O homem cordial (cap.3)

o homem cordial

– Antes de tudo temos que saber quem deu a letra. Um crime desses em uma cidadezinha dessa só pode ser coisa dada.

Foi o que o investigador P. me disse quando voltamos a nos encontrar e na hora me veio à mente alguém. Mãos grosseiras, que mais parecem patas ou garras, olhar bovino que encaram o chão e atitude que finge obediência. À primeira vista parece um ser feito apenas para ruminar sob o sol com sua enxada e demais ferramentas, porém, de repente, com a ingratidão das bestas bate os cascos no chão e ataca a pessoa mais próxima, geralmente aquela a quem deve tudo. Depois tem aquela pele escura, curtida que mais lembra uma carapaça… Sei não… Tudo nele é suspeito.

– O caseiro. Ele não estava no dia – declarei.

– Sim. Já considerei essa possibilidade. Não acredito que seja ele. Não se mandou depois do ocorrido, além disso, vive nas terras dos pais do senhor com a família. Andei sondando e já tenho um suspeito. Vou averiguar um pouco mais para o tiro ser certeiro.

O suspeito era um dos filhos de um dos proprietários dos poucos pequenos comércios que ficam no pequeno centro da cidadezinha da região metropolitana de Florianópolis. Ele passa a semana na capital, supostamente estudando, e voltava para a casa dos pais nos finais de semana. Investigador P. o acompanhou pela cidade de Florianópolis, descobriu que é dado a cometer pequenos crimes. P. enquanto estava em seu encalço o flagrou roubando bebida em um supermercado e roupas em uma loja. Obviamente P. não o prendeu, nem o denunciou, afinal, são delitos de pequena monta.

A certeza veio ao encontrar o carro. P. conseguiu os registros da agência bancária no centro do município no dia da covardia feita aos meus pais. Pelo o que P. levantou achou um carro que não é da região e nunca mais voltou. Esse veículo também não era de algum turista, pois não foi visto próximo a nenhum dos pontos turísticos como a Igreja na praça central, nas estradas das trilhas e nem no hotel fazenda.

– É carro de vagabundo, não tem erro. Só apurei mais para ter certeza. Carro bem rebaixado e com películas nos vidros. Mandei as imagens para um amigo e ele conseguiu melhorar a imagem, conseguimos a placa.

Mas a placa não levava a lugar algum, os criminosos trocaram as placas quando foram cometer o crime. Porém, seguindo o filho do comerciante P. encontrou o carro. P. descobriu que o dono do carro era fichado, foi pego há quatro anos por receptação de mercadorias roubadas. O sujeito não tinha emprego e nem receita oficial, mas mantinha aquele carro e uma casa boa, segundo P., em uma das comunidades de Florianópolis. Ouvindo os relatos de P. descobri que a ficha criminal do dono do veículo era muito parcimoniosa. O canalha também era um pequeno traficante. Foi seguindo o filho do comerciante que encontrou o carro, o seu dono e sua casa.

– Pronto, aí está. Um mais um é dois – P..

– Sim. O senhor já achou dois, mas são quatro de acordo com o que meu pai e minha mãe relataram.

– Estou ciente disso. Esses outros dois podem ser qualquer um. Calma, o senhor não precisa fazer essa cara. Eu não disse que não dava para saber quem são os outros. O que quero dizer que ficar só observando não dará mais resultado. Chegou a hora de uma conversinha tête-à-tête.

Homem Cordial

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