Empoderada (cap.7)

Emponderada

– Então, no dia seguinte a dona Ângela, mulher do seu Euclides, tocou a sineta. Tinha uma bronca danada daquela sineta, nunca chamava a gente, só usava a tal da sineta. A criatura não tem boca não? Essa mania de sempre economizar língua. E a gente por acaso é gado para ser chamado desse jeito. A dona Ângela tava muito simpática, sorrindo e tudo. Aí, eu pensei, aí tem, ô se tem. E tinha mesmo. Falou comprido, conversa cheia de nove horas, disse que não era para não nos preocuparmos, que tudo ia se ajeitar e mais um monte de coisa. Quando ela disse se a gente precisasse de qualquer coisa era só falar com ela fiquei mais desconfiada ainda. Esse amor todo sei não, usa a gente depois vem com esse carinho todo como se não tivesse feito nada. Atalhei a conversa fiada e disse que queria minhas contas, pois não ia mais trabalhar na casa.

– Dona Ângela, se fez de boba, fingiu que não tinha ouvido e falou em nos dar um aumento. Mas não deixei passar, repontei. Disse que não trabalhava mais para ela e o seu Euclides. Dona Ângela não teve como fugir do assunto. Se fez de sentida, parecia que a criminosa era eu. Fez uma penca de elogios, disse que ia sentir saudade e tudo. Mas percebeu que não estava funcionando e apelou, apelou mesmo. Disse que era ingratidão que me via como filha. Aí, não aguentei e ri muito, gargalhei, quase cai no chão de tantas gargalhadas, me tremia toda.

– Dona Ângela não viu graça nenhuma, apontou para mim a sineta como se fosse uma arma e começou a me ofender. Disse que não podia esperar outra coisa de gente como eu, que gente como eu quando desiste de trabalhar é porque arranjou lugar no crime. Eu queria dizer que eu não ia deixar de trabalhar e que não tinha crime nenhum, queria falar que estava pensando em outro emprego. Mas não disse. Interrompi dona Ângela de outra forma, com um tapa. Dei na cara dela, sim. Todo mundo ficou espantado, principalmente dona Ângela. Eu não fiquei, já tava fora de mim. Dona Ângela parecia um estátua, parada com aquela sineta apontada para mim. Arranquei aquela sineta da mão dela e fui me embora.

– Pensei que seria presa, que dona Ângela fosse me denunciar. Não fizeram nada. Acertaram as minhas contas direitinho. Dona Ângela e seu Euclides queriam evitar escândalo, ficaram com medo da repercussão. Não sei o que me deu naquele dia, imagina, dar na cara de patrão. Fiquei muito satisfeita com que eu fiz, fiquei mesmo. Não sei de onde tirei tanto alívio. Parecia que eu não tinha feito aquilo só por mim, mas por muito mais gente. Se eu pudesse colocava a minha mão em uma moldura, mas preciso das duas para faxinar. E pegar a sineta, então. Não sei o motivo de ter roubado a sineta, mas eu guardo até hoje, é um troféu, sinto.

– Pronto, entrar no condomínio e começar mais um dia de trabalho.

– Como assim, Paulo? Sério isso? Roubaram o apartamento da dona Antônia. Quando foi isso? Levaram muita coisa? Deixa, precisa falar nada não, vou lá falar com a dona Antônia.

– Gente, que absurdo. Um condomínio desses, cheio de câmeras e segurança, como pode?

Lia

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