O homem cordial (cap.1)

o homem cordial

Meu honrado e bondoso pai serviu a nação como magistrado por décadas. Um Hércules que realizou seus doze trabalhos, aliás, mais que o herói grego, pois meu pai se dispôs a enfrentar tais desafios sem ter pecados a serem penitenciados. Foi reto e digno durante toda sua carreira, tamanha integridade moral lhe custou a nomeação aos tribunais superiores. Pois, meu pai, o Rui Barbosa de seu tempo, pelo domínio das leis, pelo poder de sua oratória, pela sua aguçada inteligência e, principalmente, pela sua intransigência aos jeitinhos, conchavos, conversas ao pé do ouvido e acordos indecorosos para influenciar decisões judiciais despertou inveja e receio em seus companheiros de toga. Meu pai era e é um legítimo republicano, um Catão da hombridade. Não se vendeu e nem se curvou aos césares corruptores mesmo sabendo que caso se comprometesse, caso aceitasse junto com os demais a profanar a justiça receberia os maiores benefícios, seria coberto de louros e de glórias. Contudo, meu honrado pai preferiu perecer a ficar de joelhos. Sua lealdade era para com a lei e para com sua consciência. Não atingiu o pícaro da carreira, isto lhe foi arrebatado pelos ímpios e pelos medíocres, entretanto, está em paz consigo e com Têmis. Sua balança sempre foi precisa, sua espada afiada e sua imparcialidade plena. Foi um sacerdote à altura da Justiça e Têmis tem ciência disso. Meu sábio pai preferiu a carestia franciscana à opulência dos príncipes da Igreja, pois seu ser estava dedicado a algo superior e não a picuinhas mundanas. Afinal, do que adianta conquistar o mundo, ser o primus inter pares e perder a alma? Trocar o infinito pelo instante, somente os néscios e os fracos fazem isso.

E o quer dizer de minha boa mãe… o grande esteio da família. Em nenhum momento, como fazem certas esposas, pressionou meu pai a deixar-se aliciar para com isso, à custa da consciência do marido, ascender socialmente e poder adquiri alguns mimos. Jamais se comportaria dessa maneira e jamais admitiria que meu se desviasse. Minha mãe tinha e tem a mesma concepção de mundo de meu pai, mas eles chegam a tal concepção por caminhos diferentes, meu arguto pai chega a ela por meio da razão e minha caridosa mãe através do coração. Assim, foram e são mais que companheiros convencionais, são almas sintonizadas. Minha bondosa e rígida mãe criou seus filhos de perto, foi a capitã da casa, nos deu amor e limites e não contradizendo e maldizendo meu pai, como algumas mulheres fazem com seus maridos, não confundindo sua integridade com frouxidão ou tolice, muito ao contrário, satisfeita com o proceder honrado de seu cônjuge mostrou a nós, seus filhos, que o nosso pai era o modelo que devia ser almejado por nós. Enfim, minha boa mãe foi a grande mulher por trás do grande homem, assegurou o porto seguro para meu pai ir para mundo lutar pelo bem estar da sociedade.

Esse comovente casal, essa unidade formada por eles depois dos filhos crescidos e já pais e depois de terem servido por décadas a Têmis, pois meu pai teve o obstinado apoio de minha mãe, nada mais justo de na velhice terem o seu descanso, o seu momento de paz. Após tanta luta e sem deixarem pendências e nem faltas obterem a recompensa de com tranquilidade e de mãos dadas serenamente observarem o crepúsculo.

Para o cenário deste último capítulo foi escolhido um charmoso sítio nas proximidades de Florianópolis. Repleto de um verde frondoso e exuberante, com frutas coloridas e suculentas, com um córrego cristalino emitindo sons tranquilizadores, sem contar a bela vista para o mar obtida do alto da colina da propriedade. Enfim, o lar perfeito para meus pais, um misto de retiro e templo, para enquanto contemplam a bela paisagem contemplem as suas ainda mais belas vidas e preparem-se para a próxima.

No entanto, esse local sagrado foi profano e essas duas santas criaturas, ofendidas. Quatro covardes e calhordas invadiram o sítio de meus pais. Não respeitaram a propriedade, os bens e nem os dois veneráveis idosos. Meu pai levou uma coronhada na cabeça e minha mãe arrastada com violência para a despensa da casa e lá ambos foram amarrados e amordaçados. A casa foi revirada, mataram o cachorro, levaram tudo o que podiam, colocaram os objetos dentro do carro de meu pai e partiram. Meus pais foram encontrados dois dias depois, o assalto aconteceu quando o caseiro estava de folga. Só por Deus não morreram, dois dias sem comer e sem beber e isso depois de toda aquela brutalidade.

Sim, foi registrado boletim de ocorrência. Porém, como o esperado, nada aconteceu. Essa é a mesma justiça que não fez Justiça a meu pai… Tive que tomar uma providência. Têmis está comigo, e não na burocracia.

Homem Cordial

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