O Homem Cordial (cap.4)

o homem cordial

– Vamos começar pelo filho do comerciante. O sujeito do carro é metido a valente, pode resistir em dar as respostas ou mentir. Depois se ele some os dois que faltam, que provavelmente foram colocados no serviço por ele, desaparecem.

– Eu gostaria de estar lá.

– Não é prudente. Para o senhor é uma situação pessoal, entendo suas razões, mas isso pode atrapalhar o nosso objetivo, o de conseguir saber quem são os outros dois.

– E saberei me importar.

– O senhor não está habituado a isso. Existe uma distância razoável entre mandar e fazer.

– Não se preocupe, eu sei como me comportar em qualquer situação. Só irei me pronunciar quando o senhor já tiver obtido a resposta.

– Hum… E o senhor irá aguentar assistir aos procedimentos?

Não me irritei com o investigador P., muitos da minha posição preferem fingir que o mundo não é como é. Dessa maneira, idealizando tudo, fantasiando que em determinadas situações não é necessário tomar atitudes não protocolares, tornam-se alienados e ficam surpresos quando vislumbram a forma como a ordem é mantida no mundo. Algo extremamente deplorável, ingenuidade só admissível em crianças.

Não sou desses, ortodoxia é estreiteza e por isso me fiz presente. Depois, é salutar viver novas experiências.

O rapaz tinha um rosto impúbere, quase angelical que em nada denuncia o canalha que é. Impressionante como as faces do mal são inúmeras. O rapaz estava apavorado, foi capturado durante a madrugada enquanto caminhava para a república onde morava, vindo de um bar. Eu não vi a captura, apenas fui informado dela, tinha que ter apenas as pessoas estritamente necessárias para evitar contratempos. O veículo onde me encontrava ficou na rodovia esperando o do investigador P.. O carro do investigador passou pelo o nosso e começamos a acompanhá-lo. Entramos em uma construção abandonada nas proximidades da rodovia. Lá tudo estava escuro exceto  por uma lâmpada que projetava um facho forte sobre o rapaz amordaçado e amarrado a uma cadeira.

Removeram a mordaça e ao ser indagado o rapaz se vez de desentendido. Em resposta à cínica amnésia um colega grande de investigador P. aplicou dois potentes murros no rosto do rapaz. Ainda tentou prosseguir com sua atuação patética e recebeu mais alguns murros dos punhos anteriores. Choramingou, contudo permaneceu negando. Isso me impressionou.

Métodos tidos como antiquados podem, por vezes, ser muito eficazes. O flagelo pode vir a ser amigo da verdade. O rapaz decidiu confessar após ter dois de seus dedos esmagados por um martelo. Era um frangalho, aquela face quase de bebê estava rota, não mais parecia um garoto, e sim um vagabundo roto de tanto anos de bebedeira. É isso, a justiça revela o a essência dos indivíduos, faz o interior virar pele. Expõem o demônio vestido de anjo.

Deu os nomes dos indivíduos. Contudo, investigador P. é um homem precavido e sabe que muitas vezes nem o suplício redime certos caracteres, algumas almas simplesmente não possuem salvação. Tinha um roteiro preparado para ser interpretado pelo o nosso réu. O fez ligar para o criminoso dono do carro, o que idealizou tudo, pois o rapaz tinha apenas visto a oportunidade, quem a materializou foi ele.

A encenação funcionou, o rapaz ligou para o facínora e disse saber de uma casa fácil de invadir em um bairro de Florianópolis e mencionou pelo nome os dois outros sujeitos que atacaram meus pais para participar desse suposto novo crime. Pela resposta do criminoso ficou evidente, os dois nomes dados eram mesmo dos até então anônimos invasores.

O rapaz foi retirado da cadeira e suas mãos foram presas atrás das costas. Perguntou o que iam fazer com ele. Investigador P. disse que o iam deixar no local de sua captura. Receoso o rapaz argumentou.

– A gente não achou que eles fossem reagir. São velhos por que reagiram?

Essas palavras foram como uma punhalada. Outra. Não podia aturar essa inversão. O hipócrita responsabilizou meus pais, aqueles nobres anciões, pela covardia cometida.

– Agora a culpa é dos meus pais! É isso, canalha! – peguei-o pela gola da camisa com uma das mãos e o soquei com a outra.  Ele foi ao chão. Até tentaram me conter, mas minha respaldada fúria foi superior. Assim que o corpo atingiu o chão saltei sobre ele e o soquei não sei quantas vezes. Parei apenas quando não era mais possível reconhecer a face do rapaz. Mal se poderia se deduzir que ali antes havia um rosto humano, a não ser pelo cabelo e as orelhas.

Levantei com as mãos ensanguentadas. Investigador P. disse-me algo, não compreendi, estava atordoado. Mais tarde soube que dissera para me lavar e que era necessário queimar as roupas que eu vestia.

Homem Cordial

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