A Lenda (cap.4)

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Após escolher José dos Santos o grande líder decidiu mudar seu nome, achou mais adequado Adulador Mesureiro. Mas para não ser confundido com o anterior o chamou de Adulador Mesureiro II. Contudo, concluiu, só podia existir um Adulador Mesureiro. Portanto, o anterior nunca existiu. Com isso José passou a se chamar apenas Adulador Mesureiro, pois ilogicamente alguém poderia achar que o fato de haver um Adulador Mesureiro II antes existiu um Adulador Mesureiro I. Sendo que o último nunca existiu, apenas aquele, veja como facilmente podemos ser enganados pelos nossos sentidos. Entretanto esse mundo terreno é traiçoeiro e ignorante. Pilhas e pilhas de arquivos e imagens evidenciam o inconcebível: a existência do porta-voz dos primeiros anos da Redenção, Adulador Mesureiro. Tamanha conspiração tinha de ser eliminada e foi. As fotos, as filmagens e os documentos não foram adulterados, foram corrigidos. A verdade foi resgatada. Como, por exemplo, na foto do quinto ano de comemoração da Redenção, a foto revelou uma mentira, a imagem de Adulador Mesureiro I que nunca existiu. Eu sei, pode soar um tantinho absurdo, mas temos que crer, temos de lutar arduamente contra esse grande empecilho para o triunfo total da Redenção; a memória.

Tudo estava nos conformes graças à mão firme e acalentadora Dele. A locomotiva da humanidade foi arrancada das Trevas e rumava ao Paraíso. Mas nós, a grande chaga do Redentor, começamos a colocar tudo a perder. Como diz uma vez o poeta “tememos mais a felicidade que qualquer outra coisa”. A economia entrou em frangalhos, as pessoas morriam de fome. Simplesmente não agiam conforme Sua determinação. Como podiam desobedecer A Consciência? Extrapolamos todos os limites de Sua benevolência. Diante desse nível de teimosia e de canalhice teve de agir. Mandou abrir todos os túmulos e chicotear todos os cadáveres até a morte. Não sejam ridículos, os cadáveres estavam vivos, pois o Grande Líder assim o disse. Embora fingissem muito bem, ao serem golpeados não emitiam nenhum gemido, não davam sequer um tremor, sem contar o cheiro de carne podre exalado dos corpos. Impressionante o quanto a mentira pode ser convincente. Diante dessa cena, por um ínfimo momento, cheguei a cogitar a remota possibilidade de aqueles fingidos realmente estarem sem vida. Tal hediondo pensamento me encheu de culpa e remorso e tivesse de confessá-lo ao Grande Líder. Dias depois consegui ter acesso a Ele, na Whiskeria Dream’s, e implorar por Sua absolvição.

– Ínfimo? Hediondo? Culpa? Remorso??? Raios! Não trouxe meu porta-voz. Tudo bem, ta perdoado. Mas, veja lá, não vai aprontar de novo. E vá Comigo!

Após esse bendito encontro a paz voltou a reinar em mim. Ah… Como somos enganados pelos nossos sentidos, trapaceados por nós mesmos. Veja o absurdo ao qual pode nos levar a nossa precária capacidade de entendimento. O ingênuo leitor pode considerar essa narração uma mera ficção e o Grande Líder uma simples personagem de minha imaginação, com a qual de forma irônica teço algum tipo de crítica. Nada disso. Sou simples instrumento da vontade do Justíssimo para revelar a via crúcis enfrentada por Ele em nosso favor. O Bem age por meios que nossa tola filosofia nem sequer cogita. Além de propagar Seus atos, a minha missão também consiste em trazer a esperança àqueles ainda não alcançados pela Redenção. Por favor, não sejam cegos de juízo em duvidar desse Salvador da humanidade que em nome da liberdade oprimiu todos, que em nome da vida matou milhões. Assim tinha de ser. Não nos deixemos enganar por nossas infantis impressões.

Caminhante

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