O homem cordial (cap.2)

o homem cordial

Quando soube do ocorrido aos meus dignos pais fui correndo até eles. No trajeto a angústia e o desespero me fizeram companhia. Não sabia como estavam, se iriam sobreviver ou se teriam sequelas. Temia achá-los em um hospital público, pois não sei como é o sistema de saúde catarinense.  Para meu alívio os encontrei internados em um hospital particular em Florianópolis. Foram colocados em observação, fora o hematomas, estavam bem. Claro, me refiro à saúde física, não a moral. Pois esta desde a atrocidade permanecia seriamente abalada. E não podia ser diferente. Afinal, como tolerar tamanho desaforo, assimilar tal ofensa?

Impossível! Impossível! Brutalidade não é para ser entendia, e sim justiçada. A ira ardia dentro de mim, tinha que pegar quem fez isso aos meus, aos meus pais. Era meu dever proceder dessa maneira para fazer justiça, reequilibrar a ordem das coisas, quando uma injustiça não é reparada o mundo sai do eixo e de injustiça em injustiça que não recebe resposta à altura chegamos à desordem e ao desespero, portanto, é de nossa responsabilidade estabelecer a harmonia e a justiça. Não se trata apenas de vingança, de um vil revide. Enfim, o que preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons. É por ficarmos nos lamentando ao invés de agirmos é que o mundo chegou a ponto em que chegou.

Devemos vigiar para que nosso pranto diante de uma calamidade não se converta em cumplicidade, pois a passividade do abatimento diante de uma tragédia invariavelmente se converte nisso e o meu pranto nada tinha de complacente. Sem contar que os facínoras, caso não fossem capturados, poderiam atacar novamente. Voltariam, para eles foi fácil e presumo que até divertido.

Cabia a mim, o filho mais velho, abraçar essa questão. Estava ciente disso. Porém, nenhum dos criminosos foi identificado. Então, como proceder para fazer justiça? Sem essa informação colocar o mundo novamente em ordem seria tarefa inexequível.

Não conhecia a cidade, não sabia como agir. Até insinuei algo aos policiais responsáveis pela investigação. Um desconversou e o outro afirmou que se eu continuasse por esse caminho me daria voz de prisão. Vê se pode, eu ser preso? Justo eu, um bom filho em busca de justiça para seus dignos pais. Por sorte tenho alguns conhecidos na cidade ou que pelo menos passavam alguns verões na cidade, ou seja, possuem contatos. Por meio desses amigos cheguei ao investigador de polícia P., prefiro designá-lo assim. Compreendeu minha situação perfeitamente. Assim como eu é um homem disposto a colocar o mundo de volta ao seu eixo.

– Entendo o senhor perfeitamente. Florianópolis está atraindo muitas pessoas por causa da natureza e da tranquilidade. Muita gente de bem tem vindo para cá, como os pais do senhor. Sabendo disso muitos vagabundos vêm para cá também, eles vêm com a intenção de tirarem proveito de pessoas como os seus pais. São hienas, só atacam na covardia, avançam sobre quem está desprotegido. Quando souberam que seu pai era um juiz aposentado que morava apenas com a esposa, ah, aqueles canalhas não pensaram duas vezes. Sim, o senhor tem toda razão em pensar que se eles não forem encontrados podem voltar. São como animais selvagens que encontram uma casa cheia de comida, vão voltar, vão voltar. Só a tiros para parar essa escória.

– Fico feliz em saber que eu e o senhor compartilhamos o mesmo sentimento. Contudo, gostaria de saber se consegue localizá-los?

– Acredito que sim. Mas o senhor há de entender que, embora me solidarize com a causa do senhor, não posso ser apenas um voluntário, meu ordenado é pouco e tenho uma família para sustentar. Afinal, do que adianta socorrer o mundo se sua casa vem abaixo, não é mesmo?

Homem Cordial

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