Síntona Fina (conto completo)

sintonia fina, Jorge Horácio

I

Calor recorde na cidade esplendorosa, a semana inteira foi assim. Graças a Deus o final de semana repetia os dias úteis. Cleber só tem a agradecer, diante de seus olhos está a recompensa pela semana dura de trabalho e estudo. Logo ali, pouco após o término da base do morro, fica a orla mais famosa da cidade, a internacionalmente conhecida Cozinhabarraca. Junto com familiares e amigos Cleber desceu rumo ao éden de Cascata de Maio. Desciam em alvoroço falando de tudo um pouco. O Flamengo que ainda não engrenou no campeonato. O baile funk de hoje à noite em Simplicidade do Francês. O pagode muito bom que rolou semana passada em Município do Senhor. A multidão descia carregando toda sorte de provimento, mais que suficiente para passar o dia todo na praia. Pacote de bolachas, sanduíches de pão com mortadela, fatias de bolo, balas. E, conservado no gelo em caixas de isopor, água, sucos e, claro, cervejas. Tudo trazido lá de cima, o que não veio de casa foi adquirido no mercadinho do Seu Chico. Comprar na praia é suicídio, o preço está pela hora da morte. Um verdadeiro arrastão quando os vendedores ambulantes passam.

– Quanto custa?

– Dez.

– Que isso? Não sou turista, não. Sou dali do morro.

– Então, faço por oito.

Mesmo com o desconto sai mais barato descer com o rancho, além de mais divertido. Fora os alimentos há os objetos. Cadeiras, guarda-sóis, uma bola de vôlei, uma bola de futebol, brinquedos para as crianças e uma prancha de surf, apesar de não existir ondas para ela na praia. Sem contar nos celulares de última geração para postar comentários do dia no twitter, Face e publicar fotos no Insta. Enfim, uma verdadeira mudança.

A caravana chega a seu oásis e começa a levantar acampamento. Enquanto isso, próximo a eles, o doutor em ciências humanas, especializado em comportamento humano e honoris causa em diversas e diversas universidades, Augusto Devaneador da Silva, concede uma entrevista ao vivo.

– Vinte anos atrás quando publiquei meu livro A forma instintiva de reivindicação do povofui ridicularizado por todos. No entanto, quem ri por último ri melhor. Após o advento dos rolezinhos, onde jovens em massa invadem estabelecimentos comerciais elitistas, como shoppings, para exigir seu espaço, para dizer que também tem direito ao consumo, todos viram que minhas conclusões estavam corretíssimas!

– Professor – o repórter. – Estamos com um link em San Pablo. Lá está Maicon, um dos organizadores dos rolezinhos.

Todos se cumprimentam e o repórter de San Pablo indaga qual o motivo dos rolezinhos existirem

– Queremos nos divertir, passar o tempo, trocar umas ideias com os amigos e beijar umas princesas. San Pablo não tem praia e ficar na praça com um sol de trinta e cinco graus na cara não dá. No shopping é mais confortável.

A reportagem volta para Cascata de Maio.

– Viram, é disso que falo em meu livro. A forma dos populares reivindicarem seu espaço é tão natural e espontânea que os autores nem se dão conta da profundidade do movimento que criaram. Isso não é novo no mundo, nem no Brasil. Em meu livro, A forma instintiva de reivindicação do povo, identifiquei esse processo aqui em Cascata de Maio. E o denominei Descidinha. É muito semelhante ao de San Pablo, porém com algumas adaptações locais. Afinal, nós somos nós e nossas circunstâncias. Lá são os shoppings centers, aqui são as praias. Enquanto lá o povo unido adentra as catedrais do consumo para afirmar diante daqueles elitistas, boquiabertos e paralisados diante da força da massa, que também querem consumir, que tem direito a isso. Direito a usufruir do conforto e da riqueza deles, tal como sem terras invadindo latifúndios. Aqui, há anos o povo invade esses paraísos, até então exclusivos dos endinheirados, Cozinhabarraca, Elmoreno e Caravan. Deixando claro que a praia, o regozijo, e todo esse hedonismo não é exclusividade dos moradores da Casa-Grande, daqueles que enriqueceram a custas do suor e do sacrifício do povo. Os sofridos, os explorados descem os morros, por isso o nome Descidinha, tomam conta da faixa de areia, deixando claro que também têm direito ao seu lugar ao sol.

Uma estrondosa salva de palmas toma conta do ambiente, abafando a fala dos que estão projetados na tela do auditório. Já esperando por isso Devaneador pausa a imagem até o fim da ovação.

 

Caminhante

 

II

As palmas reduzem até ser possível ouvir o áudio e antes de apertar o play para dar andamento ao vídeo, Devaneador comenta.

– Atentem para a sutiliza da intromissão venenosa da grande mídia, reparem em suas técnicas em tentar conduzir os discursos – e dá prosseguimento ao vídeo.

O repórter de San Pablo pergunta a Maicon se ele concorda com o professor Augusto. Após se recuperar do baque da vergonha alheia o inquirido responde.

– Não. Que isso? Tem nada disso não. A gente sempre fez isso. Só que antes era bem menos gente. Era eu e mais uns chegados. Os seguranças olhavam atravessado, mas não dava nada. Agora que juntou umas dezenas passou a dar problema.

A entrevista retorna a Cascata.

– Como eu disse. Não se dão conta da magnitude de seus atos. Meu jovem, não se deixe levar pelas afirmações desses formadores de opinião golpistas. Querendo o transformar em mero consumidor, em um reles passeador de shopping. Você é líder de um movimento de indignação e revolta.

– Indignado a gente só ficou quando não pôde entrar – Maicon.

– Disseram o por quê de não poderem entrar? – o repórter de San Pablo.

– Falaram que não podiam garantir a segurança quando tantas pessoas chegam ao mesmo tempo.

– Foi apenas com isso que vocês se irritaram? Não havia nenhum tipo de revolta, querer tomar o espaço da classe dominante? – o mesmo entrevistador.

– Não. Não queremos tomar espaço nenhum. Nós sempre vamos lá. Mas quando o grupo ficou grande nos barraram…

– Não, não. Não é nada disso – interrompe Augusto Devaneador. – E, por favor, o senhor pare de fazer perguntas tendenciosas, de tentar induzir o jovem Maicon a responder o que você quer!

Antes do jornalista de San Pablo pudesse reagir o de Cascata de Maio indaga.

– Meu colega apenas perguntou o que os tinha irritado. Pelo visto o professor discorda da resposta dada pelo próprio Maicon. Então, segundo sua opinião, qual é a verdade?

– A verdade é que esses jovens têm uma vida cheia de privações, miséria e fome…

– Ei! Eu nunca passei fome, não.

Após uns vinte segundos de silêncio para lá de constrangedor, Devaneador retoma seu raciocínio.

– Falo de fome de sonhos, de espaço, de liberdade. E tudo isso está onde? Naquela Caixa de Pandora denominada shopping center. Esses jovens a abriram e agora a burguesia toma conhecimento do caos da desigualdade social semeado por ela mesma. No caso dos Rolezinhos tudo teve início com o olhar atravessado dos gorilas, dos seguranças, essa PM particular. Isso fica claro quando o jovem Maicon disse ‘A gente sempre fez isso. Só que antes era bem menos gente. Era eu e mais uns chegados. Os seguranças olhavam atravessado, mas não dava nada’. Nessa poucas e sábias palavras está embutida uma mensagem subliminar de suma importância. Ao proferi-las, Maicon quis dizer: Estamos aqui para dar fim a esses locais privados de consumo e divertimento. Para liquidar de vez essa cultura de classe. Chega de ficarmos apenas com o ínfimo, de termos somente o mínimo para nos mantermos em condições de carregarmos esse sistema de castas em nossas costas. Não somos dalits. Que a classe dominante trema frente à revolução. Nada temos a perder fora nossos grilhões! Temos o mundo a ganhar!

– Que papo é esse. Eu disse o que quis dizer. Não tem nada de mensagem subliminar. Esse velhote ta me tirando!

Antes de Maicon começar a despejar impropérios em Devaneador a emissora derruba o link de San Pablo.

Caminhante

 

III

Em Cascata de Maio o professor continuou a demonstrar a sua teoria.

– Vejam aqueles oprimidos logo ali – vira-se e aponta para Cleber e os seus, que até o momento estavam como pano de fundo da entrevista – Por mais que tente condicionar a consciência do povo, jamais vão conseguir domar essa força da natureza, o instinto da massa. Invadiram a praia e montaram o seu piquete. A barraca é o centro da fortaleza. Trouxeram até suprimentos para dias difíceis de resistência. Afinal nunca se sabe quanto tempo o embate vai durar.

Estupefato, o repórter que não reconhece na cena nada das afirmações do douto, argumenta.

– O senhor vê isso? Bem, parecem apenas pessoas se divertindo. Parte deles está até jogando futebol.

– Isso não me surpreende, vindo de um alienado membro da mídia reacionária.

Mentalmente o jornalista esbofeteia o professor, o chuta em local muito delicado e escarra em sua face com vontade. Fora da ficção decide inquirir os revoltosos de Cozinhabarraca.

– É pegadinha, né! – afirma Cleber enquanto cai na risada. – Foi boa, eu quase acreditei que você estava falando sério.

– Mas estou falando sério – o repórter. – Essa é a teoria do professor Augusto Devaneador da Silva, a qual ele denomina Descidinha.

Em seguida apresenta o catedrático a Cleber. O futebolista não perde a esportiva e responde com bom humor.

– Mas a minha teoria é que tá um calor danado. Lá do morro a gente viu esse marzão, essa areia e decidiu descer. Não viemos para invadir e nem resistir. Viemos para jogar bola, beber umas geladas e cair na água. Claro, e azarar a mulherada. Mês passado conheci uma francesinha, se amarrou aqui no menino de Cascata que causa arrepio.

– Não, não. Meu jovem não se deixa induzir pelas aparências. Por essa versão tendenciosa dos fatos imposta pela elite.

– Ih, o velho surtou! – conclui divertido.

– Eu compreendo, seu espanto. Vocês não vieram aqui por lazer…

– Viemos, sim. Eu sei que o doutor é de outro mundo, mas tenho uma notícia para dar, pobre também se diverte.

– Eu sei. E de forma criativa vocês fazem uso da diversão, do lazer para protestar e reivindicar. Mostrar orgulho, o amor em ser pobre.

– Amor em ser pobre?! – e Cleber dá uma boa risada. – Eu não tenho vergonha de ser pobre, não é crime. Agora, amar ser pobre de jeito nenhum. Como diria Joãozinho Trinta ‘quem gosta de miséria é intelectual, pobre gosta é de luxo’. Eu adoraria ter uma dessas coberturas de cara para o mar e um carrão para zoar com a mulherada.

– Mas isso é se vender ao capitalismo! – o escandalizado professor.

– Opa, chama o homem aqui. Se me arrumar um apezão e uma maquina nervosa me vendo na hora.

– Meu jovem, capitalismo não é uma pessoa é…

– Eu sei. Ao contrário do que pessoas como você pensam pobre tem inteligência, só não é instruído.

– Não consideramos os pobres desprovidos de inteligência…

– Consideram, sim. Sempre dizem que o que falamos não é o que queríamos falar, quando fazemos isso é porque queríamos fazer aquilo. Mesmo quando afirmamos que não é nada disso, vocês olham a gente com superioridade como se fossem Deus, como um adulto falando com uma criança e com a maior tranquilidade do mundo afirmam que estamos enganados e nos explicam o que realmente queríamos dizer. Como, por exemplo, qual o verdadeiro motivo de estarmos aqui na praia.

O repórter contém o riso e pergunta.

– Então não se trata de protesto, de uma manifestação?

– Claro que se trata. Se nós quiséssemos só nos divertir iríamos para Angra, Saint Tropez, Ibiza, Bahamas ou Mônaco.

– Me permita fazer um à parte – o professor. – Há um equivoco em sua análise, meu jovem. Todos os locais citados são excelentes para uma manifestação. Levar o caos a esses locais onde os sugadores da alma dos explorados regozijam-se de suas façanhas é uma excelente ideia. Um belo próximo passo para a revolução.

Os outros dois ficam quietos por algum tempo. Por fim, Cleber se pronuncia.

– Eu estava sendo irônico. Fazendo piada.

– Como? Não acredito. Fazendo brincadeira com algo tão sério. Como pode. Não se deixe cegar. Você tem potencial para ser um Lênin…

– Sacanagem, hein! Se é para ser outra pessoa quero ser o Neymar. Ganha uma grana no Paris Saint Gemain e marca cada golaço. Dentro e fora de campo também. Já viram a mina que ele ta pegando agora?

Caminhante

 

IV

A projeção acaba e um atônito silêncio paira sobre todos no auditório. As luzes são acessas e os rostos mudos ficam na expectativa.

– Pois é, companheiros, companheiras ainda falta, ainda falta… Contudo, não podemos ficar decepcionados, de forma alguma podemos esmorecer. Transformações são processos lentos, principalmente as grandes. Sem essa conversa de que o povo é letárgico, é alienado. O povo vive sua vidinha sem se dar conta do panorama maior, pois foram levados a isso pelas elites. Tal como um vírus introjetaram e introjetam esse sentimento bovino fazendo com que ele se preocupe apenas com o capim da hora sem nem sequer atinar para o abate futuro. Criaram um sistema que faz com que a massa dispense muita energia e tempo para sobreviver, assim, não conseguem olhar em volta, não percebem todo o quadro. Mas, nós podemos. Portanto, ao invés de ficarmos nos lamentando sobre a ignorância – e faz aspas com os dedos – sobre a cegueira do povo – e repete as aspas – temos de tirar essa viseira dele. Nossa missão é arrancar esse antolho criado e imposto pelas classes dominantes! Como faremos isso? Não é nos reunindo aqui e conversamos somente entre nós, criando textos para nós mesmo, enfim, alimentando um mundo à parte. Sim, é importante trocarmos ideias, reunirmos para definirmos estratégias e ações. Contudo, apenas isso não basta. Precisamos sair dessa catedral do saber, abandonar esses hábitos de sacerdote como se tratássemos de assuntos de outro mundo, de outro plano. Sem sombra de dúvida, cuidamos de assuntos elevados, porém são deste mundo. Portando, é absurdo nos isolarmos. É um arrematado disparate ficarmos enclausurados nos campus como se mosteiros fossem! Até parece que estamos em um clube de turfe ou de golfe. Somos a vanguarda revolucionária, cabe a nós acender a centelha da população. Falamos desse mundo, nosso objeto de estudo é este mundo, sendo assim, cabe-nos ir a ele e não evitá-lo.

Uma salva de palmas irrompe no recinto, com direito até a assobios. Só não surgiram pedidos de bis, pois o tempo estava curto e ainda havia o espaço para as perguntas. Após o alvoroço serenar, o intermediador abre para perguntas.

– Professor como podemos fazer para seguir a sua sugestão? Como fazemos para ir ao mundo? – uma graduanda da plateia.

– Bom ouvir essa pergunta. Agradeço por ela, minha jovem. Então, vamos a ela. Não podemos ter receio do povo, temos que conversar com ele. Não falo de momentos de crise, quando há manifestações, paralisações. Nestes momentos também. No entanto, somente eles não bastam. São pontuais e espaçados demais para criar intimidade, para gerar confiança e cumplicidade. Tem que ser no dia a dia como os pastores e a mídia golpista fazem! Também temos que pregar a palavra. Mas, a nossa palavra que também é a dele. Mais dele que nossa. É no convívio cotidiano é que vamos despertá-lo. Será aos poucos é que vamos conduzi-lo para a libertação. Em conversas amigas, ocasionais, porém constantes é que ocorrerá o estalo. Quando menos esperarmos, se agirmos dessa forma, a revolução estará à nossa porta e não haverá concílio e nem conluio capaz de deter ou reverter o inevitável. Saiam daqui e conversem com os cobradores de ônibus, como os garçons dos bares que frequentam, vão a uma obra e falem aos pedreiros. Aqui mesmo temos as pessoas da limpeza, todas terceirizadas, não basta cumprimentá-las, mostrar simpatia, dialoguem, as conheçam mais de perto. Em meio a essas conversas diárias as despertem para a salvação. Façam isso de forma homeopática, gradual, somente assim ocorrerá a troca de mentalidade, somente assim o discurso hegemônico das elites ruirá e discurso verdadeiro triunfará. Eu mesmo procedo assim. E creiam em mim, estou vendo resultado, progresso. Vamos despertar os Lenins em latência que são os cidadãos e as cidadãs do povo.

E a triunfal resposta é coroada por uma estrondosa aclamação, poucas vezes vistas na instituição, praticamente uma apoteose.

Caminhante

 

V

Professor Devaneador, como de costume, realiza mais uma palestra. Porém, dessa vez é durante uma aula, também como de hábito.

– Tal como um médico ao tratar o paciente – Conclui o prólogo, então entra na parte explicativa – Ele sabe melhor que o paciente sobre o seu estado. O médico é o profissional capacitado a dar o diagnóstico preciso. Embora, o paciente busque achar que pode se automedicar, não pode, não possui leitura e nem treino para isso. Na sua luta diária pela sobrevivência enxerga apenas o imediato e muito próximo, enfim, o suficiente para viabilizar a vida. Sendo assim, não pode perceber estruturas e relações amplas. O povo está debilitado e doente. Portanto, nos cabe diagnosticar que doença é essa e recomendar o tratamento.

– Essa analogia é absurda – contesta um aluno do curso de medicina que calhou de fazer uma disciplina fora do seu curso e escolheu justamente a do afamado e renomado professor e doutor Augusto Devaneador da Silva. – Essa relação direta entre medicina e ciência humanas é um despropósito. Na sua retórica fica parecendo que o povo é um indivíduo, entretanto, trata-se de milhões – Devaneador tentou um aparte, porém lhe foi negada devido à indignação do aluno. – Experimente fazer tratamento uniforme de uma doença para todos os atingidos por ela. O resultado será a morte de todos. A não ser que você esteja mais preocupado em combater o mal que preservar a vida dos indivíduos. O senhor fala como se fosse capaz e de reduzir o indivíduo em todos os aspectos, sei lá, se existe alguém capaz disso seria Deus, se é que ele existe. Isso equivale a medicina se crer capaz de banir a morte do mundo. Quando o máximo que consegue é livrar de uma doença específica uma pessoa em particular, isso se for bem sucedida. Nem sequer conseguimos a cura universal de uma única doença quanto mais de todas.

– Isso me surpreende vindo de um estudante de medicina. E as vacinas? Nada mais são que uma cura, cura antecipada, aliás. A pessoa a toma e nunca será atingida pela doença que o medicamento combate. Portanto, uma vez realizada todas as transformações, findo todo o processo revolucionário…

– Mas isso é absurdo.

– O senhor me interrompeu, posso continuar? – diz com escárnio.

– O senhor falou por uma hora e meia e não deixou ninguém falar. Talvez seja o caso de ouvir  um pouco. Afinal, essa também é uma faculdade humana. Como ia dizendo, é absurdo. O senhor propõe algum tipo de revolução, mudança ou sei lá o que como se a sociedade fosse começar do zero, aí as precauções para evitar todos os males da sociedade anterior seriam tomados. A questão é que na medicina não existe uma vacina para prevenir todas as doenças. São apenas algumas que previnem algumas doenças.  As demais vacinas são parciais, conseguem reduzir a chance de pegar a doença, sendo assim, não garantem imunidade total. Enfim, já que estamos falando de medicina, o senhor é um caso clínico interessante.

A aula terminou e todos disparam para o intervalo. Menos o professor Devaneador, demorou um pouco para deixar a sala. Nunca fora tão firmemente contestado em sala de aula. As tentativas anteriores foram sufocadas com sucesso. O aluno é de outro curso, mas isso não o tranquiliza, percebeu na face de muitos no recinto a concordância. Isso não seria apenas por causa do intruso. “Talvez alguns professores do departamento”, pensou.

– Sim, principalmente esses moleques que chegaram agora e nada sabem da vida! Só o povo, só o povo. A batalha na academia está perdida! – e, marchando, deixou a sala.

Caminhante

VI

Augusto Devaneador da Silva chega em seu prédio, entra no elevador e reflete com seus botões se por acaso teria pego pesado demais com Mariana, a sua empregada.

– Não, definitivamente não. Tudo é Jesus, tudo é Deus. Chega de rememorar essa experiência trágica. Só libertando as expectativas do carrasco do além mundo é que será possível alguma mudança.  As expectativas devem se alicerçarem em algo novo, desprendido dessas velharias inúteis. Fui duro, sim. Mas dei um novo horizonte a ela. Vai ser doído por enquanto, porém toda metamorfose é dolorosa, contudo, necessária. Deixará essa carolice rastejante e irá bater asas, voar rumo à liberdade, à consciência de classe.

Os botões, como de hábito, nada respondem, guardam um silencioso respeitoso. Devaneador contenta-se com a deferência e a toma como aceitação e concordância. Não cogita a hipótese deles precisarem de tempo para digerirem suas palavras, confrontá-las com outras possibilidades para somente, então, poderem emitir alguma opinião.

O veículo para em seu andar, o inquilino o deixa, entra em seu apartamento e pelo aroma percebe o almoço pronto. Ao acabar de degustar a refeição, chama Mariana para falar de uma conversa específica que tiveram há uns quinze dias. Decidiu dar um tempo a ela para processar a revelação, para ocorrer a tal metamorfose. Entretanto, chegou o momento de ver a evolução, o estágio em que se encontra a transformação que ajudou a provocar.

– Me lembro, sim. Aquele dia que o senhor disse que Jesus era um engodo, um arquétipo e mais um monte de coisa. Que bom que o senhor tocou no assunto. Não sabia como fazer isso.

O coração de Devaneador acelerou de emoção, uma conversão tão cedo. E esse desprezo dos acadêmicos pelos desfavorecidos, francamente! A Academia é um cemitério!… e seus sentimentos são interrompidos…

– Eu falei com o pastor da minha igreja das blasfêmias ditas pelo senhor e ele falou que o senhor tá com encosto e que seria bom ir lá para ele amarrar o mal, expulsar ele da sua vida. Se o senhor quiser algo mais reservado ele pode vir aqui.

O professor explodiu, com ira revolucionária despejou suas teses sobre o amanhã e sobre o passado. Anos e anos de discussões, palestras, livros lidos e escrito despejados em torrente. Cataratas Vitória despencado sobre a doméstica acostumada a correntes de água mais tranquilas e comezinhas como a que jorra da torneira da pia. Aquela fumaça trovejante só fez Mariana se convencer ainda mais de que seu patrão está possuído pelo demônio. Aquelas palavras que ninguém entende só podiam ser pragas disparadas a quem estende a mão, atitude típica do Tinhoso.

– Se preocupe não, seu Augusto, vou começar uma novena pro senhor.

– Eu não preciso ser salvo. A senhora é que precisa!

– Mas eu já fui, em nome de Jesus! – diz com alegria triunfante.

Perdeu o chão, fica sem palavras, sinal de alerta. Fica tão estarrecido que se esquece de respirar. Só retoma o movimento vital após a empregada acudi-lo.

– O senhor está bem?

– Sim, sim.

– Quer uma água?

– Não, não. Obrigado.

– O cafezinho de sempre?

– Sim, claro.

Foi à cozinha e preparou o cafezinho pós desjejum com água benta, abençoada pelos pastor no último culto. Ao ver o líquido ser saboreado pelo patrão, Mariana sente a presença do Espirito Santo.

“Pronto, a salvação começou. Glória”, pensa e os lábios expressam contentamento.

Caminhante

 

VII

Augusto Devaneador da Silva não desiste de sua missão, afinal, os contratempos e as pequenas derrotas são o presságio da vitória final. Portanto, é preciso perseverar, faz-se necessário seguir firme na fé. A esperança do ilustre professor é reforçada por um bom augúrio.

Outro membro do povo ao qual se aproximou para mostrar-lhe o caminho foi o Damasceno, porteiro de seu prédio. Com olhos humildes e sem ter para onde ir ouvia A Palavra, enquanto sentia que com as Testemunhas de Jeová podia fingir não estar em casa. Mas fazer o que? Essa é sina de porteiro, ter vários patrões, todos cheios de opinião sobre sua vida e querendo ajudar com suas sábias palavras.

“Devia de ter um aditivo por insalubridade”, pensava Damasceno com frequência.

Entretanto, com o tempo, Damasceno sentiu algo diferente, foi tocado pelas palavras do professor. O professor o incentiva à ação, a tomar uma atitude. Quem sabe faz a hora não espera acontecer, lhe disse em um dos tantos encontros. Sim, era isso que tinha que fazer, fazer sua hora.

Devaneador percebeu a mudança se processando em Damasceno. Em uma das tantas palestras sentiu um típico brilhar nos olhos de seu discípulo, a resolução em sua face era incontestável. Sim, sem margem para dúvida, tomaria uma providência. Enfim, uma alma conquistada para a causa, glória.

No dia seguinte seu coração alegrou-se enormemente ao saber que Damasceno tinha se demitido, logo, não voltaria mais ao condomínio. Estava em êxtase.

– Já começou, eu posso sentir. Começou – diz para si.

Como vai ser? Quando vai ser? O que importa? Devaneador sempre soube que seu papel era o de gatilho inicial, o de profeta anunciador e não redentor. Não adiante se lamentar por mesquinharias, não veria o acontecimento, contudo, o relevante é que já foi iniciado, é irrevogável, não há como ser detido.  Os efeitos ainda vão demorar, porém são inevitáveis.

E para sua surpresa, na mesma semana em que tomou o abençoado café de Mariana, encontra, ao entrar no banco, o Damasceno.

– Damasceno?

– Professor?

Cumprimentam-se e mais curioso e impulsivo que uma criança pergunta por novidades.

– Segui o conselho do doutor. Fui atrás, agi, fiz a mudança, fiz minha hora.

Não, diga – e seus olhos brilham de entusiasmo. Sim, podia ouvir as trombetas da anunciação sendo testadas para o início da apresentação. Era um começo, um começo promissor. Uma pedrinha no lago, mas com repercussão. Sim, tinha sido a força inicial que pôs tudo em movimento, a inércia fará o resto.  – Diga-me, qual movimento você entrou ou deu início.

Porém, o professor esqueceu que só em um mundo ideal a inércia age sozinha, há muitas outras forças além da que advém da que iniciou o movimento e a realidade despreza o ideal.

– Movimento? Bem, eu fiz um curso de padeiro no SENAC e já consegui emprego no ramo. Estou ganhando mais que como porteiro. Não fiquei nisso não, fui além, estou me profissionalizando em doces também. Quem sabe mais para frente, se Deus quiser, eu abra minha própria padaria.

Seu coração congelou por um instante, porém recupera-se. Afinal, tem que tirar seu discípulo do caminho da perdição e trazê-lo de volta. Procedeu com Damasceno de maneira semelhante que com Mariana. Trovejou suas altas verdades, suas revelações salvacionista.

– Revolução? Eu, hein, vá o senhor fazer, já que gosta e tem tempo. Eu tenho família para sustentar e mais vinte anos de financiamento da casa.

Devaneador ficou sem palavras, sinal grave, e viu Damasceno ir embora. Depois de conferir o estrato rumou para a universidade ministrar aula.  No Campus ouviu uma música peculiar, ainda estava nos instrumentos. É a música Bella Ciao, a da resistência italiana na segunda guerra.

– Sim, é a música antifascista – reconheceu.

Então lembrou que ela também é tema de uma série de um canal pago, o enredo é um grupo de assaltantes roubando a casa da moeda da Espanha, daquele governo monarquista.

– Sim, o caminho está na juventude, na juventude letrada. É isso. Como pude pensar diferente.

E parou diante dos jovens que colocaram a música para tocar, usavam todos a mesma camiseta de cores chamativas e com uma estampa esquisita. Deve ser uma convocação, é um ato. Não deixa de estar certo, porém não da maneira desejada. O ato é a convocação para um das tantas festas de cursos e quando entraram as vozes da música as palavras de resistência não deram o ar da graça.

– Essas malandra, assanhadinha que só quer vrau, só quer vrau…

E a licença poética continuou para o estarrecimento do professor. Não foi direto para a sala de aula, foi para a sua para se recuperar do baque. Em sua mesa, prestes a se entregar e a desistir lhe aparece o anjo anunciador da história. Suas decepções e fracassos não foram em vão, suas expectativas serão recompensadas em dobro, em expectativas realizadas.

– Sim, faça de mim seu servo.

No ano seguinte lançou seu mais recente livro, A forma instintiva de reivindicação do povovol. 2 nele apresenta a tese de como por meio da sexualização das formas de expressão, desde a moda à música, a juventude expressa sua rebeldia contra o sistema vigente e seu desejo de colocá-lo por terra. Bella Ciao e sua versão funk foram apresentadas como evidência, entre outros exemplos. O professor batizou esse processo de funkização cultural, às vezes funkização da resistência e funkização da revolução.

Caminhante

FIM

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