era laranja de seu Euclides e que tinha levado vantagem e que por ser funcionário fantasma teria que devolver os salários de três anos, Raimundo esqueceu onde tava e disse que não era bandido, que não tinha levado vantagem nenhuma, que não era homem disso, que não era porque era pobre que ia deixar gente que se acha importante fazer pouco caso dele. E que não ia devolver dinheiro nenhum, pois não ficou a toa sem fazer nada e recebendo ordenado, fez todo o jardim do seu Euclides e cuidou dele como se fosse seu. E que deixassem de frouxura e fossem peitar quem tinha cometido crime, ou seja, o seu Euclides.

– Por causa da resposta Raimundo ficou preso por dois dias por desacato, seu Euclides não ficou nenhum. Fiquei com orgulho do Raimundo e com vergonha por não ter tido uma reação parecida. Até hoje acho que devia ter dito alguma coisa, ter feito como o Raimundo fez. Esse negócio de sempre engolir desaforo mata.

– Depois, o advogado falou que aquilo era para intimidar, para ver se a gente sabia de algo. Não aceitei a explicação não. Foi bem cruel, ficar de ameaça com quem não tem nada e não fez nada. Não consegui ver muita diferença entre eles e seu Euclides.

Lia

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