A Lenda (cap.2)

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O Grande Líder, nosso Redentor, não é burro, como divulgam por aí facínoras, ignorantes e leprosos morais. A Sapiência das sapiências, nosso amado Condutor, é transcendental. Está muito além das aflições mundanas dos seres humanos como certo e errado, verdade e mentira, justiça e injustiça, moral e imoral.  Um ser muito maior que esse ridículo maniqueísmo. Superou em tamanho grau a reles condição humana que não sabe como dialogar com os de aspecto semelhante ao seu. O Grande Líder até ensaiou algumas tentativas, mas não adiantava era como um ser humano convencional tentar explicar a teoria da relatividade a uma pedra (lembrando, como expressou sua Grandeza: Nada é relativo. Amém). Era feito de outra essência, no corpo da sociedade humana é a mente, a consciência, responsável pelas altíssimas reflexões como também por comandar todo o organismo em todos os seus pormenores. Os que não agem conforme os desígnios dessa estrutura superior têm de ser imperativamente corrigidos, afinal um rim deve fazer o que um rim faz, qualquer fuga disso põe em risco todo o corpo (ou sociedade). Portanto, não cabe ao rim, ao fígado decidir por si mesmo como deve proceder, e sim à mente. Ah, não podemos esquecer os corpos estranhos, os parasitas, os vermes, os vírus, para esses não há cura, para o bem de todos devem ser eliminados, como os do jejum forçado, do contrário esse Mal irremediável irá se alastrar pelo corpo, corrompê-lo por toda parte e por fim aniquilá-lo.

Em suma, esse é o martírio do Grande Líder. Seu corpo esta na Caverna da humanidade e sua alma no Mundo das Ideias. Para realizar a remissão dos povos se sujeitou a conviver nesse decadente mundo, em emigrar do plano superior ao qual pertence. Essa autorrevelação o Sumo Comandante não fez por si mesmo, como dito antes, está muito aquém de sua elevadíssima essência debater, refletir nessa rasteira frequência humana, mesmo que consigo mesmo, por isso essa filosofia lhe foi autorrevelada por um professor de filosofia, ainda nos primeiro anos da Redenção, chamado Adulador Mesureiro. O professor logo se tornou seu porta-voz.

Mesureiro conseguiu fazer-se entender pelos demais, contudo não pelo grande líder que o pôs no cargo de porta-voz, entretanto isso não era relevante, pois ele arrancava aplausos entusiasmados para si, o Faraó da paz e da felicidade, e ovações fanáticas. “Viva o Grande Líder!”, “Nosso Salvador!” “A Cura de todo o Mal!”.

Entretanto, Adulador durou na posição apenas sete anos. Um belo dia, não para ele, todavia, quando O Senhor da Verdade, O Único conhecedor das coisas em si, afirma ser o dia belo ele o é, mesmo quando há nevasca torrencial em meio a um frio siberiano, temos de ter fé no Grande Líder, o frio assassino e a neve agressora nada mais são que fenômenos, que impressões de nossa deficiente capacidade de entender o mundo. Recapitulando, um belo dia Mesureiro informou ao Grande Líder de seu casamento para o próximo final de semana e rogava que lhe desse a honra de estar presente durante a cerimônia. Tamanha traição transtornou o Magnífico Timoneiro, ele ia casar e nem pedira autorização, ainda por cima vinha com todo esse sarcasmo disfarçado de felicidade pela expectativa de um futuro a dois. Justo ele, seu cãozinho mais dileto. Era como, sei lá, ser apunhalado pelo seu labrador, tão ordeiro, pau para toda obra. Como daquela vez que em particular lhe anunciou um pensamento, perdão, já sabemos que não atua nesse ridículo canal humano, anunciou sua vontade de mandar executar sua prima.

– Pois sem meu consentimento nutri sentimentos por um capitão da guarda e não para comigo, como é de minha vontade. Desconfio que ela se deite comigo apenas por obrigação. Às vezes, olha o absurdo, tenho a impressão que ela se sente violentada.

– Ó Digníssimo! Ó Grande Condutor da nação! Ela esta cometendo alta traição e quando diz que O ama, mas ama outro isso é perjúrio. A pena capital deve ser aplicada, a menos que não seja de Vossa vontade.

Tratava-se de um de enormidade, de uma canalhice sem tamanho, Adulador agiu por conta própria, como pôde se atrever a ter autonomia? Mas o nosso Anjo Protetor nos livrou desse Mal, pegou seu busto posicionado sobre uma pequena coluna grega e golpeou o infiel no rosto. Atordoado, Mesureiro vai de encontro ao chão, o grande líder sobe em seu corpo e golpeia seu crânio com o busto repetidamente até tudo virar uma pasta uniforme, sendo impossível diferenciar o que um dia foi face do que um dia foi cérebro. Pronto, o centro irradiador da vontade própria estava destruído. O Bem venceu.

Caminhante

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