O Homem Cordial (cap.8)

o homem cordial

O meu garoto voltou para casa. Graças ao seu esforço passou em uma das melhores faculdades da bela profissão que pretende seguir. Mas um tropeço, tão comum e tão natural na juventude rumo ao discernimento e à sabedoria, lamentavelmente ocorreu. Tudo se deu em uma madrugada de farra com colegas. Quem nessa pouca idade não faz das suas, quem com tão pouco vivido não praticou uma troça que passou dos limites? Diga-me. Andavam pelas ruas da gigantesca cidade e em uma delas encontraram uma dessas degradadas criaturas que vivem nas ruas empesteando a cidade e amedrontando o cidadão com extorsões que nenhuma autoridade dá fim e tolhendo o digno cidadão no seu sacrossanto direito de ir e vir.

Deveriam se solidarizar com a perdida criatura, mesmo sabendo que é pouco provável ser possível tirá-la das trevas, pois carrega esta dentro de si e que é a única responsável pelo estado deplorável pelo o qual se encontra, enfim, a cada qual segundo suas obras. Invés disso fizeram uma experiência… uma brincadeira que teve consequências ruins. Assim, deixo claro que não aprovo o ato do meu filho, agiu mal e de forma inconsequente e eu o admoestei sobre esse errado proceder.

Agora, o garoto tem uma consideração muito maior pelo próximo, não enxerga mais ninguém como um objeto ou como um brinquedo com quem pode fazer o que bem entende. Cabe lembrar que se portava assim por ingenuidade, por falta de percepção maior da realidade, e não por má índole. A triste experiência foi muito ilustrativa ao garoto, graças a ela hoje é bem menos menino do que já fora, deu algumas largas passadas para ser tornar homem. O acidente com o morador de rua contribui muito para o amadurecimento do garoto.

Entretanto, o incidente ganhou ares de tragédia. Um indivíduo viu a despropositada brincadeira e a tomou por crime. Veja só! Ainda teve o desplante de querer se fazer herói ao se autoproclamar testemunha…

Ele participou da conspiração contra o garoto, foi a peça principal dessa vil maquinação para vilipendiar a honra do menino e para o colocar atrás das grades. Que pai eu seria se permitisse que essa perseguição tivesse continuidade?

O sujeito era um feirante que começava o seu dia enquanto o garoto terminava o seu. É um desses infelizes que não conseguiram encontrar meios para realizar seus sonhos e na maior parte dos casos nem sabem o que querem, não falo dos delírios como ser um grande jogador de futebol ou um famoso artista do funk, por isso ficam pelo caminho, pois, quem não sabe para onde quer ir pega qualquer vereda e fica pelo caminho, enfim, é um fracassado na vida. Por isso esses fracassados desejam destruir quem sabe para onde vai.

São Iagos, não conseguem ascender e culpam os outros por seu enredamento e têm na conta de infâmia a justa promoção dos que merecem, pois assim não precisam reconhecer suas falhas e tropeços. Esse feirante, esse Iago tupiniquim quis fazer de meu garoto o seu Cássio. Quis punir Otelo, o destino, na pessoa que julgou ser sua preferida e sua favorecida. Não foi acaso, foi persistência e objetividade. O garoto, apesar dos tropeços, sabe qual local almeja alcançar.

A fortuna sorri a quem sabe por onde caminhar e tem pai para orientar. Ao tentar destruir o garoto conseguiu tão somente precipitar sua ascensão.

Nem sequer pôde concluir a faculdade aqui, faltava apenas um ano. Para evitar maiores transtornos mandei para o exterior, dessa vez para a Europa, o que só se daria após a faculdade, agora terá que terminar lá. Todavia este arranjo mostrou-se muito melhor que o traçado anteriormente, está conhecendo a fundo outra cultura, mais refinada.

Como já disse Maquiavel, “acontece com a Fortuna, que demonstra a sua força onde não encontra uma Virtù ordenada, pronta para resistir-lhe e volta o seu ímpeto para onde sabe que não foram erguidos diques ou barreiras para contê-las”.

Eu resisti e impedi que essa força soterrasse meu filho. Posso até ser condenado por olhos ressentidos de arruinados que foram abatidos por não saberem se precaver à Fortuna. Contudo, aos olhos do seu estou absolvido e louvado.

O providencial assalto evolui para latrocínio e, assim, o inquérito perdeu sustentação.

Homem Cordial

FIM

 

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