O Homem Cordial (cap.5)

o homem cordial

Os três que faltavam da quadrilha que saquearam a casa de meus pais também foram pegos. Todos na mesma noite. Os meliantes tiveram o mesmo tratamento do filho do comerciante e no mesmo local. Posteriormente foram conduzidos até um local ermo, digno de um cenário de filme, possuía algo de romântico e de melancólico ao mesmo tempo. O lugar fica próximo ao mar, é possível sentir sua presença e ouvir suas ondas. Enfim, é impossível não perceber a cumplicidade e a aprovação da natureza ao meu ato de justiça. Prova disso é a forma como ela moldou aquele cenário que nos acolhe e não nos permite ser visível a olhos alheios.

Para chegar até lá, onde a natureza me estende a mão, é preciso passar por um caminho de terra, nele, percebemos uma infinidade de eucaliptos. Após alguns minutos nessa estradinha desligamos os veículos e a abandonamos nos embrenhando entre as árvores. Foram colocados de joelhos no chão e ainda estavam com os capuzes cobrindo seus rostos quando projéteis de abafados disparados atingiram suas cabeças. Não era preciso dizer mais nada, o que tinha de ser dito já o fora momentos atrás, antes de rumamos para o ermo lugar. Além disso, eu estava cansado desse fardo, fisicamente esgotado e minhas mãos, inchadas, latejavam muito, parecia que tinha socado uma parede por horas.

As covas já estavam prontas, eram razoavelmente espaçadas, caminhamos um bocado para chegar a cada uma delas. O processo foi o mesmo nas três vezes, o cadáver é atirado no buraco e sobre o corpo é despejado abundantemente um produto para acelerar a decomposição.

Estava exausto, tão extenuado que naquele momento não auferi os louros da vitória, não logrei contemplar a justiça realizada, o mundo posto de volto em seu devido lugar. Não havia como, naquele momento meu esforço moral foi tanto que me consumiu. Tinha que me recuperar, minha mente estava vazia, era o cansaço da ação, então, fui para casa descansar, dormir o sono dos justos.

Assim, por dois dias fiquei como em torpor, no terceiro dia comecei a recuperar o vigor. De início pensei na família do rapaz, o filho do comerciante. Os pais nunca virão a ter notícia sobre ele, jamais saberão o que lhe ocorreu. Apiedei-me daquela família que ao que tudo indica não possuía responsabilidade alguma sobre a má índole do filho. Refleti a respeito de algumas formas para poder minorar a aflição deles, a qual já começara e eu estava ciente disso.

Porém, foi uma brevidade. A ligação com o rapaz iria despertar a passionalidade tão típica nas pessoas e pôr fim a qualquer senso de razoabilidade, assim as probabilidades de eu acabar me comprometendo eram grandes. Em acréscimo, ao invés de minorar a dor da família do rapaz, qualquer informação fornecida por mim apenas iria agravá-la drasticamente, pois, revelaria a eles a baixeza que seu filho foi capaz de cometer. Melhor deixar um fio de esperança no coração dos pais que fazê-los ter a certeza que em sua seara crescia uma erva daninha e que a melhor atitude foi ceifá-la o quanto antes.

Homem Cordial

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